Autoritarismo

Eu sou seu pai e você não vai ser artista porra nenhuma. Larga essa guitarra. Tira a bunda do sofá. Vai ser lutador de karatê, engenheiro, vai pilotar. Aqui nessa casa mando eu. Quando eu falo, você abaixa a cabeça e obedece. Eu que pago seu papel higiênico, vê se não esquece.

Disse o pai ao filho que sonhava em ser músico.

Eu sou a autoridade aqui, não tá vendo a farda, não? Só acata, ladrão. “Mas eu não fiz nada, senhor.” Cala a boca, caralho. Acha que o Mike veio brincar em serviço? Aqui é especialista em dar sumiço ni preto folgado, pé rapado que quer levar uma com o soldado.

Disse o policial ao menor abordado porque fumava um baseado com dois amigos.

Eu sou seu chefe. Não tô ‘pedindo’ pra você ligar pro fornecedor, eu tô m-a-n-d-a-n-do, cacete. Não entendo a dificuldade de fazer exatamente o que eu tô falando. Será que você não consegue fazer um único serviço direito e bem-feito? Você não tem jeito; é um muleque. Não vejo a hora de te mandar embora. Agora, some da minha frente, seu demente.

Disse o chefe ao subordinado que se atrasou com um orçamento.
Eu sou o dono dessa porcaria dessa casa, dessa cozinha e dessas panela. Vou falar a real: que comida horrível; toda sem sal. Você não consegue mais fazer uma mísera lasanha? Eu fico lá me matando e você aqui o dia inteiro na frente dessa merda de televisão. Quando eu chego não pode ter uma janta decente, não? É pedir demais? Olha, você não presta pra nada mesmo. Assim não dá mais.

Disse o marido à esposa que, naquele dia, estava com uma forte enxaqueca.

Pra uns, inimigo. Pra outros, um bom amigo; vai dizer que ainda não tinha me percebido em todas relações ao redor? Que dó. Achou que eu só existia em ditadura? Que eu era distante o bastante pra não morar na sua casa? Na sua rua? No seu trabalho e escola? A toda hora querendo sua alma e sua vida?

Disse o autoritarismo, sem nenhum cinismo, a mim e a você.

É preciso aprender a resistir (…) que é pra gente suportar existir.

Autoritário, agora a era é outra. Não adianta mais só mudar o cabelo e a roupa; persistir no imperativo.
Cê vai cair, ‘meu velho amigo’.

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