Os desafios e poréns da gestão Leco

Carlos Augusto Barros e Silva, o Leco (foto), tem um imenso desafio pela frente. Empossado como presidente interino do São Paulo e favorito para as eleições convocadas para o próximo dia 27, o dirigente pode fazer com que o Tricolor se recupere e volte a ser soberano dentro e fora do campo; ou então afundar ainda mais o clube, política e economicamente.

Seu primeiro desafio consiste em investigar a fundo tudo o que aconteceu na gestão de Carlos Miguel Aidar. É preciso abrir todos os contratos feitos, trazer à tona todas as provas contra e a favor, expulsar do clube quem deve ser expulso e indiciar criminalmente quem deve ser indiciado. Tudo isso com criteriosa e isenta análise do Conselho Deliberativo, órgão máximo do clube. Mas não pode parar por aí. É necessário também investigar o que aconteceu nos mandatos de todos os antecessores de Aidar, desde a fundação. Talvez coisas erradas feitas há muito tempo nem tenham como ser julgadas, mas só a intenção de procurar as falcatruas de todas as outras gestões já faz com que o clube melhore a sua imagem, o que, principalmente com estes últimos acontecimentos, ficou comprometida. Somente desta forma, corrigindo os erros do passado, que o Tricolor pode pensar em voltar a ser Soberano.

Com os problemas de corrupção equacionados, é preciso pensar em como resolver as adversidades financeiras do time. Com uma dívida de cerca de 270 milhões de reais, o primeiro passo é acatar a proposta do empresário Abílio Diniz, que se ofereceu para pagar uma importante empresa de auditoria, a fim de desvendar qual é a real situação do clube. Com os resultados em mãos, gastos desnecessários precisam ser cortados e o time terá que passar por um período de vacas magras, apostando nos garotos da base, fazendo poucas contratações, sem adiantar nenhum valor a receber e sem salários exorbitantes. Além disso, precisa renegociar as suas dívidas e pagá-las em dia. Apesar de nenhum são-paulino querer ver sua equipe fora da disputa de títulos, o que deve acontecer com esta política, este período será extremamente necessário para que o futuro da instituição possa ser melhor, pois com o problema financeiro resolvido, ficará mais fácil reerguer a agremiação.

Por fim — e talvez paralelo às outras coisas -, Leco deve, na minha visão, implantar um modelo de gestão profissional no clube, com todos os departamentos sendo ocupados por pessoas com real conhecimento nestas áreas. Fazendo, assim, o clube ter uma estrutura de empresa, mas é claro que com uma diferença: não pode dar lucro para ninguém. Talvez a proposta de Alexandre Bourgeois seja a melhor ser seguida, mas é preciso analisar com calma todos os modelos possivelmente apresentados. Alexandre foi CEO na gestão Aidar por alguns meses, teve seu modelo de profissionalização rejeitado pelo ex-presidente e acabou sendo demitido por ele exatamente por conta de uma suposta reunião com Leco. Portanto, apesar de ter sido CEO do malfadado dirigente, foi chutado de sua administração, é próximo do atual presidente, e havia sido colocado neste cargo ao ser indicado por Abílio Diniz, o que dá credibilidade a Bourgeois. Enfim, qualquer que seja o modelo escolhido, o ex-CEO deveria voltar ao cargo e começar a ajudar neste processo, que é duro especialmente por conta da obsessão pelo poder dos cartolas.

O leitor mais realista e inteirado sobre a realidade política do clube deve estar pensando que sou louco de acreditar que Leco — se vencer as eleições em 27/10 — vai implantar tudo que foi dito neste texto. Então, eu não acredito, ou, para dizer melhor, acredito pouco. Porque o São Paulo é um clube comandado por poucas pessoas, muitas de pensamento conservador, avesso à mudanças. A maioria dos conselheiros é composta por vitalícios, o que dificulta muito as coisas. O fato é que o Tricolor não tem democracia. Sócio não vota diretamente e elege poucos conselheiros, e o sócio-torcedor não tem direito de escolher ninguém. Além disso, também temo que seja feito um acordo para acobertar tudo o que aconteceu na gestão passada, com as coisas sendo resolvidas com uma reunião de amigos que se acham donos do clube. A expectativa é que a renúncia do Aidar faça com que os velhos cardeais tricolores queiram uma mudança dentro do clube, e que aqueles mais novos eleitos pelo voto façam pressão para que a instituição se mexa, apure quem tem que apurar e seja pioneira na completa profissionalização de um clube no futebol brasileiro.

O São Paulo é historicamente conhecido como o “clube da moeda que cai em pé”. E tomara que isso aconteça nesta reestruturação pós-Aidar, ou seja, que o improvável ocorra e tudo, ou grande parte, das coisas que falei neste texto sejam feitas. Como o clube não oferece abertura política para quem, como eu, não é sócio, há pouco a ser feito, restando a torcida por tempos melhores e a tentativa de engajar são-paulinos próximos a, assim como eu, reivindicar por mudanças. O caminho nos próximos anos será difícil e apoio para o time não pode faltar, independente de quem esteja no comando do clube.