Meu limão, meu limoeiro

A felicidade é simples. A felicidade pode ser um limoeiro carregado de limões.

A família não era abastada, mas havia um certo conforto. O conforto era o que cabia no conceito de uma imigrante que passou dificuldades e privações para ascender. Compreensível hoje, a preocupação maiúscula com a mesa farta e a boa educação. Roupas da moda, nem pensar!! Roupas e calçados novos apenas para atender necessidades. A aparente avareza não se verificava quando assunto era ajudar o próximo, em especial, ajudar a quem precisa. Diariamente eram caixas e caixas de frutas e verduras maduras demais ou com pequenos machucados para duas instituições da cidade que cuidavam de crianças e velhos. Crianças por terem que crescer saudáveis e alegres. Velhos porque merecem um final de vida digno. Alegria e a dignidade podem ser atingidas com mesa farta. Cresci ouvindo meu pai dizer “se nas ruas da cidade fossem plantadas árvores frutíferas não haveria fome”. Quando colho os limões de meu único limoeiro, lembro das suas filosofias. Na época, a maioria delas para mim era coisa de um espanhol ranzinza. Hoje representam ensinamentos, sabedoria. Meu pé de limão é de uma fertilidade ímpar. Nos presenteia fartamente o ano inteiro. Impossível dar conta de tanta fartura. Aprendemos com exemplos e eles vem de casa — compartir (compartilhar em espanhol) aprendi a praticar desde cedo. O desperdício era tão combatido que comida não ia fora, muito menos a do prato. A quantidade tinha que ser servida racionalmente. Não era aceitável “comer com os olhos”, expressão que minha mãe usada quando a quantidade era definida pela gula. É muito difícil para mim ainda hoje, ver com naturalidade o deixar comida no prato. Aprendi também que isso é um ultraje diante de tanta fome existente no mundo. Estes ensinamentos são tão antigos quanto eu, mas tão necessários que passei aos meus filhos, agora às netas e, sempre que posso, aos meus alunos. Quanta sustentabilidade aprendi, em uma época em que a palavra não corria de boca em boca. Talvez com isso se explique a paixão que as questões ambientais me provocam. Sustentabilidade, respeito ao próximo, amor a natureza, consumo consciente foram conceitos introduzidos nos princípios que recebi. Difícil imaginar em uma época em que o Planeta está cada vez mais degradado que a separação de resíduos seja motivo de resistência, de dificuldade. Coisa de “quem não tem o que fazer” ou “só quer incomodar os outros”. É preciso desacomodar a indiferença! Hoje quando colho os limões do meu limoeiro e os distribuo em frente à minha casa a quem deseje leva-los, relembro que aprendi as técnicas de gestão na academia, mas a verdade que pratico e ensino são frutos dos valores que recebi e que aprendi em casa. É por isso que o simples ato de colher limões e compartir é razão de plena felicidade. A felicidade é simples. A felicidade está nas pequenas coisas. A felicidade pode ser um limoeiro carregado de limões.

Esse texto foi publicado originalmente no Diário de Santa Maria na coluna Opinião.

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