Ora raios, Saramago!

O que resta da nossa humanidade sem uma generosa dose de fantasia sem gelo?

Por Gustavo Machado

Volta e meia eu me lembro daquela apresentadora de televisão segundo a qual todos nós, brasileiros, deveríamos visitar Portugal e conhecer melhor a cultura lusa, já que nossos descendentes vieram de lá. Ela é a prova viva dessa verdade antropológica invertida. Em termos de anedota, eu acho.

Mais a sério, flerto com o determinismo quando recordo a entrevista que li com José Saramago falando da explosão do fenômeno Harry Potter, na literatura ou no cinema. Era o início do atual milênio. Segundo ele, aquela massificação era nociva e até triste, pois nos mostrava um mundo que, infelizmente, ainda estava a precisar de fantasia. Sério, Saramago? Sério que um mundo que dispense a fantasia seria melhor? Aquilo me pareceu mais que uma burrice portuguesa. Era uma burrice tóxica, convicta. E sempre imagino o autor tecendo essas suas conclusões como um português de piada, caneta atrás da orelha ao balcão da padaria, esbravejando um “ora raios” depois de acender o filtro do cigarro.

Entre outros tantos méritos, a saga de J. K. Rowling é no mínimo uma história brilhante e, muito além de um mero fenômeno de massa, certamente permanecerá consolidada na cultura universal mundana das próximas gerações. Muitas gerações.

Singelo, artisticamente imperfeito ou resultado de um criativo mosaico de colagens, Potter tomou pela mão milhões de meninos e meninas de todo o globo e os levou, em muitos casos, a um primeiro mergulho no mundo da palavra escrita. Há mesmo uma considerável leva de jovens escritores que se lançaram às teclinhas de seus computadores inspirados, inicialmente, pelas aventuras de Rowling. Não porque ela tivesse inventado um mundo particular, mas por ter compartilhado essa invenção com tanta gente que ele se tornou público. Potter pode ter saído da cabeça de uma mulher, mas passou a ser uma fantasia coletivizada.

Hung Chieh Tsai, CC

Há também os adultos ignorantes de todas as classes sociais que, pelos mais variados motivos, reencontraram-se com a leitura depois de tê-la abandonado como devem ser abandonados os lápis de cera.

O que resta da nossa humanidade sem uma generosa dose de fantasia sem gelo? Não só a fantasia ideologizada que se encontra na política e nas revoluções, inclusive na dos Cravos. Não só a fantasia de acreditar num ideal de felicidade que depende da vontade de cada um. Mas uma instância da fantasia por onde trafegam os desesperançados, os desenganados, os de vida opaca, o sonho ao qual se agarram, com dedos fracos, os que não se imaginam com futuro. Ou não há, em cada um de nós, pelo menos três gotas da fragilidade de um órfão criado sob uma escada, na companhia de familiares mesquinhos? Quando o sofrimento é irrevogavelmente cáustico, é bom saber que em algum lugar existe a Plataforma 9 ¾.

O fantástico, o hiper-real nos acompanha desde as tragédias e as comédias da antiguidade clássica. É tênue a fronteira entre a alienação, clínica ou política, e a ousadia de sonhar com uma realidade discretamente encantada e, em de algum modo, provida de certo sentido. Francamente, Saramago: onde quer que você esteja, pense melhor no assunto. Tenho certeza que você não se constrangeria em mudar de opinião. Ou pelo menos flexibilizá-la. Não nos decepcione. Afinal, você é um dos nossos mais notáveis descendentes.

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Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.

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