Alunos do Lar Santa Luzia em um ensaio especial (Foto: Matheus Paiva)

Os olhos do amor

Apesar das dificuldades, escola especial trabalha em prol da inclusão dos deficientes visuais

Reportagem por Tiago de Moraes; Fotos por Matheus Paiva

Do portão para dentro, gradativamente, o calor típico das três horas da tarde e as sombras sólidas projetadas no chão eram acompanhados de um barulho de recreio que lembra os tempos de escola. No largo espaço do quintal, uma senhora terminava seu trabalho manual com cadeiras. O barulho vinha dos fundos da casa. Aos poucos, o som das conversas foi substituído por acordes de violão. O ensaio do coral havia começado.

O Lar Escola Santa Luzia é uma das entidades mais antigas da cidade. A responsável pela instituição, Nilce Regina Capasso Canavesi, 58 anos, relata um pouco de sua história com o projeto. “Tinha um amigo, Vicente Mandaliti Júnior, estava numa festa na casa de um conhecido em comum. Ele me perguntou se eu queria conhecer a entidade. O lar era na Rua Gérson França, onde hoje é o escritório. Aceitei e fui. Gostei e, desde então, eu não saí mais daqui. Recentemente, completei 34 anos de projeto”, conta.

Enquanto era possível ouvir os alunos do coral ensaiando “We are the world” do Michael Jackson e Lionel Richie, Nilce enumera as atividades desenvolvidas pelo projeto. “Temos um trabalho de restauração e empalhamento de cadeiras, feita de forma pedagógica, sob orientação de uma monitora, como um serviço direcionado para a comunidade. As cadeiras do fórum de Bauru foram feitas pelos alunos daqui. Além do trabalho com o braile, coral, teatro, percussão, fisioterapia, informática e com as pessoas portadoras de deficiência mental e visual”.

Nilce Regina Capasso Canavesi conheceu a Escola por meio de um amigo. Nunca mais se afastou (Foto: Matheus Paiva).

Tudo é mantido através de doações e convênios com a Secretaria Municipal de Bem Estar Social, a Sebes, Rotary, Lions Club e Associação Mulher Unimed. Entretanto, manter as atividades do Lar Escola tem sido um desafio em tempos de instabilidade econômica. “Muitas vezes quem começa a contribuir financeiramente depois de algum tempo desiste. Não taxamos um valor fixo, o que conta é a doação. Dependemos muito dos clubes de serviço, dos eventos e doações. Não precisa de muito sacrifício. Quem é cabelereiro pode contribuir com uma repaginada no visual dos alunos, outro pode doar alimentos, outro ajuda com produtos de limpeza, material de informática, instrumentos musicais”, explica Nilce Canavesi.

ATENDIMENTO

A diretora reconhece que apesar de espaçosa, a casa alaranjada, localizada na quadra 24 da Avenida Castelo Branco, ainda não é a ideal para a acessibilidade dos portadores de deficiência visual. Ao todo, o Lar Escola atende 66 alunos de Bauru e região, entre 17 e 95 anos. Grande parte das pessoas procura a instituição por iniciativa própria ou por encaminhamento realizado pela Sebes. Após a triagem, os escolhidos são encaminhados para as atividades como braile, as oficinas que ensinam o uso da bengala especial, o coral, o teatro ou as demais atividades desenvolvidas pela escola.

O último censo nacional feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2012 com base no ano de 2010, aponta que 45,6 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, o que representa 23,9% da população do país. Desse total, mais 506 mil informaram a perda total da visão, enquanto 37,5 milhões de pessoas responderam que possuem algum tipo de deficiência visual menos severa.

As responsáveis pelo Lar Escola afirmam que não tem acesso a um censo mais específico sobre as pessoas portadoras de necessidades especiais. “Não temos um censo para saber quantos deficientes visuais vivem na cidade. É difícil fazer um planejamento de vagas porque no outro ano a fila de espera fica muito maior do que nós tínhamos planejado. Seria como dar uma festa sem saber o número de convidados. Nós temos que agradecer as parcerias com o poder público, mas as políticas mais eficazes, quando existentes, acabam contemplando apenas os deficientes físicos”, opina a diretora.

Festa no final da tarde anima os alunos do Lar Escola. (Foto: Matheus Paiva)

Amor, superação e festa

Em uma das salas do Lar, o professor de informática Jorge Lopes, 49 anos, auxilia três alunos no uso do computador. Deficiente visual desde os 6 anos de idade, hoje é casado e tem “relativa autonomia”, como ele mesmo exemplifica. Ele anda pelo centro da cidade, utiliza o transporte público, frequenta lojas e paga as suas próprias contas. Devido ao trânsito caótico, precisa de vez em quando de ajuda de desconhecidos, no entanto, consegue se virar sozinho na maior parte do tempo.

Jorge entende essa independência como uma forma de superação pessoal, conquistada através dos cursos da instituição e pela experiência em uma cidade sem o mínimo de acessibilidade para os deficientes visuais. “Fiz o curso ainda criança e só fui utilizá-lo com mais de 30 anos. Meus pais me ajudavam muito e eu me acomodei. Era um misto de medo e de vergonha. Se você está na rua com uma bengala, isso acaba chamando a atenção das pessoas. Esta exposição me incomodava profundamente. Eu agradeço a Deus por me despertar sobre a minha autonomia, dez anos antes do meu pai falecer. Caso contrário, hoje seria impossível morar apenas com a minha esposa, ter a rotina que eu tenho sozinho”, ressalta.

Tiago Esquerdo, 25 anos, é músico, professor e atleta. Acabou perdendo a visão depois de um acidente aos 12 anos. (Foto: Matheus Paiva)

Tiago de Souza Esquerdo, 26 anos, é o professor de percussão do Lar Escola. Perdeu a visão aos 12 anos quando levou uma pancada na cabeça. Além da música, Tiago começou a praticar atletismo. “Faço parte de uma ONG e quero avançar até disputar uma paralimpíada. Sei que eu tenho que melhorar muito ainda, mas estou fazendo a minha parte, tenho o apoio de bons profissionais, e acho que com a benção de Deus, eu chego lá”. Neste dia, como o professor titular se ausentou, Tiago ficou incumbido de conduzir os ensaios.

Chamada de vó pelos alunos, Inah Arruda Ferreira é a aluna mais velha do Lar Escola Santa Luzia. (Foto: Matheus Paiva)

Em seguida, as atividades foram interrompidas por um evento especial. Uma festa para os aniversariantes do mês. Todos se sentaram à mesa e ao final dela estava a “Vó” Inah. Esse apelido carinhoso não é por menos. Inah Arruda Ferreira, 95 anos, é a aluna mais velha e também a mais querida. O seu jeito doce de falar contrasta com a sua história de vida complicada. Perdeu grande parte da visão por uma degeneração da retina e passou a infância em um orfanato. “Sou muito grata pela vida e do que construí. Formei uma família, tenho filhos, netos e bisnetos. Eles seguiram a vida deles e sinto que a minha última etapa é aqui. Sempre estou no meio de todas as brincadeiras, passeios e atividades. A minha vidinha sempre foi assim, sempre alegre e disposta. Eu brinco a vida inteira, digo que sou uma pessoa felicíssima”.


Edição: Erica Franzon (texto) e Tiago de Moraes (arte)

Reportagem originalmente desenvolvida para as disciplinas “Laboratório de Jornalismo Impresso II” e “Fotojornalismo” do curso de Jornalismo da Universidade do Sagrado Coração. Bauru, 2016.

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