
O resto da vida sem saber
Gustavo Machado
Agora eu sei, agora eu sei. Tamborilo bem de leve com meus dedos magros no tampo de fórmica da mesa enquanto o chefe mantém os olhos enfiados no meu relatório. Pensa que eu não sei.
Depois de escrever um relatório tão ridículo mesmo sendo o especialista mais caro da companhia, eu devia estar com medo de perder o emprego, penso. E que emprego: plano de saúde, plano de previdência, plano de participação nos resultados, sedan sueco, assistentes, secretária, cartão corporativo, salário bem acima da média. Devia ter medo, penso de novo. Penso mas não sinto medo algum. Também não sinto medo do que vem pela frente depois da parte em que eu acompanho com o batuque dos dedos a antiga marchinha de carnaval que cantarolo mentalmente. Não sinto medo, vergonha, ódio, desejo de vingança, ciúme; não sinto mais nada. Só uma estranha vontade de rir.
O chefe lê e pigarreia, não sei se por mero cacoete, pra limpar a garganta ou sugerir que eu me comporte. Minha mulher vai me matar quando souber que perdi o emprego numa crise fodida dessas, eu penso. E que emprego! Eu ainda podia estar ensinando economia numa faculdadezinha de meia tigela, penso. Penso e quase solto uma risada; quero rir da fúria da minha mulher, do trabalho que estou prestes a perder, da marchinha inocente que roda e roda e roda no toca-discos da minha cabeça. Quero rir do queixinho furado do chefe, com seus olhos excessivamente separados como os de uma cabra. Se ele soubesse que eu sei. Se soubesse. Quero rir, mas fico quieto.
Bem, diz o chefe com sua voz melíflua, e começa a tecer seus comentários sobre o meu último relatório de análise de riscos de investimento que venderíamos a um dos nossos melhores clientes. Pela cara dele, nem desconfia que eu sei. Não ouço nada, não dou a mínima. Se ele soubesse que eu sei, se soubesse que aquele é o último relatório meu que ele vai ler, talvez não enchesse tanto o saco, avalio comigo mesmo, fitando-o com uma seriedade cômica, cenho franzido, como se aquela bosta toda me importasse alguma coisa.
Não me importo picas com nada disso, murmuro, bem, bem, bem baixinho. Não me importo que a minha mulher fornicasse com aquele idiota desde muito antes de me conhecer, não me importo de ela ter me arrumado aquele emprego de príncipe sem me contar que tinha arrumado nem que conhecia aquele idiota, o chefe, e nem que tinham sido e continuavam sendo amantes. Como é?, pergunta o chefe. Nada, eu respondo, murmurando de novo. Penso na minha mulher nua e abraçada numa cabra de gravata. E daí começo a rir. Primeiro baixinho, depois gargalho até me balançar. Ele tira do rosto elíptico os óculos de leitura e pergunta se pode saber o que está acontecendo. Poderia, mas não vai saber, não. Eu, ao contrário, poderia ter passado o resto da vida sem saber, mas agora sei. Em instantes, tenho certeza, vou saber o que fazer com isso tudo.
Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.