Torcedor organizado não é bandido

Antes de começar a tratar de qualquer assunto relacionado ao futebol, vamos todos aceitar que a violência é um problema da nossa sociedade. Assédios vitimizam mulheres todos os dias graças ao machismo que sempre esteve presente na nossa vivência, assaltos acontecem em todas as partes do nosso país e o despreparo da PM não é exatamente uma novidade. Todas estas são questões que envolvem muito mais do que o contexto de uma partida de futebol — envolvem a segurança pública de uma cidade, um estado e um país.

Falando em contexto, voltamos ao da noite da quarta passada, marcada pela nossa derrota por 2x0 para o Atlético Nacional, no Morumbi, pelas semifinais da Libertadores. Vários ocorridos ao redor do estádio, antes e, principalmente, depois do jogo, resultaram em cenas violentas e relatos horríveis por parte de torcedores que se preocupavam com os tumultos. A consequência, além da indignação de quem viu, foi uma nota oficial publicada pela diretoria do clube na última sexta-feira, anunciando, entre outras coisas, o “rompimento” com a torcida organizada — a.k.a. Independente — , principal culpada por todos pelo lamentável episódio.

Imagino que se você já foi a um show de música ou a um bloco de carnaval de uma cidade grande, estando sujeito a uma imensa aglomeração de pessoas, você se preocupou em ter seu celular roubado. Situações como estas propiciam, facilmente, esses tipos de assaltos. De novo: é um problema que demanda uma solução mais complexa do que se imagina. É bom que fique retratado, também, o fato de ter sido um caso isolado: não é todo dia que se perde do jeito que perdemos, no Morumbi, uma semifinal de Libertadores (porra, Maicon!). Não podemos adotar isso como comportamento padrão.

Ademais, queria dizer que não tenho nenhum grande apreço pela Independente. Condeno a grande maioria de suas atitudes na grande maioria das vezes, desde vaiar jogador até participar de brigas, muitas vezes, fatais. Não existe, aqui, um lado bom e um lado mau.

Uma das atitudes anunciadas pelo São Paulo foi o corte de ingressos fornecidos à torcida em jogos dentro e fora de casa. A decisão, que pode parecer só um corte de privilégios, pode levar a medidas mais drásticas da diretoria, que não afetariam só o “bandido”; afetariam aquele que vive em razão da paixão pelo clube, que planeja toda a sua rotina em função de ir ao Morumbi uma vez por semana e que não teria condições de ver um jogo de Libertadores, por exemplo. E eu te garanto que estes sofrem por causa de uma minoria. Existem estudos sociológicos (o mais reconhecido é de um pesquisador da Unicamp, Felipe Lopes) que apontam que a porcentagem de integrantes de torcidas brasileiras que já cometeram algum delito na vida não é superior a 7% em nenhum lugar do Brasil. Olha só, que surpresa: torcida organizada não é facção criminosa!

E não existe isso de “a torcida então precisa identificar quem são os bandidos, precisa bani-los, precisa levar esses nomes à polícia e ao clube”. A torcida, a polícia e o clube sabe quem são eles. São poucos e são sempre os mesmos. A diferença é que a torcida não pode impedir que a pessoa vá ao estádio e nem fazer com que ela pague por seus crimes — o clube e a polícia, sim. As torcidas sabem que os bandidos que nelas existem acabam com suas reputações e, por isso, seria até burrice não combatê-los. Mas, como você imagina, muito mais fácil do que garimpar esses indivíduos, para as autoridades, é ignorá-los e não punir ninguém. Ou, como tem acontecido, banir todo mundo. Como se torcida única devolvesse a paz ao futebol. Como se acabar com organizadas resultasse no fim da violência na sociedade.

Gostando ou não, é a Independente que estava lá no CT lotando treino quando a diretoria resolveu que seria uma boa substituir o Osório pelo Doriva. É a Independente que vai aos jogos fora de casa. É a Independente que possibilita a festa na chegada do ônibus tricolor ao Morumbi. Longe de querer mensurar o amor de qualquer são-paulino, mas, se temos um jogo contra o São Bento, na Arena Barueri, em uma noite fria e chuvosa de sábado, os caras estão lá. Não são eles os nossos inimigos. Não são eles que queremos tirar do estádio.

Pulando o muro da Barra Funda, temos um exemplo de resistência bem próximo e real. A Mancha Verde, maior torcida organizada do Palmeiras, enfrenta dificuldades ao lidar com um presidente elitista que “comanda” uma arena moderna multiuso.

Há algumas rodadas, no jogo Coritiba x Palmeiras, em Curitiba, o rival ganhava por 2x1 quando a torcida acendeu sinalizadores, já perto dos acréscimos do 2º tempo. A partida foi paralisada e, graças ao tempo a mais dado pelo árbitro em função da paralisação, o Coxa empatou o jogo. A revolta foi imediata: “graças à burrice dos torcedores, o Palmeiras levou o empate.”

A culpa cai sobre a festa que o palmeirense fazia por ter ido ver seu time jogar fora de seu estado e estar vencendo os donos da casa. Acender um sinalizador — veja bem, não é um rojão,como o que matou o garoto boliviano em 2013— é um voto de protesto contra a incompetência das autoridades em punir os verdadeiros culpados. É uma resistência contra uma lei absurda que só diminui a beleza do espetáculo das arquibancadas. “Ah, mas custava ter esperado 5 minutinhos pro jogo acabar antes de acender?” Eu duvido que usar o sinalizador após o término da partida traria os resultados que a torcida pretendia. As consequências não foram as que o torcedor queria, mas certamente eles não se arrependem do que fizeram.

Só para ainda mencionar o outro rival, tem o caso da Gaviões da Fiel. A torcida organizada corintiana, famosa por não parar de cantar um minuto sequer em Itaquera, tem ido a sedes do governo estadual protestar contra o esquema de merendas que expôs vários políticos do PSDB; tem adotado o slogan “devolve o futebol pro povão” contra a elitização do esporte, já que também tem como sua casa uma dessas arenas modernas; tem levado faixas ao estádio com frases contra a CBF e contra a Globo; tem tentado acabar com o grito “bicha!” que, infelizmente, se popularizou tão rápido pelo país. A Gaviões tem adotado comportamentos que deveriam ser comuns a todo torcedor “comum”.

Não é possível defender qualquer membro da Independente que tenha participado de qualquer ação violenta na última quarta, assim como não é possível defender qualquer membro de TO que tenha se envolvido em algum dos tantos confrontos violentos dos últimos anos. No entanto, tenho a impressão de que, quanto mais protestos existirem por parte dessas torcidas e quanto mais incômodo com a situação atual elas demonstrarem, mais elas serão perseguidas e criminalizadas. Afinal, ver a grande mídia ouvindo o lado mais desfavorecido não tem feito parte da nossa realidade.

PS.: Vejam o documentário “Adeus, Geral”. É sensacional e exatamente sobre isso.