Como Pensa Quem Pensa Cultura Pop (Parte 2d — Os Estudos Culturais e a Braconnage)
#DropsTangentes / S1E11

Bem-vindos ao DropsTangente, uma coluna dedicada à investigação da cultura pop! Eu sou o Bruno Maroni, e a ideia dessa coleção de textos e podcasts é de trabalhar quebra-cabeças intelectuais sobre cultura, cultura popular e interação cultural de modo objetivo e acessível.
Nossos episódios estão sendo distribuídos por temporadas — como se fosse uma série. Nessa primeira temporada estamos explorando alguns dos tópicos preliminares — fundamentais — do assunto, como por exemplo: as definições e conceitos de cultura, abordagens de estudo e teorias sobre cultura popular, suas descrições, significados e características.
Há alguns episódios temos falado sobre como pensa quem pensa cultura pop, ou seja: quais foram ou tem sido os paradigmas de estudo sobre esse assunto. Já aprendemos sobre o contexto e os aspectos principais da Escola de Frankfurt, e da disciplina dos Estudos Culturais, a principal abordagem de estudo da cultura popular, com a mais ampla pauta de reflexões sobre o tema. Desde então, estamos refletindo a respeito dos principais tópicos dos Estudos Culturais. Já aprendemos sobre a teoria da hegemonia e do estilo, e agora estudaremos o conceito de braconnage.
Nós cremos que a descrição das abordagens e temas estudados sobre a cultura popular nos auxilia no plano de sermos discípulos de Cristo que compreendem o evangelho e o articulam fielmente no mundo em que vivemos — especialmente no universo pop. Entendemos que para isso, o contato lúcido com a cultura popular é indispensável. Vamos começar!
Traremos para essa nossa conversa algumas referências, então eu gostaria de apresentá-las. A primeira delas, que tem sido muito importante para o que temos desenvolvido aqui, é o livro Blackwell Guide To Theology And Popular Culture (Guia Blackwell de Teologia e Cultura Popular), escrito pelo professor de teologia e ética, Kelton Cobb. Além dele, vamos recorrer também ao autor Marcel Danesi (que leciona antropologia, semiótica e teoria da comunicação), com seu livro Popular Culture: Inroductory Perspectives (Cultura Popular: Perspectivas Introdutórias); e ao proeminente professor de Estudos Culturais, John Storey, e seu influente trabalho Cultural Theory And Popular Culture: An Introduction (Teoria Cultural e Cultura Popular: Uma Introdução).
Antes de chegarmos à ideia da braconnage, é útil que olhemos para alguns conceitos anteriores que contribuíram para seu desenvolvimento. A fonte desse e de outros conceitos é a filosofia francesa, e outros três termos são importantes para introduzirmos o assunto: collage, bricolagem e pastiche.
O primeiro termo se refere a uma imagem feita a partir da colagem de diferentes peças em uma só superfície. O segundo termo, bricolagem, remete ao antropólogo francês Claude Lévi-Strauss e, de acordo com Marcel Danesi, corresponde a uma “estrutura unificadora para componentes aparentemente díspares de um espetáculo ou texto, e não apenas uma mistura.” (2018, p. 37). Strauss observou isso pela primeira vez enquanto estudava rituais de tribos que mesclavam variados símbolos e mitos com o fim de evocar harmonia. Por último, o terceiro termo, pastiche, descreve uma mistura de elementos cujo propósito é imitar e satirizar algum artefato ou estilo específico. Essas três expressões aparecem cotidianamente na cultura pop, desde grafites em muros, programas de auditório da TV aberta à sitcoms satíricos.
Mas e quanto à braconnage? Essa palavra foi introduzida nos estudos culturais por Michel de Certeau, erudito francês (que estudou, dentre outras coisas, psicanálise, ciências sociais e teologia). Mas o que a palavra significa, e qual sua relação com a cultura pop?
Uma tradução literal do termo seria algo próximo de “caça ilegal” ou “caça furtiva”. Ou seja: o ato de se apropriar indevidamente de algo que não é seu. Para Certeau, consumidores de cultura pop são como caçadores fora da lei, pois transitam em territórios alheios tomando e usando recursos que não produziram (escreveram, gravaram, compuseram, confeccionaram e assim por diante). Sob essa perspectiva, um consumidor de cultura pop é uma espécie de Robin Hood, que assalta os domínios do rei para utilizar seus recursos para fins que não foram intencionados — objetivos opostos aos quais serviam.
Nós podemos perceber que se trata de uma prática muito ligada ao estilo, tema que observamos no episódio anterior. Isso porque, conforme nota o professor Cobb, grupos periféricos ao mainstream furtam nos vastos campos da cultura popular e então colocam os símbolos dela à disposição de usos não pretendidos originalmente (2005, p. 60). Existem agências publicitárias e revistas (Cobb menciona, por exemplo, os americanos da Adbusters Media Foundation) com objetivo de “desmascarar” as empresas, interferindo através de campanhas com críticas astutas e sofisticadas visando revertendo os significados pretendidos pelas corporações. Campanhas do tipo costumam expor a corrupção nas produções, desmistificando iniciativas comerciais ou políticas, e escancarando também os efeitos nocivos do consumo à saúde e ao meio ambiente.
…os “culture jamming” conhecem o poder mágico das imagens e o inclinam para seus próprios fins. Eles furtam as técnicas de propaganda de ponta, utilizando o mesmo estilo irreverente que as agências de publicidade aperfeiçoaram ao longo dos anos para minar as mistificações que promoveram em nome de seus clientes. (COBB, 2005, p. 62).

Quase que um “cabo de guerra” cultural. O filósofo e semiólogo italiano, Umberto Eco, chamava essa prática furtiva de “guerrilha semiótica”. Ele notava o constante e intenso movimento entre produtores e consumidores, incluindo as múltiplas operações subversivas em jogo. Essa observação de Eco nos encaminha à resposta do porque o que estamos estudando aqui (a braconnage) importa para discípulos de Cristo que pretendem engajar-se à cultura pop. Precisamos considerar a dinâmica dialógica da cultura popular, ou seja: darmos atenção a quem fala e quem escuta, mas, além disso, como se dá o discurso envolvendo ambas as partes.
Na verdade: um olhar cuidadoso que perceba na íntegra os significados tecidos nos artefatos culturais deve interpretar não apenas o que está envolto em determinado artefato, mas compreender as decodificações opostas a ele — em outras palavras: que sentido os vários consumidores têm extraído da cultura pop. John Storey explica isso com bastante precisão: “nós temos que estar sempre alertas ao que, ao porque e a quem algo está sendo articulado, e em como isso pode ser articulado de outras maneiras em outros contextos.” (2018, p. 224). Precisamos estar atentos não só a quem compõe, grava, escreve ou confecciona, mas a quem e em como escutam, assistem, leem ou vestem — estar atentos a quem consome e em como o fazem.
Atenção à circulação, disputas de significado e às denúncias que a própria cultura pop faz de si mesma é um pré-requisito para bons leitores e agentes culturais. Muitos temas discutidos no espaço dos Estudos Culturais são oportunos para aprendermos a pensar sobre a cultura popular, então, no próximo episódio continuamos com essa pesquisa. Vamos falar sobre a o conceito de simulacrum e a teoria da hiper-realidade. Até!
REFRERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COBB, Kelton. The Blackwell guide to theology and popular culture. Hoboken-EUA: Blackwell, 2005.
DANESI, Marcel. Popular culture: introductory perspectives. Lanham-USA: Rowman & Littlefield, 2018.
STOREY, John. Cultural theory and popular culture: an introduction. Abingdon-ENG: Routledge, 2018.
