Matt Black

Feito um homem sem língua

Por Gustavo Machado

Estou observando as obras de arte fixadas nas paredes, absorto em ideias tão abstratas quanto os temas ali materializados. Que lugar elegante e confortável, que poltrona gostosa, que cheiro bom de lavanda. Tudo caro, equilibrado, discreto. Perco-me sem pressa, pensando em nada. Até perceber que os minutos ali valem ouro. O meu ouro. Ela é quem me lembra disso, descruzando as pernas sonoramente, como aquelas clarinadas que fazem os soldados distraídos deixarem o mundo da lua antes que uma bala de fuzil os apanhe em cheio.

Você tem sonhos recorrentes? Não tenho. Não tenho, mas não digo que não tenho. Abro a boca pra falar alguma coisa, seria o natural a se fazer, só que estou sem recheio. Movo os lábios feito um homem sem língua, um mudo de filme antigo. Vá no seu tempo, vá no seu tempo, ela me diz, compreensiva, muito boazinha, fitando discretamente o relógio que eu sei haver atrás da minha cabeça. Flerto com a mesa de centro com tampo de vidro que separa nossos territórios. Há uma moringa cheia de água fresca, dois copos e uma caixa de lenços descartáveis. Não tenho sonhos recorrentes e não tenho sonho nenhum. Meu sono é sempre uma espécie de desmaio, uma morte de cinco ou seis horas da qual ressuscito banhado em suor e paralisado por formigamentos no corpo todo. Que é que eu digo? Pra ela, eu sou um executivo que sofre com crises de ansiedade causadas pelas suas grandes responsabilidades. Então, não vejo problema em inventar um pouco mais. Tenho, eu minto. E, na falta de um sonho, conto parte da noite anterior.

É sempre a mesma coisa, eu digo, deixando que os vestígios da véspera escorram. Estou no banco do passageiro de um carro cheirando a novo que se desloca com maciez numa noite agradável. Ao meu lado, vejo as mãos do homem que nos conduz. Estamos seguindo um outro carro, que também suavemente vai indo à nossa frente. Entramos no bairro do nosso destino e, pela baixa velocidade, vemos as luzes azuladas dos aparelhos de televisão nas salas dos apartamentos. Numa das lojas fechadas, somente em uma, a vitrine está iluminada. Quero parar e tirar uma foto, mas não há tempo a perder. O carro da frente liga a seta, reduz, para e estaciona em frente a um edifício. Meu motorista apaga os faróis e faz o mesmo, mantendo uma distância ainda mais segura. O homem do carro da frente desce, bate a porta e se afasta em direção à entrada do condomínio onde mora. Ainda nos primeiros passos, o alarme do seu sedan sofisticado é acionado. Desço também e o sigo caminhando muito rápido, mas sem fazer ruído; estou calçando tênis. Enquanto ele plac-plac à frente, eu deslizo lobo atrás, flutuo como um fantasma. Quando estou perto, saco uma pistola que me parece surpreendentemente leve, destravo o mecanismo de segurança e atiro três vezes nas costas do homem. Talvez seja impressão, eu penso, enquanto ele vai se abaixando como se estivesse com muito sono e precisasse dormir ali mesmo, mas acho que escuto o barulho dos projetis cortando o casaco de couro muito sóbrio que ele usa. Volto ao meu carro. O motorista, cujo rosto sigo sem enxergar, arranca com precisão e suavidade. Passamos pelo homem baleado que agora está bem acomodado e imóvel na calçada. Será que ele morreu?, ele me pergunta. Você já levou três tiros nas costas e continuou vivo?, eu devolvo. Ele sacoleja os ombros, tartamudeando um tanto faz, e seguimos nosso caminho na tranquilidade de um passeio. Digo isso tudo e calo a boca.

Matt Black

Ela fica me observando em silêncio, com uma expressão indefinida com a qual possivelmente pretenda denotar uma inteligente curiosidade científica. Quem é este homem que você mata?, ela me pergunta, um esboço de sorriso no canto esquerdo da boca de lábios finos. É um homem que chegou na minha última lista de encomendas, tenho vontade de dizer. Mas não digo porque não sou idiota. Um homem que deve ter deixado alguém magoado ou falido. Então sacudo os ombros como o meu motorista, tanto faz, sei lá, não faço ideia. Vamos falar mais sobre ele na semana que vem?, ela me pergunta, já em pé, estendo a mão magra que eu aperto com medo de quebrar. Vamos, eu digo. Só que não vamos, porque ela também está na minha lista de encomendas. Não vai chegar à próxima semana. O que será que ela fez?, eu pergunto a mim mesmo. Talvez alguém tenha ficado ressentido depois de uma internação compulsória, de uma interdição forjada por filhos exploradores. Tenho que saber. Já estou no corredor e penso em voltar. Quero começar perguntando se os psiquiatras também têm sonhos recorrentes. Mas tenho medo que ela minta.

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Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.

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