O lado obscuro das festas univesitárias

Bebedeira, assédio sexual, brincadeiras exageradas… É preciso discutir até que ponto a curtição na balada pode representar um perigo real

Reportagem por Loyce Policastro e Monique Lima

As redes sociais são usadas para anunciar a festa, vender convites, cartazes tomam conta dos bares, o pessoal se reúne para entregar panfletos… E em poucos dias — ou horas — boa parte dos estudantes já está ciente do evento. As vendas dos convites são iniciadas e, os jovens, ansiosos para ter uma noite de diversão, começam a combinar de qual forma aproveitarão a noite.

De acordo com a psicóloga Ana Clara Cava, a carga que é depositada nesses estudantes é extrema, e esse tipo de diversão é uma forma de escapar da realidade e fugir — pelo menos por alguns instantes — de algumas responsabilidades. “A transição da adolescência para a fase adulta geralmente se desenrola na época do ingresso na faculdade, e o abandono de atitudes e comportamentos da juventude se faz necessário. As novas exigências podem criar uma postura de negação no indivíduo, que apresenta uma resistência ao desconhecido. Essa resistência é comum a todos nós, pois qualquer mudança ou transição que enfrentamos durante a vida é acompanhada por uma crise.” No entanto, sempre há aquela parcela que marca presença para praticar atos inconsequentes e acaba não aproveitando tão bem a noite…

ÁLCOOL EM EXAGERO

Quando o estudante de engenharia Humberto Moura, 23, morreu durante uma festa universitária, em março do ano passado, devido ao consumo exagerado de bebidas alcóolicas, a estudante N.L. — que preferiu não ter seu nome exposto publicamente — estava presente no evento e acompanhou de perto a situação. Segundo a jovem, Humberto era vangloriado a cada dose de vodca que tomava — uma seguida da outra. “A torcida não era para ver quem cairia primeiro, e sim para saber quem iria beber mais. Não tinha maldade”, afirmou a estudante. Os jovens ali presentes, de fato, poderiam não estar cientes das sérias consequências de consumir bebidas alcoólicas exageradamente, no entanto, infelizmente, aconteceu. Inúmeras festas foram canceladas após o triste acontecimento, e Humberto se foi para provar que atos inconsequentes podem levar à fatalidade.

Durante as festas, jovens extrapolam no álcool sem temer a consequência de seus atos (Foto: Monique Lima, Arte: Tiago de Moraes).

DROGAS ILÍCITAS

Durante uma festa na cidade de Botucatu, no ano de 2015, uma cena inusitada foi flagrada pela reportagem: dois jovens, do sexo masculino, faziam o uso de cocaína no banheiro do local. Após muita conversa e negociação, os dois amigos deixaram com que a equipe registrasse o momento para posteriormente descrever a cena em reportagem. O primeiro amigo sai, conversa com um rapaz, que lhe entrega um embrulho, e volta rapidamente, com a maior discrição possível. Os dois amigos, então, seguem para o banheiro e disfarçam para que ninguém perceba o objetivo deles ali. Após trancar a porta eles se agacham rente ao vaso sanitário, que está com a tampa abaixada. O espaço é bem apertado, mas isso pouco importa.

O segundo amigo apressa: “Vai mano, vai!”. O outro pede calma: “Calma cara, tô pegando aqui!”. A cocaína estava garantida e eles conseguiram se esconder dos ‘pidões’. “Mano, o cara não saía do nosso pé. Queria cheirar de qualquer jeito. Que nóia!”, disse o primeiro amigo, a respeito de um colega de turma, enquanto usava um cartão de crédito para fazer quatro carreiras com a cocaína. Com a droga já pronta, os dois aspiram o pó freneticamente, e depois checam a aparência no espelho para se certificarem de que está tudo bem. E, assim, eles saem do banheiro, como se nada tivesse acontecido.

Um dos organizadores da festa, procurado para dar sua declaração sobre a venda de produtos ilícitos, não quis se identificar, mas deixou a sua opinião: “Às vezes, eles [os organizadores] nem sabem quem tá vendendo alguma coisa dentro da festa, mas as vezes, deixam combinado de algum cara entrar e só ele pode vender”.

E sobre o consumo de drogas nesses ambientes festivos, Ana Clara alerta: “no caso do jovem adulto que ingressa na faculdade, é comum que, por conta dessa resistência às responsabilidades e exigências do novo contexto, o sujeito em questão busque um refúgio ou uma tentativa de permanecer na adolescência através das drogas.”

Transição para a vida adulta sempre foi complicada.
O problema é que nem sempre se pensa nas consequências. (Foto: Monique Lima).

Bebedeira não justifica abuso sexual

é de ciência da população que o álcool e as drogas mexem com os sentidos, mas nos jovens isso se soma aos desejos aflorados, à sexualidade e sensualidade latentes. Atualmente, as garotas têm mais poder na voz do que em outras épocas, mas alguns rapazes ainda não entenderam muito bem. Infelizmente, a roupa ainda parece ser um convite aos olhos de um garoto que pouco entende sobre o valor e direitos da mulher. Em um ambiente onde jovens transformadores se reúnem, a saia curta, o decote e os olhares podem ganhar formas que não têm.

E isso aconteceu com Maria Beatriz Castelo de Ribeiro, 20, estudante de engenharia civil, que contou ter sido agarrada por um homem que ela sequer sabia o nome. Ele roubou um beijo e ela, pega de surpresa, o empurrou, e quando se deu conta, ele voltava para o grupo de amigos enquanto eles riam. Ela não queria isso, não deu liberdade para ele e mostrava muita indignação. “Foi o tempo em que as festas eram lugares pra você ‘pegar’ alguém. Eu tô curtindo com as minhas amigas e vem um babaca desse e estraga tudo. Deixou-me nervosa, assustada. Ferrou a minha balada.”

Para a psicóloga Ana Clara Cava esse tipo de comportamento não tem uma relação direta com o consumo de bebidas ou drogas, portanto, essa explicação não pode ser usada para explicar tais atos. “Acredito que [o consumo de álcool e drogas] pouco interfere na causa do comportamento dos homens jovens em relação às mulheres, e isso não deve ser usado para justificar um possível abuso ou agressão dirigida, pois essa postura se dá num contexto histórico e cultural de subjugação e dominação patriarcal que, apesar de mais sutil, ainda vigora nos dias de hoje”. O silêncio é a pior escolha para a mulher que sofreu um abuso. Expor os abusadores, denunciando e fazendo valer os direitos que são garantidos por lei é a única forma de diminuir essa cultura de objetificação do corpo feminino.

Felizmente, nossa sociedade ainda possui bons exemplos. Jonathan Carreira, 24, estudante de engenharia ambiental, reprovou absolutamente a atitude do outro cidadão. “As garotas vêm pra fazer a festa delas, não tem que ficar pegando no pé. Se quiser tentar alguma coisa, começa pela conversa. Ninguém tem obrigação de querer se envolver com outra pessoa”, desabafa.

Portanto, fica o alerta para os jovens que estão ingressando na faculdade e anseiam pelas festas para poder liberar sua carga de estresse: extravasar, seja consumindo álcool exageradamente, usando drogas ou comparando uma mulher com um pedaço de carne, não é a melhor maneira. Todo comportamento abusivo leva a consequências sérias.//


Edição de Arte: Tiago de Moraes

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