Foto de Freddy Vieira

Quando toca o apito da fábrica

Gustavo Machado

A primeira coisa que eu faço quando o apito toca não é abrir os olhos. Devia ser, mas não é. Mesmo sentindo o colchão de palha espetando os ossos das minhas costas magras, mesmo ouvindo os roncos dos companheiros que custam mais a acordar, mesmo com a barriga ardendo de fome, por mais que eu saiba, enfim, que continuo no mesmíssimo lugar, a primeira coisa que eu faço quando o apito toca não é abrir os olhos e seguir em frente. Não é aceitar. Não é engolir a seco mais um despertar entre dois sonhos. Não é pisar de uma vez no chão gelado do dormitório e correr até o desjejum pastoso que me espera antes das cinco horas que vou cumprir apertando parafusos antes da tigela de sopa do meio dia. A primeira coisa que eu faço quando o apito toca não é enterrar em algum lugar da minha cabeça mole a lembrança úmida da última vez em que segurei nas mãos os peitos pesados da japonesa que morava no meu prédio, nem do cheiro bom que ela tinha na nuca. Será que ainda tem, depois de tanto tempo? A primeira coisa que eu faço quando o apito toca não é nem acordar, porque acho que um dia dormi e nunca cheguei a acordar direito desde que me enfiaram aqui. A primeira coisa que eu faço é sentir o calor reconfortante das pedras dos molhes de uma baía que eu nem sei se existe. Sinto que o sol está chegando, sinto o sal a me endurecer a barba. Ouço a espuma das ondas mansas que se esparramam ali perto. Escuto as vozes dos pescadores que chegam com suas latas de isca, seus caniços e suas tarrafas. Ouço os latidos dos cachorros vadios e o trote lento de um cavalo. Deixo que o vento fresco da alvorada me arrepie a pele e anuncie tempo bom. Daí abro a parte de dentro dos olhos e vejo, cortando o mar brilhante que ampara o céu alaranjado, o barco que, um dia, vai me levar até um lugar em que a gente não acorde com apito. Só depois volto pra fábrica, só depois o dia cinzento me engole. Volto, sim. Mas volto oco, sem vontade, sem ter o que se possa machucar ou ofender. Meus melhores pedaços já estão no barco.

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Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.

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