Olhar Artístico

Artistas de Bauru e região contam suas histórias e visões sobre o incentivo à cultura e a arte no país

Reportagem por Flávia Izidoro e Jéssica Oliveira

Por mais que as manifestações artísticas estejam inseridas na sociedade desde o princípio, vindo antes mesmo da escrita, a carreira alicerçada na arte muitas vezes não é enxergada pelo senso comum como algo respeitado, concreto e que traga estabilidade para uma pessoa.

Na maioria das vezes, costuma ser vista como um hobby ou uma ocupação secundária. É comum uma pessoa se apresentar como artista e logo após a mesma ser indagada sobre qual sua outra profissão, como se viver de arte não fosse possível.

Essa realidade é relatada pelo dançarino e professor Paulo César Cruz. Há mais de 10 anos, ele ministra aulas de balé para meninas dos 12 aos 18 anos. “Eu não danço por hobby, nem por dinheiro, e sim por amor. Lógico que eu necessito de um retorno financeiro, mas essa não é minha prioridade”, diz.

O bailarino ainda argumenta que o Brasil é um dos países mais ricos em cultura, e que esta poderia ser mais bem aproveitada se não necessitasse tanto de investimentos. Muitas áreas artísticas que poderiam ser melhor exploradas e dar excelentes resultados acabam sendo esquecidas.

Paulo começou a se interessar pela dança aos 12 anos de idade, quando cursava o ensino fundamental na Escola Comunica de Eurípides Baracate, em Marília. Esta escola oferecia aos alunos aulas de dança, bordado, pintura e futebol. Na época, ele era apaixonado por uma menina que praticava aulas de dança, e a única maneira de ficar perto era dela era fazendo as mesmas aulas.

Junto a isso, a falta de aptidão para o futebol, pintura ou bordado fez ele se inscrever nas aulas de dança. Em pouco tempo sua paixão mudou de foco e, ao invés de conseguir a atenção da menina, ele começou a apaixonar-se cada vez mais pela dança, fazendo dela sua profissão. Deu tão certo que até hoje ele atua nesse ramo, sem nunca ter trabalhado com outra coisa. Paulo é um grande exemplo para desmistificar a ideia de que não é possível viver exclusivamente da arte.

ARTE E PRECONCEITO

Com uma história diferente, o grafiteiro e monitor social Jota Crepaldi, 31 anos, concilia suas artes e a rotina de afazeres. Casado com a professora de biologia e também artista Eveline Rodrigues, 32 anos, o grafiteiro é enfático ao dizer que “viver de arte no Brasil é praticamente impossível, salvo raras exceções”.

No caso desse tipo de arte, a confusão entre a diferença entre o grafite e pichação é comum. Resumidamente, o grafite é uma forma de expressar arte em muros e paredes com autorização dos proprietários e a pichação é o ato de escrever ou desenhar em muros sem consentimento do dono. O problema é o estigma criminoso atrelado as formas de cultura urbana.

Em outubro de 2015, os vereadores da cidade de Bauru aprovaram com unanimidade a lei que criminaliza o grafite junto à pichação, dificultando ainda mais o trabalho dos artistas, que se posicionam contra essa lei e ultimamente viaja para cidades vizinhas para poder expressar e divulgar sua arte.

Mesmo com uma barreira como esta colocada a sua frente, Jota não desanima e conta que enxerga isso como motivação para buscar outras formas de divulgar uma de suas paixões, o grafite. O artista lembra que desde pequeno se interessa pelo mundo dos desenhos “Desde quando me reconheço por gente, me lembro de desenhar e pintar”.

Para Eveline, sua esposa, o interesse também veio da infância. “Quando a gente é criança, a arte é despertada ou não para a vida toda. O problema é quando a criança tem o dom e a própria educação deixa esse dom de lado. Eu, particularmente, sempre gostei de fazer esculturas com massinha”, conta a artesã, que possui a marca de bolsas masculinas e femininas Sambarilove, produzidas uma a uma por ela mesma.

Essa realidade artística é vivida também pelo fotógrafo Gabriel Woelke, também conhecido como Santinho ou Bila. Com 27 anos, desde cedo já mostrava uma aproximação com manifestações artísticas. Com 6 anos possuía uma vivência próxima com dança, e essa experiência o moldou e o levou à área que atua hoje, a fotografia. No entanto, o artista continua também com a dança, viajando pelo Brasil ministrando workshops.

“As dificuldades são mais barreiras pessoais do que problemas de mercado e concorrência. Eu, por exemplo, preciso de organização, administração e marketing no meu trabalho. Se eu talvez resolvesse essas pendências todas, as coisas correriam com mais facilidade” (WOELKE, Gabriel)

Após a dança, foi com a arte de desenhar com a luz, a fotografia, que Bila se encontrou. No começo, fotografar era umas das coisas que ele adorava fazer e que fazia sempre que possível. Há aproximadamente 2 anos o artista comprou uma câmera com boa qualidade e começou estudos e experimentações de técnicas e novos conceitos na fotografia. Com isso, ele foi se aperfeiçoando. Por enquanto, o fotógrafo trabalha na empresa dos pais, pois o trabalho como fotógrafo ainda não permite uma renda satisfatória.

Gabriel relativiza as dificuldades. “São mais barreiras pessoais do que problemas de mercado e concorrência. Eu, por exemplo, preciso de organização, administração e marketing no meu trabalho. Se eu talvez resolvesse essas pendências todas, as coisas correriam com mais facilidade”.

Os quatro artistas têm em comum o ponto de vista quando dizem acreditar que nessa área a ousadia e a criatividade devem ser o carro chefe. O medo do novo, a instabilidade e a insegurança fazem com que muitos artistas fiquem estagnados e impossibilitados de crescer. Por isso, o conselho em comum deixado por eles de se arriscar e ir atrás do que nos faz feliz serve para quem, assim como eles, possui paixão pela arte e não se vê longe dos ateliês, câmeras fotográficas, palcos ou muros. O reconhecimento e o retorno financeiro podem até demorar, mas quando chegam, é inexpressável.“Onde quer que vá de o seu o melhor e sempre, procure se superar. Pois a nossa principal barreira somos nós mesmos”, finaliza Paulo.


Edição: Tiago de Moraes

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