Sempre há um caminho

Curta-metragem chapecoense volta o olhar para o campo e retrata o paradoxal conflito do regresso.

Caminhos. Vivemos constantemente a ideia de idas e vindas, partidas e chegadas, encontros e desencontros. Às vezes é até fácil se perder em meio aos vários destinos que a vida dispõe. Mas a retomada, o processo de regressar é um momento que todos passamos.

Esta dualidade é permanentemente ressaltada no dilema do êxodo do interior para a cidade. Muitos que deixam a terra e a família veem no caminho de volta um paradoxal conflito que desperta os mais sinceros sentimentos. É como olhar para algo que um dia lhe pertenceu, mas que hoje não cabe mais à nova forma de vida.

Para contar um pouco destas histórias de regressos e seus respectivos conflitos, o documentário O Caminho da Roça, que é a tradução da língua indígena Kaingang para a palavra Chapecó, narra a vida de Valdis, que vive uma realidade extremamente característica da região. O filme lança um olhar para o interior através da narrativa da vida desse jovem que deixou o campo rumo à cidade, mas é chamado de volta devido uma herança familiar. Nesse tempo que passa na comunidade onde cresceu, ele (re)visita a nostalgia da infância, o saudosismo dos amigos e (re)descobre o campo. Nesse processo, Valdis se depara com pessoas que ainda têm como modo de vida a simplicidade e os costumes sobreviventes ao tempo, e que trazem na essência a conflitante relação entre o antigo e o novo.

Segundo a roteirista e diretora do filme, Daniela Farina, O Caminho da Roça “é um retrato poético e atual do campo visto por olhos acostumados à cidade”, descreve. O filme foi produzido com recursos do Edital Municipal das Linguagens Artísticas de Chapecó, no segmento de audiovisual. A equipe de produção inclui integrantes de Chapecó e Xaxim, além do ator principal o também chapecoense, Tiago Hall.

Com um estilo híbrido, que mescla ficção e documentário, o imaginário se funde à realidade, e mostra que de alguma forma todos deixamos algo para trás que nos convida ao resgate. Para o também roteirista e diretor do curta, João Fernando Lucas, “O Caminho da Roça é um filme que, nas entrelinhas, fala sobre desapego e liberdade, além de retratar essa complexidade do retorno para o campo da forma mais singela que ela pode ser”, complementa.

As filmagens foram realizadas no interior de Chapecó e Xaxim com uma produção de baixo orçamento através da produtora Três Quadros Filmes. A trilha sonora é totalmente original e o videoclipe da banda Grass Fed Youth, responsável pela trilha, foi realizado nas mesmas locações do filme. A música de nome “Running Away”, que traduzindo significa fugindo, faz alusão ao processo contraditório de busca que o personagem principal passa na trama.

O regressar às vezes é eminente. Mas quem nunca precisou voltar? Os caminhos podem ser os mais diversos, seja para casa, para cidade, para roça ou até mesmo para dentro de si. E das incertezas da vida, isso é fato, sempre haverá um caminho para seguir.

Ficha técnica: Roteiro e direção: João Fernando Lucas, Daniela Farina. Ator principal: Tiago Hall. Voz 0ff: Márcio Chavemarin. Assistente de direção: Felipe Ballin. Diretor de fotografia: Rodrigo Scandolara. Som direto e montagem: Joelmir Zanette. Trilha original: Grass Fed Youth. Desenho de som: Sopro. Produção: Sabrina Zimmermann, Daniela Farina, Felipe Ballin. Arte e figurino: Carol Horn e Ana Carolina Orlandin. Cor: Sinara Klaus Rossatto. Finalização: Joelmir Zanette e Gustavo Batistello