Frames iniciais de “The Rocky Horror Picture Show”.

Science Fiction, Double Feature

Coluna “Matilha Andaluza”, por Lucas Souza

Pôster anunciando a sessão de meia-noite de “The Rocky Horror Picture Show”

Michal Rennie estava doente no dia que a Terra parou, mas Flash Gordon estava lá, com sua cueca de prata: ficção científica em sessão dupla, assim começa “The Rocky Horror Picture Show” (1975), logo de cara citando suas referências ao cinema B e não se importando muito se você consegue captar essas referências, afinal você não foi convidado para a dobra do tempo, mas pode entrar, fique do lado de Brad e Janet — porque vamos fazer a dobra do tempo novamente!

The Rocky Horror Picture Show” fora a minha inserção no cinema B, a conceituação de “filme B” remonta as décadas de 30 e 40 de Hollywood, Carlos Primati, jornalista e pesquisador da história do cinema, pode nos dar essa conceituação melhor:

Originalmente, os filmes B eram produzidos pela unidade secundária dos grandes estúdios, que, nas décadas de 30 e 40, dividiam suas operações. Na unidade A, eram feitos apenas os filmes de destaque, onde brilhavam os maiores astros. As fitas que saíam da unidade B dos grandes estúdios não tinham estrelas, embora nem sempre o orçamento fosse baixo. Essa dupla produção começou durante a crise econômica americana provocada pela queda da Bolsa de Nova York, em 1929. Como os cinemas perdiam espectadores, surgiu a ideia de atrair o público exibindo dois filmes pelo preço de um.


Atualmente os “filmes B” são os independentes (geralmente de ficção científica, terror ou violência), de baixo orçamento e com um roteiro bem mais criativo (uns beirando até o nonsense) do que os filmes mais comerciais. Bem, minha conceituação é bastante rasa nesse quesito aqui, pois realmente o que importa no texto é apresentar a imagética de “The Rocky Horror Picture Show” de Jim Sharman co-autor da peça homônima que teve sua estreia em 1973, ao lado de Richard O’Brien, dois anos antes do filme vir a existir. Ah, o roteiro também é assinado por ambos.

As personagens Columbia, Magenta, Dr. Frank-N-Furter e Riff Raff

Considero “The Rocky Horror Picture Show” um marco para o cinema por uma série de fatores. Primeiro porque na época de seu lançamento o filme fora renegado e não obteve sucesso algum em diversos países, embora rapidamente tenha alcançado um status cult nos Estados Unidos e na Inglaterra, com sessões interativa dos fãs com a projeção até hoje. Isso sem falar da imortalidade da obra, que é introduzida para as novas gerações pela própria indústria cinematográfica/televisiva, vide a presença da obra em “As Vantagens de Ser Invisível” (2012) e na segunda temporada do seriado “Glee”. Todavia, o que me faz considerar o filme como um marco para o cinema em geral são os temas que ele aborda e da maneira como aborda.


The Rocky Horror Picture Show” é transgressor. Sua personagem principal, o Dr. Frank-N-Furter, é uma travesti (só por esse início já percebemos a que público o filme que falar) que tem orgulho de ser o que é — e percebemos isso na letra de “Sweet Transvestite”, com forte influência do jazz e do blues, com toda a performance dedicada e exagerada (como deveria ser para esse papel!) do Tim Curry. Aliás, dar vida ao Frank-N-Furter e seus excessos fora um excelente trabalho de atuação do Curry, ainda mais nas cenas finais e na performance de “Rose Tint My World”, considerada por muitos como uma mini-ópera rock dentro do musical, sendo esse um dos legados de “Rocky Horror”, a aparição de algo que pode ser considerado uma ópera rock dentro de um filme que é muito mais que um musical.

As personagens do filme são todas estranhas e caricatas. Eddie, o motoqueiro-rockabilly-morto-mais-de-uma-vez representa a decadência da revolta de uma juventude: entra em cena, faz maravilhosamente sua interpretação e morre novamente, deixando uma Columbia chocada e ainda embalada pelo rockabilly de seu “Hot Patootie”. A relação da Columbia com o Edie é totalmente visceral: ela se joga no colo dele, o agarra, se entrega; não o deixa, mesmo sabendo quem ele é — um problema que só queria rock, pornografia e uma motocicleta.


Em contrapartida temos a relação de Brad e Janet, comedida, “respeitável”; casta. Pelo menos até o momento que a menininha virgem e seu protetor quatro olhos e de cuecas resolvem dormir na mansão do Dr. Frank-N-Furter. Naquela noite ambos tornam-se adúlteros, seduzidos pela luxúria do Doutor. Em certa medida, ver um filme tratando tão despudoradamente e sem amarras, o desejo humano ao sexo, ainda mais de um travesti com um homem, para a época — e até para os dias atuais! — é imoral! E por esse sentido que, para mim, “The Rocky Horror Picture Show” é imortalizável: por tocar nas feridas que nenhum filme ainda tinha tocado, com uma estética totalmente over, burlesca e kistsh, que precisa, sim, ser levada a sério.

Rocky e Janet

Não podemos nos esquecer da criação do Dr. Frank-N-Furter, o homem criado por ele para aliviar sua “tensão”, como o mesmo diz, Rocky. Um loiro musculoso e que não sabe o sentido de sua existência, funcionando no filme como o companheiro ideal do Doutor e em determinada parte do longa, a entrega de Janet aos seus desejos e impulsos sexuais, porque ela queria ser suja por uma criatura da noite como ele.



As músicas apresentadas pelo longa trazem toda a bagagem rebelde que ele carrega. O rockabilly, o jazz, o blues, a ópera-rock, tudo é feito para a libertação das sexualidades das personagens ali envolvidas. O filme todo é uma celebração a liberdade e diversidade sexual, sem amarras, ou máscaras — é a luxúria sendo cometida sem ser pecadora.

O final do filme é apoteótico e nada previsível, se pensarmos por onde se envereda o longa. Há sim uma espécie de castração aos influxos sexuais propagados pelo Dr. Frank-N-Furter, como há a castração em nossa sociedade — aliás, essa mesma sociedade que nos liberta é a que nos reprime. A mão que afaga é a que bate, é algo para se pensar. Aqui uma atenção especial merece ser dada aos irmãos Riff Raff e Magenta, que no fim revelam que os planos do Doutor foram longe demais e ele deve ser preso. Mas afinal, ser preso por quê? Por ser sexualmente livre? Por fazer com que os outros também entreguem-se a seus impulsos? Ser preso por ser liberto — e um pouco libertino.

The Rocky Horror Picture Show” apresenta-se para mim como um filme mais do que transgressor. Com sua estética over, suas músicas exalando rebeldia e a decadência da mesma, sua temática ainda não aceita com bons olhos em nossa sociedade, seu amor livre, e sua sexualidade sem rótulos o filme faz-se não só transcendente em suas ponderações: faz-se, principalmente, resistente.