Feliz aniversário

A data é de comemoração. Comemorar a “vida que é bonita e é bonita”. Comemorar a nova idade em flor.

Ela nasceu no dia vinte e um de abril, porém no registro de nascimento consta vinte. O dia vinte só reconhecia para exigências legais. Sempre se viu como uma autêntica taurina e não ariana, talvez pela teimosia e pela força que sempre a caracterizaram. O vinte e um de abril, historicamente tinha maior significação — liberdade, algo que sempre prezou e desejou, Libertas quae sera tamem. As certidões de nascimento sempre reservaram surpresas. Ao ingressarem na escola, as datas não conferiam com os aniversários e os nomes compostos tornavam-se um só ou vice versa. Fruto da desatenção do seu pai com as formalidades. Aniversário quando criança, nunca comemorou, tampouco seus irmãos. Parabéns a você em sua homenagem só era cantado na escola. “Crianças não precisavam mais do que uma mesa farta e uma boa escola”, dizia o pai. Isso não foi suficiente para que não gostasse do dia do aniversário. Sempre adorou festas apesar de não tê-las. Sabia que iria comemorar um dia todo seu. Assim via o dia do aniversário, seu dia. Um dia em sua homenagem. Hoje, o sentido não é diferente, apesar do tempo ter passado. Nunca abriu mão de se presentear com uma festa para reunir os filhos e os amigos mais próximos. A alegria e o sorriso largo sempre foram sua marca, não porque a vida foi um mar de rosas. Também não foram só espinhos. Nem nos momentos mais difíceis deixou de estampar um sorriso. Sempre acreditou na felicidade. Acredita que a felicidade se espalha, contagia. Postar-se diante da vida com leveza e alegria é fundamental. É preciso ter brilho no olhar e alma transparente para transbordar bons sentimentos. O tempo passou mais rápido do que imaginou. Acredita cada dia mais neste jeito de ser. Neste jeito de inundar os espaços de felicidade não apenas para si, mas também para os outros. Quando era adolescente tinha o sonho de chegar aos dezoito. Acreditava que a partir desta idade seria dona do seu nariz. Viu que as coisas não eram bem assim. Autonomia se conquista com atitudes, com maturidade. Hoje, fazendo sessenta anos não sente o peso da idade, nem fisicamente, ainda que as marcas sejam evidentes. Insiste no salto alto e nos cabelos coloridos. Não se vê ingressando na melhor idade. Não é negação. A melhor idade é aquela vivida com intensidade. Como intensidade sempre foi o seu forte, melhor idade foram todas pelas quais passou, as quais viveu sem medo de rotulagens. Sem medo de ser feliz. A risada alta, o falar com os olhos, a expressão com os gestos, as lágrimas que afloram com facilidade sem escolher hora, local ou para quem, demonstram que sempre foi intensa. Os sentimentos sempre transbordaram aos borbotões com verdade, sinceridade e intensidade. A data é de comemoração. Comemorar a “vida que é bonita e é bonita”. Comemorar a nova idade em flor. Comemorar os amigos, os filhos, as netas, os aprendizados. Comemorar a intensa alegria de viver. Feliz aniversário!

Esse texto foi publicado originalmente no Diário de Santa Maria na coluna Opinião.