Enquanto as rainhas não voltam para a festa, o povo brinda, com requintes em decadência, sua autodestruição.

Coluna “Matilha Andaluza”, por Lucas Souza

Poster de “Palo Alto”, Gia Coppola.

Palo Alto (2013), da diretora Gia Coppola, neta de um dos mais aclamados diretores da atualidade, Francis Ford Coppola e sobrinha da Sofia, uma das diretoras que a imagética mais apetece a esse que os escreve, é um hino a vida tediosa e a juventude sem limites.

Adaptação do livro homônimo de James Franco, que aliás aparece em uma atuação muito contundente, como sempre, Palo Alto narra a vida de April (Emma Roberts), uma garota que anda permeada em um flerte com seu treinador de futebol, Mr. B (o já citado James Franco) e Teddy. Em um resumo feito grosseiramente podemos dizer que Palo Alto flerta bastante com a temática e estética do seriado Skins, o que não seria mentira, aliás, mas o que Skins revela, Palo Alto deixa em penumbra, podendo assim, em uma película evidenciar as personagens, as nuances da narrativa, os medos e principalmente o tédio.

O tédio é o mote inicial de Palo Alto. As personagens sempre estão perguntando-se o que farão para passar seu tempo — principalmente Fred, amigo de Teddy, sempre com suas suposições bizarras, aliás, a que inaugura o filme carrega um nível epistêmico muito bom: “o que você seria se pudesse voltar na Idade Média, e não Teddy, não, você não pode ser o fodido do rei.” Porém, de início nosso foco se manterá em April e uma de suas máximas declaradas a Mr. B, enquanto ela está sentada dentro de seu armário escolar: “eu faço coisas o tempo todo, sem motivo.

Pensando não tanto no gene familiar, mas no meio como formação para o indivíduo (olá explicações sociológicas) a questão do tédio e como matá-lo mescla-se com a Maria Antonieta, última Rainha da França, da Sofia Coppola.


Inserida em um universo onírico em rosa, azul-bebê e músicas com forte apelo do pós-punk e new wave dos anos oitenta, o filme de Sofia mostra-se transgressor nesse sentido por poder nos possibilitar a comparação de uma arquiduquesa da Áustria inserida no Universo da realeza francesa — e sendo a cereja do bolo dele, aliás — e uma menina da classe média de Palo Alto, California. Antonieta no fundo é só uma menina que não sabe como fazer para passar o tempo dentro das paredes daquele castelo que a sufocam de etiquetas e convenções sociais. Antonieta é, de certo, bem mais rebelde e extravagante do que April, mas sofre do mesmo tédio. Enquanto que, por um lado, April se vê inserida em flertes com seu treinador e frustrações em festas suburbanas, Antonieta faz de sua vida um evento de roupas caras, sapatos, bolos, jogos, drogas e bebidas — a mesma essência em proporções e temporalidades diferentes. Afinal, meninas são sempre meninas e sempre estarão no controle.


Trazer a figura emblemática da Maria Antonieta interpretada por Kristen Dunst em comparação com a April de Emma Roberts não é mero acaso. O cinema de Gia bebe muito da fonte do que a Sofia produz: cenários ultradetalhados (podemos evidenciar aqui a casa das Lisbon de As Virgens Suicidas com as introduções aos quartos das personagens da Gia, sempre cheio de detalhes em uma câmera revelando antes o local da ação), uma temática adolescente autodestrutiva em comum (só observar todo a filmografia da Sofia, aliás) e etc. Embora a mais velha das Coppola seja mestre em “filmar o nada”, como dizem alguns, com seus planos abertos longuíssimos, Gia demonstra uma capacidade de tratar o close-up com um recurso de introspecção: na vida solitária e tediosa de suas personagens esse recurso se faz primordial.

Fred e Teddy. “Palo Alto”, Gia Coppola.

Fred apresenta-se na película como o retrato perfeito da vagabundagem, que Diógenes de Sínope nenhum colocaria defeito. Com suas indagações peculiares, sua tendência autodestrutiva acima do tolerável e seu desprezo pela opinião de terceiros, ele se mostra como um verdadeiro herdeiro do ócio cínico do filósofo de Sínope. Fred é o tédio levado ao extremo: é a destruição de si mesmo e de terceiros, é a falta de um senso societário e moral muito bem construídos para culminar em uma cena final onde vemos sua face suicida e letal — Fred fora feito para ser uma piada mortal. Podemos aqui evocar comparações com a Lux de “As Virgens Suicidas”, embora Fred aparente ser uma bomba feita para explodir e bem, a Lux, assim como todas as suas irmãs, nasceu para morrer.

Em contrapartida, vemos em Teddy a angústia de um artista dolorido, que por não saber o quer — ou sabe, mas não consegue executar –, segue Fred em suas destruições e acaba se contaminando. Teddy é apaixonado por April, mas nunca tinha confidenciado isso a ela — e talvez por não conseguir externar seus sentimentos, acaba querendo superar Fred em suas destruições e, de certo ponto, consegue, porém o que não consegue é escapar das amarras da lei, como o seu amigo.

O retrato pintado nesse filme é de que a juventude tem o que falar, mas, em sua maioria, não sabe como, se vê engasgada pelas palavras que não aprendeu a pronunciar. Palo Alto, de Gia Coppola, talvez não venha ainda, de fato, criar um Universo dentro do Universo, como a Sofia consegue propor em todos os seus filmes, mas vem na tentativa de, desvendar a juventude com todo o marasmo, contradições, diversão e aniquilamento que ela apresenta — o que a Gia propõe é desvelar um Universo.

April de “Palo Alto”, Gia Coppola.
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