A condição indestrutível de ter sido é o livro de estreia de Helena Terra, lançado em 2013 pela Dublinense.

Nascimento e morte de uma paixão,
por Luiz Ruffato

Muito se tem escrito sobre o amor, menos sobre a paixão. Talvez porque o amor, feliz ou infeliz, se consolide no tempo, enquanto a paixão é urgência do momento. O amor é necessidade de compartilhar a vida para vencer a morte, a paixão traz em si sua consumição. Vertical, o amor se edifica na memória, como parte constitutiva da própria história pessoal. Horizontal, a paixão, embora intensa, forma-se na superfície, e se dilui no tumulto dos dias. O amor é substantivo; a paixão, adjetivo. Por isso, o amor se entremostra singular, enquanto a paixão, em geral, carrega componentes comuns a todas as paixões. Eis, portanto, o grande desafio, escrever sobre esse sentimento tão impetuoso quanto fugaz.

Helena Terra enfrenta com brilhantismo este desafio em seu primeiro livro, A condição indestrutível de ter sido. Condensada em pouco menos de 90 páginas, a autora constrói a história de uma paixão avassaladora, que descentra, desconcerta, desequilibra, solapa, desatina, desgoverna. Desde o começo o leitor sabe que aquele relacionamento, nascido de um encontro casual pela internet, está fadado ao insucesso. Mas não a narradora, envolta em expectativas de felicidade. O fogo que se inicia como sedução pelas palavras – a narradora é uma ávida leitora, incapaz, no entanto, de ler as entrelinhas da existência – torna, pouco a pouco, incêndio incontrolável.

Fundada numa linguagem permeada por magníficos achados poéticos e eivada de humor e ironia, Helena Terra nos guia pelas novas sendas do Século XXI. O que resta, após a leitura deste inesquecível livro, é constatar que, se a forma de aproximação entre as pessoas, agora mediada pelas plataformas digitais, foi alterada, a fragilidade do ser humano mantém-se a mesma desde sempre. E a autora oferece essa reflexão por meio de um questionamento dos próprios alicerces do fazer literário – sem malabarismos, mas sem concessões. Raras vezes o leitor encontrará uma estréia tão auspiciosa.

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Luiz Ruffato – Escritor, autor de Eles eram muitos cavalos, Estive em Lisboa e lembrei de você e do ciclo Inferno provisório. Seus livros receberam os prêmios APCA, Machado de Assis, Jabuti e Casa de las Américas e estão publicados na França, Itália, Espanha, Alemanha, Portugal, Argentina, México e Colômbia.

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