Como ser engraçado

Gustavo Melo Czekster

De vez em quando, até o bom Homero cochila”. Não fui eu quem disse isso, foi Horácio. Está lá, no verso 359 da “Arte poética”: “quandoque bonus dormitat Homerus”. Essa frase, dita com o necessário tom sério, sinaliza uma grande verdade: não existe ninguém perfeito. Todas as pessoas, mesmo as melhores, estão aptas a cometerem erros. Alguns equívocos podem ser fatais — olhar para o lado errado na hora de atravessar a rua, por exemplo — , outros podem virar parte do anedotário pessoal que nos cerca, mas cometer erros faz parte da nossa essência.

No entanto, mudando um pouco a entonação emprestada à frase e adotando um tom pícaro, podemos entender que, às vezes, até as melhores almas podem aprontar travessuras e maldades pelo simples prazer de rir um pouco do desconcerto do seu semelhante. Até mesmo Homero pode se dar ao luxo de cochilar da seriedade da sua tarefa de ser o veículo corporal que contém “Ilíada” e “Odisseia”. A vida é algo tão sério e passa tão rápido que precisamos ter alguns relaxamentos e, apesar do que dizem, aprontar pequenas brincadeiras com os outros realmente deixa os nossos dias melhores.

Quando se trata de mentes como as de artistas, então, a criatividade para o mal não tem limite. Por muitos anos, mantive um hábito: no meio das conversas, inesperadamente, quando alguém estava no auge de uma história, eu costumava sentenciar, em tom sério, “muitos filmes pornô começam assim.” A pessoa dizendo que fez um bolo de cenoura no sábado à tarde ou que atravessou a rua ou que tirou a roupa no varal e escutava “muitos filmes pornô começam assim”. Diante da minha seriedade, a mente delas tentava entender a maneira com que o fato cotidiano narrado chegaria a um filme pornográfico e, como geralmente não tinham a mínima ideia de onde viera a minha frase, preferiam ignorá-la e seguir adiante, achando que eu estava louco, mas um clima estranho permanecia rondando a conversa. Foram muitas intervenções minhas, algumas com pessoas que eu sequer conhecia direito, mas um dia percebi que estava viciado nisso — não escutava mais a outra pessoa, ficava esperando o momento mais estupendo para inserir um “muitos filmes pornô começam assim” — e decidi parar. Ou melhor, mudar de maldade. Hoje faço outras, mas é claro que não irei revelar aqui.

Quase ninguém sabe, mas copiei essa ideia de um dos escritores mais zueiros que já existiu. O inglês H. G. Wells, autor de “O homem invisível” e “Guerra de mundos”, era uma pessoa acostumada a pregar peças nas pessoas, em especial naquelas que não o conheciam direito. Uma das suas diversões era dizer frases inexplicáveis e fora de contexto, e ver como os interlocutores lidavam com o imponderável. Foi assim que ele agiu com o também escritor P. G. Wodehouse. Os dois tinham acabado de se conhecer, estavam no instante inicial da conversa, e Wells falou, em um rompante “meu pai era jogador de críquete profissional”. Anos depois, ao contar essa história em uma entrevista, Wodehouse comentou: “Se existe uma resposta boa para isso, por favor, me diga qual é. Pensei em dizer que o meu pai tinha um bigode branco, mas preferi assentir com a cabeça e então passamos a falar de outros assuntos”.

Outra brincadeira que H. G. Wells aprontou foi com o também escritor C. P. Snow. Era tarde da noite, e os dois estavam sentados no bar de um hotel, conversando e bebendo, quando ficaram em silêncio. Após alguns minutos contemplando os próprios copos, Wells subitamente perguntou: “Você já pensou em suicídio, Snow?”. O escritor pensou algum tempo em como responder a essa pergunta inesperada e foi cauteloso: “Sim, já pensei.” Wells suspirou fundo: “Eu também… mas só depois que passei dos setenta anos!”. Detalhe é que ele tinha completado essa idade na semana anterior.

Quando estava no campo da pegadinha verbal, Wells era mestre na arte de constranger seus interlocutores. Dava para imaginar as suas risadas depois desses chistes. O problema era quando as suas brincadeiras aproximavam-se perigosamente da ilicitude. Em outra ocasião, Wells estava em uma festa em Cambridge e, ao passar pela chapelaria antes de ir embora, apaixonou-se por um chapéu que não era o seu, Mentiu para o funcionário e levou consigo o objeto pertencente a outra pessoa. No interior da aba, estava o nome e endereço do seu proprietário. O escritor não resistiu: enviou-lhe um bilhete, no qual escreveu “Eu, H. G. Wells, roubei o seu chapéu. Eu gosto do seu chapéu. Vou ficar com o seu chapéu. E sempre que olhar dentro dele irei pensar em você… Eu tiro o seu chapéu para você!”.

Outro escritor acostumado a pregar peças era Jack London. Ele ainda tinha o agravante de ficar ainda mais criativo quando tomava álcool; a quantidade de bebida ingerida era diretamente proporcional às suas traquinagens. Em uma viagem como marinheiro, London acabou chegando ao porto de Yokohama, no Japão. Ele estava acostumado a entornar uma garrafa de uísque por dia, e resolveu testar de forma empírica qual era o grau de coeficiente alcoólico do saquê. O resultado é que, durante uma semana inteira, ele ficou em um bar, entornando uma garrafa de saquê atrás de outra, às vezes comendo, outras dormindo, sem sair da mesa.

Os donos do bar chamaram a polícia para resolver a situação e eles decidiram expulsar o escritor do país. Quando estavam o levando até o porto, Jack London parou perto das águas. Sabe-se lá qual foi o argumento que usou, mas inventou uma história para os guardas. Disse que, graças à ingestão desmesurada de álcool, ele se tornara capaz de respirar debaixo da água. Deve ter inventado testemunhos, relatos e até mesmo pesquisas científicas, mas o impressionante foi que convenceu os guardas de que estava falando sério ao dizer que, ao invés de voltar de barco para os Estados Unidos, ia retornar caminhando debaixo d’água.

A polícia permitiu tal insensatez, e Jack London jogou-se nas águas, mergulhando. Eles esperaram algum tempo e, ao perceber que o escritor não voltava, cumprindo a promessa de respirar debaixo d’água, foram embora e relataram o ocorrido para o seu chefe. Imediatamente o homem colocou equipes para buscar o homem desaparecido, sem sucesso. Passados dois dias de busca, registraram-no oficialmente como morto.

Ninguém sabe direito como aconteceu, pois London estava em um estado de severa embriaguez, mas um barco registrou a sua chegada no final do dia e o levou de volta para os Estados Unidos. Mesmo assim, por algum tempo no Japão, acreditou-se que o escritor realmente tinha a capacidade de sobreviver nas profundezas do oceano quando estava muito alcoolizado. É o poder de uma boa história enfrentando a realidade, tudo em benefício da mentira e da empulhação alheia.

O Brasil também teve sua dose de escritores brincalhões. Por mais inusitado que possa parecer, José de Alencar era um escritor mais renomado na época em que viveu pelo espírito zombeteiro do que propriamente pelas suas obras. Hoje temos a tendência de pensar que o humor nasceu no nosso século, mas existiu um tempo em que ele era muito mais livre, mais sarcástico e mais hábil, como aconteceu com Gregório de Matos Guerra e as “Cartas chilenas” ou Amaro Juvenal/Ramiro Barcelos com o seu “Antonio Chimango”.

Contudo, é provável que o escritor mais irônico e contundente que já passou pelo país não tenha deixado nenhuma obra escrita como sua sobrevivente. O Frei Francisco Xavier de Santa Rita Bastos Baraúna, mais conhecido como Frei Bastos Baraúna, tocou terror na sociedade baiana de 1785 a 1846. Não tinha instituição, membro da sociedade ou qualidade que estivesse a salvo da sua verve satírica — ele era um demolidor de reputações.

Infelizmente, restam poucos exemplos da sua obra, e todos ligados a fatos escabrosos que se tornaram folclóricos. Era uma época diferente, em que os escritores não faziam questão de reconhecimento pelos seus escritos, mas pela habilidade com que esgrimiam a sua liberdade autoral. Existia uma distinção entre escritores que escreviam e aqueles que contavam, e as obras dos segundos desapareceram ao seu devido tempo. Era uma literatura mais oral do que escrita, para ser consumida e incensada ao tempo da sua produção, não para durar. Devia ser uma literatura divertida, como um sarau interminável feito com o propósito não de destacar o seu nome, mas para se juntar ao vasto mar de histórias do mundo.

O Frei Bastos Baraúna costumava participar de encontros literários, e a sua habilidade era tão grande que o crítico Melo Moraes afirma que seus versos eram tão poderosos que, acaso fossem juntados, rivalizariam com Bocage. Silvio Romero o chamou de “Bocage de burel”. Nesses ambientes, ele era considerado um poeta obsceno, pois geralmente seus poemas e chistes encerravam-se com alusões sexuais.

Entretanto, a fama literária do Frei firmou-se graças aos seus sermões, que lotavam a igreja onde ele costumava pregar. Podia acontecer de tudo nessas ooportunidades, desde pregar bêbado quanto fazer discursos acalorados contra pessoas da sociedade. Nesses sermões, o escritor baiano se equilibrava perigosamente nos limites, usando uma estratégia arriscada: frases de efeito, seguidas de silêncio e, em seguida, uma desconstrução da frase inicial. Fazia isso várias vezes e, em cada uma delas, escandalizava e encantava os fiéis.

Ficou lendário o sermão na catedral de Salvador em que o Frei Bastos Baraúna, ao melhor modo de Wells, iniciou a sua fala com contundência: “Maldito seja o Padre! Maldito seja o Filho! Maldito seja o Espírito Santo!”. A plateia ficou chocada ao ouvir aquelas palavras proferidas do púlpito. Um burburinho de agitação sacudiu a catedral e o arcebispo se levantou para intervir, quando o Frei continuou: “Bradam os demônios do inferno! Assim dizem os condenados, assim dizem os ateus”. O público voltou a se acalmar.

Outra ocasião, o Frei Bastos Baraúna chegou atrasado na catedral e, tão logo começou a pregar, disse que tinha se perdido por estar “numa seresta no meio de dengosas mulatas de quadris roliços e seios ondulantes”. Ao perceber os olhares escandalizados da congregação, salientou que aquela era uma visão proporcionada pelo Diabo, que ele a enfrentou e, por isso, tinha se atrasado.

Também se tornou folclórico o sermão que o Frei Bastos Baraúna decidiu fazer em homenagem à São Benedito para uma igreja repleta de seguidores do Santo, e iniciou a sua fala com um ataque virulento: “Além de negro, bêbado e ladrão!”. No ato o público se levantou, com a intenção de linchá-lo e amaldiçoá-lo, mas o homem prosseguiu: “Repito sim! Negro, bêbado e ladrão! Negro porque o demônio escureceu-lhe a pele, já que não podia lhe escurecer a alma! Bêbado, sim, porque a graça divina o trazia em perpétua ebriedade! E ladrão, realmente, pois roubava o Menino Jesus dos braços da Sua mãe amadíssima!”.

Em outro dia, o Frei Bastos Baraúna saiu atrasado para a missa, vindo de uma noite de carteado regada à bebidas e mulheres. Estava tão atarantado que levou consigo um baralho. Ao parar diante do altar, ergueu a mão e as cartas caíram no chão. Sem se perturbar, o homem sinalizou para um menino próximo pegar as cartas caídas e dizer os naipes à medida que as recolhia, tarefa da qual o escolhido se desincumbiu muito bem.

Assim que a última carta foi recolhida, o Frei Bastos Baraúna mandou o menino enunciar o Credo. O menino mal falou “creio em…” e o homem gritou que isso era um absurdo: era inacreditável que um jovem conhecesse todos os naipes de um baralho e não soubesse sequer enunciar a oração mais importante da Igreja Católica. Aquele era um claro sinal da deterioração dos tempos, e durante duas horas o Frei fez uma longa exortação contra os vícios da juventude e pedindo uma educação mais rígida. Acabou aplaudido.

O ofício de criar geralmente é solitário, e é saudável que tantos escritores encontrem maneiras de burlar esse sentimento de constante insuficiência e fracasso adotando um comportamento mais irônico. Tenho restrições com as pessoas que levam a vida muito a sério. O que realmente fica são os momentos divertidos, todo o resto passa.

Percebo um claro movimento que tenta transformar a sociedade em algo mais sério, mais circunspecto, mais formal. Tiraram até o conforto da nossa risada, o relaxamento de realizar uma travessura bem empregada. Muitas pessoas escondem o seu humor atrás de memes grosseiros ou de piadas agressivas, mas a verdadeira arte de se divertir não precisa destratar o outro, mas ser mais criativo e inesperado do que ele.

Não são poucos os que confundem inteligência com seriedade, e estão errados, pois a maior prova de inteligência é usar a cabeça para fabricar situações engraçadas. Nem toda pegadinha precisa ser sexista, racista, homofóbica ou agressiva; as melhores são aquelas que não só não nos fazem rir, como ainda dá orgulho de termos sido enganados. Portanto, no Carnaval, é bom se divertir, mas o melhor ainda é dar risadas com inteligência, e jamais esquecer: muitos filmes pornô começam assim.


Gustavo Melo Czekster nasceu em Porto Alegre, em 1976. É advogado e mestre em literatura comparada pela UFRGS. Lançou pela Dublinense o livro de contos O homem despedaçado.

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