Uma Reflexão Sobre Violência com Romain Gavras

Coluna “Vertigo”, por Raphael R. Moura

Romain Gavras, Diretor Grego-Francês, possui uma considerável videografia. Nessa lista estão videoclipes, curtas e curtas publicitários. Alguns desses vídeos tomam como característica mais notável uma reflexão cultural e política das coisas tal como estão. O que se expressa de mais imediato, talvez seja a identificação ortodoxa do indivíduo com o sistema; a violência fetichizada. E até mesmo a violência mais imediata; incendiária. Que grita a plenos pulmões pela Liberdade.

Tento por essa dissertação fazer uma análise de dois videoclipes dirigidos por Gavras: No Church in the Wild (JAY Z & Kanye West, com participação de Frank Ocean); Stress (Justice). Ambos marcados mais expressivamente pela violência. A violência que abala agressivamente a ordem natural das coisas.

No Church in the Wild, traz em cada frame a reflexão daquilo que talvez seja o que mais nos custa: a liberdade. Aqui se têm a violência que tenta interromper o fluxo. É Revolução. Logo, o sistema, posso dizer também Estado, faz uso da repressão; aquilo que tenta barrar a pressão crítica social de um coletivo.

O jogo social das forças faz da repressão, interações sutis e pouco sentidas pelo senso comum (exclusão). Enquanto que, a Revolução (mobilizações, greves ou qualquer ato político “subversivo”) se faz imediata e eticamente perigosa para o senso comum.

Toda essa violência faz da ideologia uma massificação do pensamento. Tornando o coletivo uma repetição lógica confusa e desconexa. As formas de repressão acabam por se aproveitar de um coletivo confuso se infiltrando na atividade política, na produção dos discursos e nos dogmas e correntes filosóficas.

A intensidade dos versos de No Church in the Wild é essencial para a rolagem dos frames. Pois se uma mobilização não é nada para um rei, sendo esse rei tão quanto menor para um Deus, o que é então um Deus para aquele que não acredita? A exposição de uma hierarquia sancionada para se manter o sistema, é abalada por uma desconstrução perturbadora de uma noção ideológica.

Culpa e responsabilidade não está numa ideologia conservadora. Certo e errado não pode ser ditado por uma ou outra doutrina (religiosa, …). Não existe pecado enquanto existir permissão; então que se faça antes de tudo política e não a deturpação da prática por noções particulares.

Aí que se fundamenta No Church in the Wild: a exposição da violência no cenário político e os versos metafóricos que nos impactam; a negação ao tradicional do ocidente. A pratica política é nossa e se constrói pelo habito.

Como pode uma ideologia que faz da revolução violência eticamente perigosa, advogar tortura? Como pode uma noção conservadora querer conservar o fluxo, sendo esse, a garantia da violência e privatização da liberdade política?

O piedoso é piedoso porque Deus ama o piedoso? Ética é pratica. Pratica é hábito; hábito para ser bom. Ser bom é seu dever e não está escrito nas estrelas.

Partindo então para o videoclipe da dupla francesa Justice, vemos a exposição da violência como resposta física causada por estímulos externos.Stress; a liberação de um trauma como violência sem sentido.

Uma batida eletrônica agressiva basta para emoldurar cada frame. Somente o instrumental é necessário para expor violência sem discurso. O excesso faz de alguns reflexos do sistema. Logo excesso se faz virtude.

Cada segundo do videoclipe expressa a tragédia democrática liberal: podemos fazer tudo o que queremos. A confusão política corrompe e distorce prática.

A noção política se perde em excesso de confusão ideológica; sendo tão somente a ética, tal como está, para um bem individual. A violência aqui expressa faz se exceder o julgamento crítico político. O excesso da crítica faz da pessoa política acima da moral. A violência se torna conservadora dos direitos.

Stress, mostra uma violência que não custa e não chega a lugar algum. Que passa longe da palavra liberdade. O único grito talvez seja para um insulto. Palavras negativas sem causa ou necessidade, gritos vazios, um discurso reproduzido. Uma consequência necessária e trágica da violência numa ideologia que corrói o pensamento ativo e crítico.

Gavras, co-fundador da produtora Kourtrajmé com o Diretor Kim Chapiron

Romain Gavras faz da imagem a expressão da subversão. Vídeos marcados pelos impactos sociais da ideologia liberal na cultura de uma forma impactante e incisiva.