Interestelar, de Christopher Nolan

Duas Mil e Uma Estrelas Que Não Morrem

Coluna “O Feitiço da Ninfa”, por Anna Lua Castro

Interestelar, superprodução de Christopher Nolan, trouxe a tona o antigo amor global pela ficção científica existencialista no passado mês de novembro. A trama se desenvolve em um futuro distópico onde o planeta se encontra em crise por escassez de alimentos e intenso desgaste climático que submete a população a viver sob violentas tempestades de poeira. Em prol de localizar um novo planeta para dar continuidade à propagação da raça humana, a NASA e sua equipe recrutam Cooper, um antigo piloto de aeronaves e estes embarcam numa missão onde encontrariam não só o futuro da raça humana, mas aprenderiam a lidar com seus instintos mais primitivos e intensos. Os excelentes efeitos especiais, a trilha sonora, o desenvolvimento focalizado no intelecto humano — todos estes elementos e ainda mais remetem à mudança que ocorreu no fim dos anos 60, quando Kubrick realizou o grande marco da ficção científica que inspiraria toda uma geração de diretores a remodelar o sci-fi.

Até então, filmes de ficção científica eram feitos, em suma, para entretenimento. Não era necessário investir grande orçamento em efeitos especiais nem transmitir uma mensagem impactante através desse tipo de produção (haviam exceções, é claro, como Metropolis, de 1927). Eram filmes que estavam ali em grande parte para diversão, não necessariamente para serem levados a sério.


2001 muda tudo. Kubrick desenvolve um drama espacial complexo e bem planejado a todos os níveis: visual, artístico, filosófico, cinematográfico. O filme é um deleite desde a trilha sonora até os efeitos especiais — que não envelheceram nem um pouco. 2001 poderia facilmente se passar por uma produção atual em questões de efeitos especiais. Não é de se espantar que seu legado permaneça vivo até hoje, seja no cinema ou no cotidiano. Mesmo após 40 anos de seu lançamento, a NASA continua a acordar seus astronautas em treinamento com o Danúbio Azul. Também sabe-se que Kubrick se baseou nos modelos das naves construídas pela NASA na época da corrida espacial para desenvolver a Discovery (bem como todos os outros elementos espaciais em cena). Essa representação foi um espelho para as naves espaciais emblemáticas de sci-fis posteriores, como a Enterprise de Star Trek e Millenium Falcon, de Star Wars, que por sua vez é uma saga que possui inúmeras influências visuais muito claras de 2001.


Assistir 2001 é como apreciar um longo pôr de sol. Todo o filme é silencioso, estático, com tomadas longas e extasiantes”. O filme não faz uso de diálogos extensos, pelo contrário: durante toda a sua extensão perdura a sensação das coisas estarem acontecendo exatamente como deveriam acontecer no espaço: silenciosamente. É um filme sutil e inquisitivo. Nas palavras de Arthur Clarke, renomado escritor de ficções científicas que vendeu um de seus contos — The Sentinel — para Kubrick e então escreveu o roteiro de 2001: “Se alguém entender 2001 de primeira, nós teremos falhado. Quisemos levantar muito mais questões do que responde-las”. Por esse motivo, o filme foi considerado cansativo, sem sentido e não alcançou grande bilheteria ou sucesso com as críticas, mas aos poucos um pequeno movimento de jovens foi se formando e o que eram três entusiastas reunidos na fileira da frente na primeira semana foi crescendo a cada dia. Esses entusiastas foram o que impediu o filme de ser recolhido e entre eles podemos destacar Steven Spielberg e George Lucas, autor da frase que encabeça o parágrafo.

A magistral odisseia sobre a evolução humana desde sua primeira fagulha até seu último suspiro é muito mais que uma viagem além das estrelas — é mergulhar dentro de si mesmo, ver o quanto nós refletimos em nosso planeta e o quanto somos pequenos ante a imensidão do universo.

Interstelar, de Christopher Nolan.
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