Obra de Kerstin Kuntze

XX — Entre o início e o fim

Gustavo Machado

Sonhei com uma espécie de cidade coberta, ou subterrânea; um tipo de shopping center infinito onde as portas dos edifícios residenciais, das delegacias de polícia, das fábricas, das igrejas, das oficinas de automóvel dividiam os corredores com as entradas e as vitrines das lojas. A base tinha algum requinte, quase luxuosa, cheia de dourados e cromados e porcelanatos caros. E gente, gente que não terminava mais. Homens, mulheres, velhos, velhas, crianças carregando balões brilhantes. Ofegantes, ríspidos, caras assustadas. Alguns chegavam a chorar, tão perdidos que estavam.

Era um labirinto cheio de escadas-rolantes sobrepostas que levavam a níveis intermediários (como o quinto andar B) ou então diretamente a andares muito, muitíssimo mais altos. As pessoas subiam e desciam abraçadas, como se marchassem pra algum lugar desconhecido. Talvez também sentissem vertigens, as escadas eram íngremes, estreitas e com os corrimãos bem baixinhos. Iam de onde pra que lugar? Por exemplo, o sujeito podia embarcar numa das escadas e subir diretamente do terceiro para o sétimo andar. Olhava pra cima e não enxergava o fim. Pra baixo, mesma coisa. Com as distâncias longitudinais, idem. Ali não havia começo nem fim. Só meio. Talvez o inferno fosse isso, eu pensava, um lugar sem lógica, de contornos elásticos, fixado entre um início esquecido e um fim improvável.

De Karl Houtteman

Eu não sentia exatamente vontade de fugir dali, só entrava de loja em loja procurando um endereço que ninguém conhecia. Esquisito como são os sonhos. Numa das lojas em que eu entrei predominava o vermelho. E me prenderam os olhos assustados de uma criança, a cabeça exposta, o resto do corpo escondido sob um daqueles antigos balcões de lojas de tecido. Acho que uma menina.

Meio da madrugada, garganta seca e pescoço suado, acordei com Clara ressonando forte do meu lado. Quase roncava. Fui buscar água. O parquet antigo do corredor e da sala estava gelado. O Paviflex da cozinha também. Abri uma garrafa plástica de água mineral com gás e esvaziei quase a metade, bebendo diretamente no gargalo. Soltei um arroto silencioso e me sentei na frente da tevê desligada e fiquei pensando na vida. Meu telefone tocou. Tocou e vibrou, caminhando um pouco sobre a mesa de fórmica. Fui até ele. Por algum motivo, eu já sabia quem era. Àquela hora, só um homem morto me telefonaria. Ou quase morto. Escutei a voz debilitada de Dr. Henry do outro lado. Desculpe acordá-lo, meu rapaz. Tudo bem, eu disse. Clara sumiu, falou o velho. Eu fiquei quieto. Mas não foi por isso que eu liguei, ela já sumiu outras vezes. É? Sim, já. Muitas vezes. Perturbei seu sono porque sinto que não me resta muito tempo. O que é muito tempo?, eu me surpreendi perguntando. O velho não respondeu. Não sei se fazia cálculos ou tomava fôlego. O que é muito tempo? Depende, meu rapaz. Mas, respondendo à sua pergunta, posso partir para uma longa viagem a qualquer momento, você me compreende. Eu sinto muito, Dr. Henry, de verdade. Não é preciso. O que é preciso é que você concretize aquilo que combinamos. Quando? Rápido. Rápido quanto? Eu gostaria de encontrar Clara já me esperando, seja lá onde for. Compreende? Acho que sim. Então seja rápido. Caso eu me vá de forma mais… mais abrupta, você encontrará um envelope com instruções para a minha parte do nosso trato. Não se preocupe com isto, Dr. Henry, vá descansar. Vou descansar, sim, rapaz. Volte a dormir. Quero que você me procure no final da manhã. E desligou. Voltei ao quarto e me acomodei na cama, moldando-me ao corpo contorcido de Clara. Estava confortavelmente morno. Já tá na hora?, ela resmungou. Quase. Quase, eu disse, e acariciei o cabelo bem cuidado que lhe cobria a testa.

Karl Houtteman

Gustavo Machado é autor dos romances Sob o céu de agosto, lançado no Brasil, em 2010, e na Alemanha, em 2013, e Marcha de inverno, publicado em 2014. O autor escreve semanalmente neste espaço.