O Filme tal como Produto

Coluna “Vertigo”, por Raphael R. Moura

É fato que uma ida ao cinema hoje se tornou mais do que simplesmente ver um filme. Em alguns casos, uma ida ao cinema se torna uma participação em um evento de escala global. A indústria fílmica fez do cinema um grande espetáculo, em que vender fala bem mais alto que a obra.

Por essa razão, o que acaba se vendo, é um público levado ao cinema pela compra de uma ideia fetichizada de ser original mas que sem perceber, estão todos na mesma esfera do mainstream. Na audiência se percebe a disputa, não declarada, para se provar aquele que mais reverencia a obra. Todos ficam tão absortos na vaidade de um capital cultural que mal conseguem se aproximar da obra. A reverência nos distrai e só nos distancia da obra.

Faço esse comentário de antemão para dar fundamento a um desenvolvimento de uma discussão a qual relaciono com — pois assisti a poucas horas atrás — A Esperança; terceira parte, dividida em duas, da adaptação dos livros Jogos Vorazes.

A Esperança, Francis Lawrence

Antes de me aprofundar mais, o que temos que levar em conta é, que A Esperança, se trata antes de tudo de um BlockBuster. Um filme pensado objetivamente para alcançar a maior audiência possível. Obras que se encaixam nesse critério, normalmente, não se fazem densas nos seus significados. Não se potencializam na estimulação de um pensamento ativo. Não sinaliza para o espectador a possibilidade de se envolver profundamente com a história de uma forma crítica.

Pensando a partir desse critério, as obras até aqui adaptadas de Jogos Vorazes, se fazem, até mesmo, satisfatórias. Mesmo trazendo a marca indiscutível de um BlockBuster, as obras sequenciais trazem uma potencialidade de impulsionar pensamentos e discussões ao que se propõem obras distópicas. Sendo a Distopia um gênero que traz o ser humano violentamente deslocado, o colocando em situações psicologica e fisicamente extremas. Levadas até extremos como esse, pelas imprudências cometidas pela nossa existência até ali. Mas, mesmo assim, o pensamento aprofundado, se dá muito mais no público e muito pouco na obra.

Dito isso, esse talvez seja o ponto ao qual exponho nessa dissertação. A indústria fílmica corrompe a potencialidade das obras como tal. O filme se dá ao público como produto. Produto pensado para antes, bem antes, satisfazer e divertir.

E se uma densidade no significado da obra se dá naquele que vê, o que se esperar, então, de uma audiência que antes de uma análise crítica pensa em agregar isso ao seu Capital Cultural?

Muitas vezes temos opiniões apressadas que colocam a obra em um nicho que não faz sentido algum de se colocar. Nicho aparecendo aí até como maneira de vender o filme, por vezes. Gerando assim comparações forçadas e injustas de universos que não podem vir a ser medidos, muito menos comparados.

Dessa forma, ao invés de uma análise crítica, temos opiniões enlatadas que vão preencher discussões fanáticas e muito pessoalizadas. Ideias que se prendem em uma reverencia passional e uma vaidade irritante. Causando assim a distanciação da audiência do que é mais importante; o filme tal como filme.

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