Katniss Everdeen, a estrela de Jogos Vorazes

O que acontece com os personagens quando os livros acabam

De Gustavo Melo Czekster

Às vezes, as pessoas acham que tenho todas as respostas, mas, na verdade, estou no mesmo barco repleto de dúvidas que elas; assim como no quadro de Géricault, estamos juntos na balsa da Medusa, morrendo de fome e de sede, acenando com esperança para a sombra fugidia de um veleiro ainda distante. Ainda assim, guardo comigo certa perplexidade que, talvez, seja a força motriz das perguntas que recebo — as pessoas sabem que a sua pergunta gerará reflexos na superfície plácida da minha tranquilidade. Por isto meu espanto quando, tal como um Golias confiante levando uma pedrada na cabeça, recebi a pergunta desesperada de uma leitora de 14 anos: o que aconteceu com Katniss Everdeen depois que acabou o último volume de “Jogos Vorazes”? Ela foi feliz com Peeta? Virou governante de Panem?

Confesso ser a pessoa menos indicada do mundo para responder dúvidas sobre “Jogos vorazes”, escrito por Suzanne Collins. Eu li os três livros, sim, e não estão entre as leituras mais memoráveis que já realizei. Incomoda-me um pouco o caráter messiânico que atribuem aos heróis nas distopias juvenis; já me deixava com o pé atrás em “Duna”, do Frank Herbert, é o motivo principal pelo qual “Harry Potter”, da Rowland, tem um extraordinário efeito sonífero sobre mim, e continua me incomodando nos livros atuais. Os heróis e heroínas são deuses, criaturas além do bem e do mal, cujo nome é símbolo de esperança e de vitória, lindos, magníficos e perfeitos, e até as suas eventuais falhas servem para acentuar o perfil messiânico. Não quer dizer que eu não goste dos livros, mas eles me parecem limitados na sua abordagem do personagem principal, tão maniqueísta e seguro de si para um adolescente que me fazem rir. Ainda assim, entre as distopias juvenis, “Jogos vorazes” é a mais bem construída.

Contudo, a dúvida da moça despertou outra pergunta mais perturbadora: o que acontece com os personagens dos livros depois que eles acabam?
Quem nunca?

Uma resposta precipitada seria que os personagens desaparecem tão-logo o livro acaba. Eles estavam ali, o livro acabou e, pronto, os personagens morreram, sumiram, deixaram de existir. No entanto, as consequências da existência deles continuam gerando repercussões: lembramos frases; somos capazes de descrever tais pessoas imaginárias; emocionamo-nos lembrando dos seus dramas, damos risadas das suas piadas ou ironias. Alguns personagens saem dos livros e insistem em caminhar por aí: quem nunca pegou um crânio e, à moda de Hamlet, personagem de Shakespeare, disse “ser ou não ser, eis a questão?” Quantos jovens se suicidaram vestindo a mesma roupa amarela e azul de Werther, personagem de Goethe? Quantos viajantes foram a Dublin refazer os passos de Leopold Bloom, personagem de Joyce? Se acreditarmos que um personagem gera reflexos na realidade, alguns deles são mais concretos do que muitas pessoas vivas. Há pouco tempo fui informado de que a família Kardashian era real; sempre achei que eram criaturas ficcionais, e inclusive os preferia neste estado.

É difícil para um escritor desapegar do seu personagem: leva tanto tempo para burilar uma pessoa imaginária à perfeição, dar-lhe voz, estrutura, sonhos, medos e amores, que é muito injusto acabar o livro e descartá-la. Não só isso — existe a constante sensação de que o personagem tinha muitas histórias ainda para contar e foi o autor, este ser pérfido, que escolheu somente uma das narrativas e descartou as outras igualmente interessantes.

No passado, os escritores criavam um personagem e o faziam participar de uma série de histórias: Edgar Allan Poe colocou o chevalier Auguste Dupin estrelando três histórias de detetive (em uma delas, “O mistério de Marie Rogêt”, em uma atitude arrojada, Dupin aparece fazendo uma participação especial na história de um crime real, e isso só demonstra que Poe era um escritor de ideias precursoras); Georges Simenon criou o inspetor Maigret, alguém que resolvia crimes até quando estava descansando à beira mar; Agatha Christie tinha Hercule Poirot, o detetive belga que usava suas “células cinzentas”, até o dia em que resolveu fazer uma série de assassinatos no meio do ambiente bucólico das cidadezinhas inglesas, criando, como detetive involuntária para resolvê-los, a afável Miss Marple. Nos tempos atuais, incapazes de desapegar das suas criações, os escritores fazem trilogias, tetralogias e por aí vai (George R. R. Martin vai fazer uma heptalogia com o seu “Crônicas de Gelo e Fogo”, ainda que ele não seja o autor mais apegado aos seus personagens). Agindo dessa forma, prorrogam a vida dos entes imaginários e dão a impressão de que eles fazem parte de uma constante história em evolução.

Assim como parte das pessoas acham que os personagens morrem quando o livro acaba, outras pensam que eles continuam vivendo, mas dentro de um mundo ficcional próprio, um local com outras leis, universo fictício que caminha ao lado do nosso. Não existiria, assim, um cemitério de personagens, e sim uma forma de imortalidade que os permitiria transitar entre livros. Eu chamo a isso de intertextualidade, a ideia de que todos os livros moram dentro de uma única história, e cabe ao leitor atento seguir aquele novelo de tramas, puxando um livro, lendo, encontrando outro no seu interior, e mais outro, e assim por diante, em um caleidoscópio infinito.

Pensando assim, os personagens alheios podem acabar sendo convocados para aparecer em qualquer obra. Existem vários exemplos, mas ficarei com dois casos, ambos feitos pela mesma autora.

P. D. James, autora britânica de romances policiais, criou um detetive que apareceu em vários livros, o inspetor da Scotland Yard Adam Dalgliesh. Pretendendo abordar as suas tramas por outro ângulo, a escritora decidiu inventar uma detetive particular (a primeira mulher da literatura nesta profissão) chamada Cordelia Gray. Na sua estreia como protagonista, em “An unsuitable job for a woman”, após cuidadosa investigação, Cordelia resolve o crime. Ao confrontar a criminosa, contudo, escuta os motivos que a levaram a agir de tal forma e — horror dos horrores para um detetive — Cordelia se comove e resolve inocentá-la, adulterando as provas do crime. Não entrarei no mérito de que uma mulher foi quem sentiu piedade, sentimento em geral excluído deste tipo de história, pois bandidos sempre devem ser punidos.

Assim, tudo levava a crer que a criminosa escaparia impune, auxiliada pela mesma detetive que deveria capturá-la, quando surge no livro o outro personagem da própria P. D. James, o inspetor Adam Dalgliesh, e resolve investigar as condutas de Cordelia Gray. Um personagem sai de uma série de livros e se transforma no antagonista da outra personagem da mesma autora. É um exemplo de que, no mundo ficcional, personagens transitam livremente e, enquanto em um livro podem ser os mocinhos, no outro podem ser os vilões.

Outro livro escrito por P. D. James é igualmente divertido na abordagem dos personagens. Em “Morte em Pemberley”, a escritora — também grande fã de Jane Austen — pega os personagens de “Orgulho e Preconceito”, situando-os seis anos após os eventos deste livro, e os transporta para uma trama policial, iniciada pelo assassinato de George Wickham, o infame marido de Lydia Bennet. Apropriando-se da linguagem e dos costumes da época de Austen, P. D. James conduz os personagens de tal forma que os mesmos cenários outrora pacíficos transformam-se em locais góticos, repletos de mistério. Afinal, um castelo ou uma mansão pode ser algo romântico, mas também pode ser o local perfeito para tramas policiais. Ao final da leitura, percebe-se que, por um passe de mágica, a compreensão anterior sobre a trama de Austen também foi alterada. Na visão de P. D. James, os personagens continuam vivendo e crescendo fora do nosso alcance visual, e as suas aventuras nunca acabarão.

Um caso curioso seria o de Dante Alighieri, que, na “Divina Comédia”, transformou pessoas reais em personagens da sua ficção e, não suficiente, entrou para dentro da obra, transformando-se também em personagem. Seria uma forma de conseguir a dita imortalidade, encontrando um local onde a Morte não entra com a mesma virulência, ainda que seja necessário separar o homem do personagem.

Entretanto, dos personagens da ficção, o que teve o destino mais glorioso depois que morreu foi Aquiles. Poucos personagens souberam encaminhar melhor a sua vida pós-morte — ou pós-livro. Desde o início da Ilíada, é anunciado que Aquiles morreria. Sua mãe, Tétis, assim previu. Todos os adivinhos que cruzaram o seu caminho anunciaram a morte vindoura. Homero avisou cada grão de areia que cercava Troia que o heroi grego morreria. Ainda assim, Aquiles escolheu o seu caminho e, da mesma forma com que muitas pessoas preparam a aposentadoria, ele planejou o seu destino pós-morte.

Estátua representa Aquiles

Para começar, Aquiles disfarçou bem o local onde seria enterrado, conseguindo estar enterrado em vários lugares e em nenhum ao mesmo tempo. Na “Etiópida”, um drama escrito por Arctino de Mileto em VII a.C. e do qual só possuímos fragmentos, Tétis leva as cinzas do filho até Leuca, uma ilha que fica no Danúbio. Anos depois, Plínio, o Velho escreveu em “História Natural” que o túmulo de Aquiles não era mais visível, mas ainda existia como ruína. Arfeu escreveu que o herói grego não morrera, mas velava o mar no alto de uma montanha na Grécia. Pausânias, um geógrafo grego do século II d.C., disse que as ruínas do túmulo de Aquiles estavam cercadas por florestas e animais selvagens, sendo inacessíveis. Por sua vez, Pompônio Mela escreveu que Aquiles estava enterrado em Achillea, uma ilha localizada na fonte do rio Borístenes.

O geógrafo Dionísio Perigeta forneceu a mais interessante versão para o local onde estavam os restos do personagem da “Ilíada”, dizendo que seu túmulo estava em uma ilha chamada Leuca, que tinha tal nome por que era habitada por animais selvagens brancos, e que, neste lugar, além de Aquiles, estavam as almas de outros heróis, que caminhavam pelos vales desertos, cercados por feras fantasmagóricas. Eles ganhavam o direito de ficar nesta ilha em virtude do seu comportamento honroso em batalha. Uma espécie de Valhalla de personagens fictícios.

No “Périplo do Ponto Euxino”, guia de viagens escrito por Arriano de Nicomédia para o uso do imperador romano Adriano, encontra-se uma descrição detalhada de Leuca, onde consta que ela era habitada somente por cabras. O templo em honra à Aquiles continuava lá, esperando as oferendas dos navegantes, que deixavam vasos, comidas e outros objetos dedicados tanto ao guerreiro quanto à Pátroclo, seu fiel amigo. Afirma existir um oráculo no lugar, em que o próprio Aquiles dá conselhos para os passantes (podemos somente imaginar os conselhos coléricos que o fantasma de Aquiles deve proferir), oráculo um bocado meticuloso sobre o tipo de sacrifício aceitável ou não, bem como as suas quantidades. Acrescenta que Aquiles podia aparecer no sonho dos viajantes próximos da ilha e que, às vezes, surgia ainda como fantasma sobre as ondas, indicando os melhores lugares para um barco aportar.

Aquiles continua sendo cultuado, mesmo sendo um personagem e não um deus, e ainda existem templos em sua homenagem, sem contar todo o vasto acervo cultural formado em torno do seu nome. Contudo, os gregos tinham um interessante sistema com os personagens que se destacavam e Aquiles não foi exceção. Apesar de continuarmos procurando o seu túmulo na Terra — assim como Júlio César e Augusto procuraram o túmulo de Alexandre o Grande até que conseguiram encontrá-lo, com experiências bem diferentes neste sentido, pois César ficou ainda mais obcecado em controlar o mundo e Augusto ficou com tanto medo após ver o rosto de Alexandre que determinou o imediato sumiço daquele túmulo -, Aquiles teve o destino dos heróis e mitos gregos e foi levado para o céu. Virou estrela. Em outra versão, Zeus levou a sua alma para uma ilha, onde ficavam as boas almas (não sabemos o critério de Zeus para averiguar isto), onde Aquiles recebeu como esposa uma mulher de igual valor moral, podendo ser Medeia, Ifigênia, Clitemnestra ou Helena (continuamos nos perguntando sobre os critérios de Zeus).

Aquiles morreu, mas soube virar mito. O destino último de qualquer personagem é se transformar na sombra incômoda dos seres humanos. Pensando assim, não temos como saber para onde eles vão quando os livros acabam, mas podemos ter certeza de que, de uma forma ou de outra, os personagens continuam vivendo no nosso interior. Na verdade, não importa se Katniss Everdeen teve uma existência satisfatória após os eventos de “Jogos vorazes”, ou se ficava na beira do rio, entediada, flechando peixes para lembrar os seus dias de glória. Importa é que, no intervalo de tempo da leitura, Katniss foi feliz e o leitor foi feliz, vivendo muitas aventuras em conjunto.


Gustavo Melo Czekster nasceu em Porto Alegre, em 1976. É advogado e mestre em literatura comparada pela UFRGS. Lançou pela Dublinense o livro de contos O homem despedaçado.

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