Se chegar antes da noite

por Gustavo Machado


Corro pra chegar antes da noite. É raro, mas vez por outra acontece. Encerro o dia ainda dentro do dia. Faço um terço do trecho a pé, cruzando por gente que corre aos carros-ônibus-táxis-bicicletas. Ploc-ploc, tento andar rápido, quase corro pra chegar antes da noite. Queria mais rápido, mas não dá, estou gordo. Uma rolha de poço sobre pernas cansadas.

Gente e mais gente indo e vindo sem ter pra onde nem porquê. Há quem se precipite botecos adentro e também quem prefira desfilar na rua dos cafés. Eu, como uns poucos proletas que por mim passam, arrasto-me, passos mais curtos do que quero. Preciso dormir mais cedo, penso. Penso e prometo. Prometo e sei que, como sempre, não vou cumprir.

Já no fim da fileira de cafés há baldinhos de prata com espumantes enterrados em gelo de máquina. Perfumes doces, fortes, que não combinam com crepúsculo em fim de verão. Discretamente menos quente mas ainda pouco frio ao meu gosto. Passando os perfumes démodés vem o odor dos charutos sugados por homens de boa barriga, ensalsichados em camisas polo apertadinhas, também eles com seus baldes para espumante. Charuto e noite morna combina mais com rum e guayabera folgada, eu penso, cruzando a nuvem de fumaça que me parece azulada. Ploc-ploc. Suo, sinto fome, sede, mas não paro.

Quero chegar logo. Corro pra chegar antes da noite.

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Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.