Em cena, Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel) e Jacques de Bascher (Louis Garrel)

Do preciosismo ao surrealismo

Coluna “Matilha Andaluza”, por Lucas Souza

Pôster de Saint Laurent, Bertrand Bonello

Saint Laurent (2014), de Bertrand Bonello, fora um dos destaques no Cine Arte UFF uns tempos atrás — e esse que vos escreve, como é aficionado por cinebiografias, arte e um toque de um glamour decadente, não poderia perder a figura de Yves Saint Laurent, um dos maiores estilistas franceses, ganhar vida na pele de Garpard Ulliel em um filme não autorizado pela família do mesmo, com direito a todas as fragilidades, vícios e orgias vividos pelo estilista em seu momento de ápice: de 1967 a 1977.

Existe uma polêmica cerceando o filme de Bonello por ele ser uma cinebiografia não autorizada e não apoiada por Pierre Bergé, companheiro de Yves, até pelo fato de mostrar a faceta frágil e orgiástica de Saint Laurent. Embora o filme tenha também um foco bem sociológico, como as mudanças sofridas na marca, as ações da mesma no mundo corporativo, expansão do nome “Yves Saint Laurent”, o que fica, de fato, para os amantes de cinema é o clima surrealista que o filme imprime e, no meio para o fim, a não-linearidade do mesmo, se fazendo cada vez mais visível.

Embora o foco da produção sejam os gloriosos anos de criação da marca YSL (aqui novamente voltamos ao caráter sociológico do longa), percebemos também, ao lado dessas observações mercadológicas e expansionistas de uma marca que exemplifica muito bem o capitalismo, a criação por detrás das peças; vemos a aflição de Yves por não conseguir criar algo que o agrade, vemos não só sua dedicação, mas suas inspirações, sua veneração pela pintura, pela literatura de Proust. Nitidamente o longa nos abarca nesse quase excesso de informações artísticas: nas correspondências trocadas com Andy Warhol, na obsessão de Saint Laurent de querer se afirmar como um artista, mas nunca, de fato, ser um pintor (categoria de artista que o estilista amplamente enaltecia) — ápice esse que ele diz alcançar em suas criações de 1976; falaremos delas adiante.

Em cena: Pierre Bergé (Jéremie Renier) e Yves Saint Laurent (Gaspard Ulliel)

O olhar sociológico está também estampado visualmente nos recursos utilizados por Bonello. O longa em seu início revela o ateliê de costura da marca de Saint Laurent, cores frias e claras, nada do visual colorido, etéreo e de certa forma, étnico do desfile de 1976. Podemos colocar as imagens do desfile, já quase no encerramento do longa, em contraste com o início em cores frias, em uma fábrica de roupas impessoal e quase silenciosa, onde impera somente a música clássica de Yves. Não é de se espantar essa transição entre o sociológico e o artístico, afinal eles estão interligados pelas figuras das personagens que transitam ao redor de Yves, como seu já citado companheiro Pierre Bergé (Jéremie Renier).

Bonello tem um olhar encantado pelos excessos e devassidão humanas. Seus filmes anteriores abordavam temas que a biografia de Yves também abarcava. Embora possamos observar que o filme não tem compromisso nenhum em retratar estritamente a verdade, dada a falta de linearidade e o flerte surrealista muito bem-vindos ao longa, temos uma comunhão com a estética de Yves (o retratado) com a de Bonello (o que retrata). Sobre esse fator Bonello fala em uma entrevista para o Globo:

Não tínhamos um compromisso com uma verdade. Temos que sonhar. Um filme de ficção não é um documentário, então isso deixa de ser uma prioridade. Se você mostra um objeto a três pintores e pede que eles o reproduzam, terá três versões da mesma coisa. É o caso do meu filme. Minha liberdade está no fato de que essa é a minha visão do estilista, e ela vem de fatos que me ajudaram a inventar o filme.

Os excessos do filme são captados com maestria. As cenas de orgia na casa do amante de Yves, Jacques de Bascher, interpretado intensamente pelo sempre ótimo Louis Garrel, são as mais densas esteticamente. Homens em couro amarrados a cadeiras eróticas, um Yves de torso nu e atordoado, no meio daquele apartamento tal qual prisão daqueles homens e libertação de sua mente, mas não nos moldes clichês de um escapismo raso e banal, mas sim com todo o amor que sentia por Jacques, amor esse que perdurou por décadas, arrastando-se até sua idade mais avançada. Aliás, a relação do estilista com Jacques revelou-se sempre intensa e acalentadora para Yves. Nas cenas sexuais compartilhadas por Ulliel e Garrel são o ponto alto da atuação de ambos. A fragilidade e entrega de Yves contrastando com o ar sedutor e romântico de Jacques, ponto alto na atuação de ambos.

Os excessos de Yves

O diálogo com o cinema surrealista dá-se em várias cenas e construções ao longo da película. Os devaneios de Yves ao ver-se rodeado por serpentes é um ponto exemplar nessa questão. Outra cena bastante reveladora dessa estética no filme de Bonello é a filmagem de um comercial para a marca de Saint Laurent, onde uma modelo nua e a outra trajada em vestes masculinas conversam sobre a vida e os caminhos percorridos por Yves — a cena é bastante marcante pela fotografia que se utiliza e pelo diálogo, vale a perna ser pontuada aqui.

O momento apoteótico do filme dá-se com o desenho dos croquis da coleção de 1976 e o desfile em si. Envolvida em brumas surrealistas, Yves vê sua obra e a cria — com inspirações étnicas russas, saias de comprimento midi, turbantes e coletes em couro, cintos marcando uma cintura alta, texturas dos diferentes tecidos nunca antes utilizados pela marca. Há de se notar um esforço exemplar em realizar as peças com o preciosismo que Saint Laurent colocava em suas peças (uma curiosidade aqui é que pelo veto de Bergé a produção teve de recriar do zero as peças usadas para a filmagem).

Desfile de 1976 em “Saint Laurent, Bertrand Bonello

O ponto alto — e também pecado — do filme é a densidade do mesmo. Pelo tamanho da película e pelo quanto revela, pelo quanto cria e desconstrói, em certa parte o filme começa a se arrastar, virando uma aglomeração de excessos e citações a artistas. A película volta a entrar no tom no momento em que a não-linearidade se faz mais visível, em que um Yves ainda moço salta para um Yves em fase mais madura, retornando para nostálgicas cenas de infância. Essa quebra na temporalidade retoma o filme para o espectador, o fazendo endireitar-se na cadeira e esperar pelo que vem: o ápice com o já citado desfile de 1976 e a coroação do mesmo como um artista digno das maiores galerias francesas.

Saint Laurent firma-se como uma cinebiografia autêntica não por apresentar exatamente a faceta e estética de um artista, mas por fazer o público perceber que existiu liberdade e direcionamento na condução do longa por parte de seu diretor, Bertrand Bonello, e que cada escolha, acertada ou não, fora feita para (re)criar o universo de magnitude, moda, excesso e fragilidades de um dos maiores artistas aclamados pela França, Yves Saint Laurent.

Croquis originais do desfile de 1976 da marca YSL