Um deixa saudade e o outro já vai tarde

Por Gustavo Machado

O insubstituível Miele mereceria melhor companheiro de travessia que o maligno Ustra. Seria de se esperar que, no mínimo, fossem acomodados para a viagem em lugares bem separados.

A morte é uma antiga conhecida de todos nós. Já nascemos sabendo que um dia ela virá nos buscar e, mesmo assim, não evitamos o sacrifício de toda uma vida em busca de alguma dignidade. Ainda no berçário, a primeira enfermeira que nos olha pode até não dizer, mas, no fundo, pensa: “Bebê mais lindo! Pena que…”. Sabemos, ela chegará. Mas sempre esperamos que se mova na velocidade dos burocratas.

Ninguém gosta da morte. Entre outras coisas, porque, embora democrática, ela seja também injusta. Leva cedo quem mereceria uma espécie de validade estendida e, numa mesma ceifada, faz desaparecer gente que não teria feito a menor falta neste mundo. Nos últimos dias, a um caso me chamou atenção em especial.

Luiz Carlos Miele [Fonte: bossa-mag.spaceblog.com.br]

Num intervalo inferior a 24 horas, desapareceram num mesmo golpe o produtor, diretor e ator Luiz Carlos Miele, 77 anos, e seu praticamente contemporâneo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, 83. O insubstituível Miele mereceria melhor companheiro de travessia que o maligno Ustra. Seria de se esperar que, no mínimo, fossem acomodados para a viagem em lugares bem separados. De todo modo, com eles morrem também dois pedaços orgânicos de Brasil. Um que deixa saudade; outro que já vai tarde.

Miele era um dos últimos registros vivos do melhor pedaço do Brasil, quem nos dera fosse todo ele assim. O país dourado do chope, da Bossa Nova, dos grandes shows, do ápice da MPB. Um Brasil inteligente e generoso, cheio de vontades e fusões pulsantes, de transformações e rupturas. Um país que sonhava com a vanguarda pelo caminho da arte.

Curiosamente, em termos cronológicos parte do Brasil vibrante de Miele conviveu com o Brasil verde oliva do truculento coronel Ustra como se fossem dois mundos estanques. É verdade que Ustra foi mais eficiente na construção de sua biografia. Pelo menos trabalhou mais rápido.

Alberto Brilhante Ustra [Fonte: Sérgio Lima/Folhapress/G1]

Enquanto Miele trabalhou no mundo da arte desde a infância até promover novos talentos como Elis Regina, Ustra levou apenas quatro anos para se consagrar como um dos mais profícuos assassinos da história nacional. Nas tentativas de computar os estragos da ditadura militar, feitas a partir da redemocratização, estima-se que Ustra tenha sido responsável pela morte de pelo menos 45 pessoas somente no período em que chefiou o DOI-Codi-SP, entre 1970 e 1974. Sem falar nas prisões arbitrárias, nas torturas, nos sequestros, nas intimidações e nas outras especialidades daquele regime. Um encantou e fez muita gente sonhar. O outro trucidou e fez muita gente pedir misericórdia.

A História mostra que, mais ou menos a cada 30 anos, o Brasil se reinventa. Embora estejam mortos Miele e Ustra, seus legados irão perseverar como memória, e mais que isto, como referências — imediatas ou não — a novos paradigmas. De algum modo, eles acabam voltando. Talvez sem o banquinho da Bossa nem o fuzil dos militares. Mas estarão sempre prontos a reaparecer. Resta saber se nosso terreno está mais fértil à cultura de um ou de outro: o que deixa saudade ou o que já vai tarde.

Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.

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