
O homem é uma criatura estranha. Todas as suas ações são motivadas pelo desejo, seu caráter é forjado pela dor. Por mais que ele tente suprimir a dor, suprimir o desejo, ele não pode se libertar da escravidão eterna de seus sentimentos. Enquanto durar a tempestade dentro dele, não conseguirá encontrar a paz. Nem a vida, nem a morte. E assim ele fará, todos os dias, o que for necessário. A dor é seu navio, o desejo é sua bússola. É só disso que o homem é capaz (Adam, DARK S02E07, Netflix).
LITURGIA, TEMPO E ADORAÇÃO
O ser humano é refém do tempo. Essa é uma das suas características, assim como de todo o Universo. O homem habita preso ao tempo. Portanto, ou vive se submetendo ao tempo, implorando por gentileza, ou então vive para tentar conquistá-lo e, por fim, substituí-lo por um molde de si mesmo.
Ademais, o tempo é transcendente. Há quem diga que é o próprio Deus. De fato, Deus é transcendente, e a principal característica de algo transcendente é exatamente estar livre das amarras temporais.
Deus é eterno. As Escrituras nos lembram desse fato. Também afirmam que o restante da Criação é passageiro. No meio disso, é dito que a humanidade não passa de uma leve brisa, uma relva que nasce e morre. Efêmera. Temporal.
Deus não é o tempo. Ele é Eterno. Deus é Senhor do próprio tempo.
O homem sabe, em sua pior noção de si mesmo, que não durará para sempre. O homem é escravo do tempo. Não há barganhas com o tempo.
Temos consciência de nossa existência temporal e efêmera. Uma vez que não é eterno, o homem então procura por algo que o transcenda. Por isso, no livro de Eclesiastes, o sábio rei revela que o próprio Eterno colocou no homem esse anseio para que se transcenda o tempo. Há no homem o anseio pela própria característica do que é Eterno. O homem quer ultrapassar seu tempo.
Sabemos que isso é impossível. Os anos vencem as nossas forças facilmente. A velhice chega, os dias maus cobram os seus impostos. Todo ser vivo nasce, cresce, se desenvolve, reproduz, envelhece e morre. O tempo é o lembrete ruim de que a morte chegará.
Não há como controlar o tempo. Não há como resolver o anseio desesperado do homem de vencer a guerra contra o tempo. A humanidade vive atrelada ao desejo de que o futuro seja resguardado, ou seja, Esperança. Também vive a mercê de sua vontade de consertar o que foi prejudicado, a Paz (Shalom, em seu significado mais filosófico, é “a volta ao estado original).
Entre a esperança e a paz, o anseio se molda em desespero no coração humano.
O anseio do homem pela eternidade contamina o seu coração. É assim que começamos. Porque é precisamente neste ponto que lhe brota o desejo pelo o que lhe é transcendente, maior, absoluto. A necessidade de voltar a sua vida para algo além dele mesmo, maior que o visível, mais poderoso que a matéria. Algo que inclusive controla as forças invisíveis do passar das horas e do mudar das estações.
Assim, temos a aspiração religiosa do homem. Podemos chamar isso de adoração.
O HOMEM LITÚRGICO E OS AMORES
Tu nos despertaste para o prazer de te louvar, pois nos criaste para ti, e o nosso coração não tem sossego enquanto não repousar em ti. (Agostinho, Confissões, Livro 1)
A adoração é como uma bússola que dirige o homem. Toda a vida a ser gasta se envolve ao redor desse foco. A bússola aponta para o norte, onde o seu desejo de uma boa vida está. A boa vida é justamente a utopia que lhe satisfaz a existência: esperança e paz. Essa bússola que dirige o homem é alicerçada no coração, no mais profundo de seu ser. Contamina todo o seu ser. Hábitos, vontades, desejos e, finalmente, amores. O ser humano então, mesmo que inconscientemente, persegue e molda seu coração de acordo com a utopia que mais deseja.
A busca pela utopia é justamente esse sossego citado por Agostinho, o anseio pela paz. O ser humano não descansa enquanto não estiver sobre o que realmente pode trazer alento à sua existência. Vive essa perseguição, sem saber que a verdadeira paz já lhe foi oferecida. Assim, enquanto não está sobre a paz do seu Criador, vive para gastar a sua vida à procura de um lugar para descansar.
Essa bússola, ou o próprio coração do homem, desregulada, molda por completo todas as características de sua existência. A bússola dá a direção para onde o ser humano apontará o seu desejo da melhor vida, a sua ideia de paz. Assim, guiado por isso, toda a vida sofre as consequências. Anseios são os nossos “amores”, usando um ferramental já explorado por Agostinho.
Nossos amores são a definição última de tudo o que é mais central à nossa existência. Chamamos isso de “Ordem dos Amores” ou ordo amoris.
A ordo amoris, discutida por Agostinho, salientará um ponto nessa discussão. O homem molda seus hábitos de acordo com a ordem do seu coração. Esses hábitos moldados influenciam o seu dia a dia, revelam a sua verdadeira disposição, ou seja, a sua adoração. Aquilo que possui o coração do homem, ou sua ordo amoris, o domina. “Quem possui a ordo amoris de um homem possui o homem.” (Max Schelley, Ordo Amoris, sobre Confissões de Agostinho.)
Hábitos moldados e guiados pelo nosso coração. Amores desordenados, que anseiam por um descanso. Uma vida que então se condicionará para satisfazer os desejos mais profundos que temos. Somos isso. Não apenas seres cognitivos, ou seres volantes (de vontades), mas somos seres amantes. Se você já leu o livro do J. K. Smith “Você é aquilo que ama” sabe muito bem do que estamos falando.
O homem é escravo daquilo que adora. A humanidade é refém dos seus amores.
Mas o que a ordem dos amores tem a ver com a adoração? O que isso significa, dentro dos meus hábitos, hobbies, desejos e sonhos? A adoração é muito mais do que os atos piedosos que realizamos ou deixamos de fazer. A adoração é vista resumida em nossos hábitos, provada por nossas ações e escancarada no modo que dividimos o tempo. Nossa agenda e horários dizem muito sobre a quem adoramos. Nossos hábitos são um resumo da nossa liturgia.
Liturgia é a organização do tempo. Normalmente é a organização dos elementos que compreendem as atividades que fazemos dentro de uma adoração pública. Mas podemos extrapolar isso. Nós, seres humanos, somos seres litúrgicos. Sim, o ser humano é um ser litúrgico. “Ser humano é ser um animal litúrgico, uma criatura cujos amores são moldados por nossa adoração. E adoração não é algo opcional.” (James K. Smith, Você é aquilo que ama, p. 46)
A adoração revela para onde a bússola está direcionada. O homem adora aquilo que mais deseja. Volta seus hábitos, seus anseios e sonhos diante do que lhe é mais central, seus amores. O tipo de liturgia, sendo o conjunto de hábitos que molda nossa adoração e por consequência os nossos amores, é onde a nossa bússola está direcionada. Revela o que amamos, e amamos o que adoramos, bem como adoramos o que amamos.
Nós somos o que amamos, e nosso amor é moldado, preparado e ajustado por práticas litúrgicas que possuem nossas paixões e direcionam nosso coração para certos propósitos. Então nós não somos primordialmente homo rationalle ou homo faber ou homo economicus; nós nem genericamente somos homo religiosis. Somos mais concretamente homo liturgicus; Humanos são animais religiosos não porque são animais crentes, mas porque são animais litúrgicos. — criaturas cujas práticas encarnadas apontam para algo último. (James K. Smith, Desiring the Kingdom, Cultutal Liturgies Vol. 1, p.40)
A humanidade, na sua guerra contra o tempo, será direcionada pelo seu impulso mais interior. Seus amores definem, bem como traçam o seu caminho último. O ser humano, em busca do seu descanso final, tenta desesperadamente se ajustar ao seu desejo de uma boa vida.
Pode ser uma prisão ou pode ser um paraíso. O homem litúrgico pode existir perdido em uma confusão afetiva, perdido em seus desejos e navegando em meio à dor gerada pela expectativa da insatisfação, ou finalmente se ver livre descansando no Amor verdadeiro que ajusta todos os outros amores.
A guerra contra o tempo é real, faz parte de nós. A nossa adoração é diária, rotineira. Hábitos, compromissos, liturgias. O homem litúrgico é um ser afetivo, guiado pelos seus amores. E seus amores configuram-se em hábitos. Nós somos o homem litúrgico.
O homem litúrgico é um ser com o coração incansável, tentando em seus hábitos satisfazer o seu desejo e encontrar a paz. Sua adoração é sua bússola. Seu coração é seu navio. Resta se revelar quem é o seu capitão.
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REFERÊNCIAS:
DOOYEWEERD, H.; Raízes da cultura ocidental: as opções pagã, secular e cristã; São Paulo, Cultura Cristã, 2015, 256 p.
NIEBUHR, R.; Cristo e Cultura; Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1967, 289 p.
HUNTER, J. D.; To change the world: the irony, tragedy & possibility of christianity in the late modern world; New York, Oxford University Press, 2010, 358 p.
SMITH, J. K.; Desiring the Kingdom: Worship, Worldview, and Cultural Formation; Grand Rapids, Baker Academy, 2009, 238 p.
SMITH, J. K.; Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito; São Paulo, Vida Nova, 2017, 256 p.
SCHELER, M.; Ordo Amoris; Covilhã, Universidade da Beira Interior, 2012, 44 p.
TAYLOR, C. ; Imaginários sociais modernos; Lisboa, Texto & Grafia, 2010.
TOLKIEN, J. R. R., A sociedade do anel; São Paulo, Martins Fontes, 2002, 464 p.
WILSON, N. D.; Morrer de tanto viver: a vida foi feita para ser gasta; Brasília, Editora Monergismo, 2018, 184 p.
Gui Iamarino é músico, compositor, professor e teólogo em constante formação. Pesquisador na área de liturgia. Admirador da vida, do universo e tudo mais. Leitor ávido de fantasia e ficção científica. Integrante fundador do Projeto Sola, que procura glorificar à Cristo e edificar a Igreja com músicas contemporâneas, confessionais e profundamente bíblicas, mergulhadas no folk. Acredita na redenção total em Cristo Jesus, na soberania das esferas e no verdadeiro assombro diante da graça de Deus.
