Quando se bebe do volume morto


(ou estamos chegando ao fundo)


Por Gustavo Machado


Há Porsches que vêm pra bem. Na obra “Dicionário de política”, organizada por Norberto Bobbio, Nicola Matteucci e Gianfranco Pasquino, a definição para o verbete “crise” é demolidoramente simples. Joga luz no quarto escuro de discussões infindáveis.

Trocando em miúdos, segundo esses bons italianos, tem crise começo, meio e fim bem delimitados em cronologia factual. Penso nisso ao ler no telefone, enquanto espero o chiar da chaleira, sobre caso do célebre Porsche usado em regime de comunhão de bens ou guarda compartilhada por um empresário quebrado, em dias ímpares, e por um juiz, em dias pares (talvez com finais de semanas alternados, sabe-se lá).

Penso também no piano e no Range Rover também compartilhados. Mas é o Porsche que me faz correr ao livro amarelinho dos italianos. E ao verbete “crise”. Que crise vivemos, diz o homem do táxi — não um Porsche reluzente, um Fiat Siena dos antigos, discretamente fedorento —, quando já estou a caminho do trabalho. Explico a ele que não, que não se trata de crise. E cito o livrinho. “Então é muito pior, seu”, diz o motorista. E está certo. Tão certo quanto Bobbio, Matteucci e Pasquino.

No primeiro jornal papel que abro, leio a entrevista de um filósofo segundo o qual o Brasil não enfrenta uma crise, mas uma “falência ética”. Diz também que há magistrados vivendo como príncipes, o que é uma outra discussão pertinentérrima. Mas me fixo na não existência de uma crise, e sim algo muito pior. Estão todos certos; os pensadores italianos, o professor de filosofia e o motorista do táxi: porque não sabemos quando começou, em que ponto da coisa estamos e, muito menos, onde tudo isso nos levará.

Suspeito, e daí eu talvez esteja pensando sozinho, que estejamos chegando ao fundo. Se o caso em questão fosse o dos reservatórios de água, já estaríamos bebendo do chamado volume morto. Depois disso não há mais nada. Melhor que chegue de uma vez o fundo.

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Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.