VOCÊ CONHECE O PRESIDENTE?

“Ele acaba de me declarar que renunciou. Volta a atender exclusivamente por Sergio Luiz Santos das Dores. Ex-presidente. Eterno presidente.” (na tarde pela memória do 15 de outubro de 2013, em que se marcava a data ‘dessa entrevista’. Cinelândia, 15/10/2015. Cerca de um mês depois, ele cancelou a renúncia).

O gigante acordava em 2013 e a cena política do Rio de Janeiro ganhava um de seus mais afetuosos personagens. O Presidente das Ruas, como ficou conhecido e passou a fazer amizades. O único a quem muito anarquista convicto declarou seu voto.

Só em 15 de outubro desse ano que se pode saber seu nome completo: Sergio Luiz Santos das Dores. Ao dizer, ainda ficou decidindo se ia ou não assumir um ou outro sobrenome, até que tascou: “Pode botar todo!”.

Presidente em ato no Centro do Rio, 2013. Foto: Katja Schilirò.

Foi nessa tarde, na escadaria da Câmara, que ele confirmou que nos daria uma entrevista, já negociada há uns meses e confirmada para essa semana. Finalmente a caixa-preta do Presidente seria aberta. Quem era o Presidente? De onde veio? O que fez na vida? Como foi parar na rua? Não deu tempo. Que se saiba, passou mal na terça (8), foi pro hospital, teve alta (talvez à revelia), à noite ligou para pedir ajuda, sumiu de novo, ligou de novo, foi encontrado no dia seguinte, novamente na porta do Souza Aguiar, novamente internado, descompensou, falência renal, várias paradas cardíacas, chocou, faleceu na manhã de hoje. Não foi embora sem ter ao seu lado um pouco de tudo que o cercou nos últimos — pouco mais de — dois anos: manifestações, mobilizações, confusões, voluntários, ativistas, um tanto de governo, polícia, fórum, amor, solidariedade e amigos. Não nessa ordem. E tudo ao mesmo tempo agora.

Morador da Cinelândia, às vezes dormindo na casa de um, às vezes na casa Nuvem, centro cultural de vanguarda na Lapa, reclamou semana retrasada que estava passando frio “embaixo daquela marquise ali”, apontou pra lateral do bar Amarelinho; e também de dor na perna e no pescoço. Disse que precisava de roupa.

Presidente em manifestação de 2013. Foto: Francisco Chaves.

Figura presente no Ocupa Câmara e em todas as manifestações que passaram pelo Centro do Rio, desde 2013, tinha na ponta da língua, com sua voz marcante e trêmula pelo Parkinson, desde um contundente “a-que-le-fi-lho-da-puuu-ta!”, ao falar do prefeito, do governador ou do deputado, até os detalhes mais improváveis e importantes de se saber-sabido naqueles dias a tiro, porrada e bomba: se a CPI ia começar no horário, se tinha miliciano, se a polícia subiu ou desceu por qual rua, se alguém tinha sido levado pra delegacia, se fulano apareceu hoje, os desmandos do poder e as notícias frescas da rua. Tudo sem internet, sem Facebook, sem jornal debaixo do braço. Ele era a fonte.

“Entra com o meu desodorante porque se eu passar com ele podem achar que é bomba, e com você ele passa.” (antes de passamos no detector de metais do Fórum do TJRJ, no dia do depoimento em juízo de Elisa Quadros, a Sininho, 05/08/2015).

Beijoqueiro, abraçador, era na cara e no olhar sua carência afetiva. E se aproximava em silêncio, no meio do povo, em sua direção. Do mesmo jeito se afastava. Em dois dedos de prosa, o desfrute de um papo furado. E estava nos chopes políticos, nos almoços com advogados, nos atos pela liberdade na porta do Fórum. Sempre cheiroso, mesmo quando reclamava que precisava mandar lavar a roupa, apontando um risquinho de nada na perna da calça. O dono do sorriso inglês e gaiato, pronto a uma foto humorada ou àquela tirada inesquecível. Do lado dele se era maior. Parte da Cinelândia. Amigo do rei.

“Tenho mais charme do que essa Penélope”. (quando fantasiado para gravação do clipe de final de ano feito por ativistas e coletivos que participaram de 2013. Cinelândia, Dez/2013)

Se não se pode mais abraçar o Presidente, essa não será a mesma revolução. O que será da Cinelândia e arredores sem o seu alô ao acaso, ainda não se sabe, sabe-se que o tempo passa e a gente acostuma.

Quem não o conheceu saiba, e quem o conheceu que se lembre, do Sérgio como alguém que viveu. Como quis. Que mesmo tendo casa e família, foi ao ar livre. Ser humano para iniciados, que não chegou à fama do Gentileza ao ponto de ser reconhecido por qualquer um, mas que concretizou um tipo de fim à invisibilidade e às barreiras sociais que separam os cidadãos em situação de rua dos demais. Graças a ele mesmo — e a 2013.

Ninguém abriu a caixa-preta do Presidente, publicamente. Não houve entrevista. Tinha olhos azuis. Era de gêmeos. Gritou muito contra a corrupção, o atraso e os desmandos. Quem o conheceu, sempre que o encontrou, diminuiu o passo para abraçá-lo. E isso, e mais um tanto do que se disse, é tudo que se sabe dele.