Crianças

Quem diz que crianças não sofrem e que elas vivem num maravilhoso e mágico mundo, certamente tem memória curta ou efetivamente não prestou a devida atenção nelas. O físico Dr. Gabor Maté afirma que pode haver duas tragédias na infância:

- Quando acontece o que não devia acontecer;
- Quando não acontece o que devia acontecer.

Se uma criança é abusada, abandonada ou traumatizada, acontece o que não devia acontecer.

Às crianças é esperada uma criação livre de estresse, sintonizada e sem distração. Toda criança precisa disso para uma formação humana e digna, mas poucas recebem, de fato. Portanto, algumas não foram abusadas, nem abandonadas, nem traumatizadas; mas lhes faltou pais dispostos, acessíveis e sensíveis. É quando não acontece o que devia acontecer.

Assassinos, terroristas e estupradores, ou seja, responsáveis por crimes hediondos costumeiramente têm em suas biografias um passado de abuso, de abandono e de traumas. Para essas pessoas, a primeira jornada da vida — a infância — já foi construída em cima de violência, portanto, agir com ainda mais violência seria a resposta natural (porém, não desejada socialmente) dessas vítimas. Essa é a violência comportamental.

Corruptos, estelionatários, racistas, machistas, chantagistas ou seja, pessoas sem a menor sensibilidade social podem muito bem não terem sido abusados, nem abandonados ou traumatizados quando crianças, mas certamente se encaixam no segundo argumento: quando não aconteceu o que deveria ter acontecido. Quando pai e mãe foram negligentes ou mesmo indispostos a dar uma criação respeitosa. Quando pai e mãe não tiveram a intenção de dedicar parte do seu tempo e da sua energia para ensinar o amor, a empatia — habilidade de se colocar na pele do outro — e a sustentabilidade. Quando pai e mãe, por algum motivo, não tiveram uma presença estimulante na vida de seus filhos. Essa é a violência estrutural.

A violência comportamental é muito clara à sociedade. Ela é explícita e naturalmente agressiva. Crianças que foram estupradas, aliciadas, abandonadas e/ou espancadas, uma vez crescidas, provavelmente serão muito contundentes em sua resposta. Seus dentes serão visíveis.

O problema maior é quando lidamos com a nossa dramática estrutura social: desigualdade, miséria, guerras, escassez de recursos naturais, as perversas leis competitivas que regem a sociedade. Existe uma dificuldade humanitária muito grande em extinguir, ou mesmo inibir a violência estrutural. É ‘mais fácil’ um Estado reduzir índices de estupro, do que de pobreza. O estupro é uma violência comportamental, a pobreza é uma violência estrutural.

Os traumas gerados por um estupro; ato imediatista e devastador, psicologicamente são muito diferentes dos traumas da pobreza contínua e prolongada na infância. Os dois traumas — se somados — podem ser definitivos para uma pessoa se tornar uma concentração de ódio que explodirá em algum momento.

Se queremos um século XXI diferente e menos hostil às nossas crianças, certamente precisamos começar a pensar em como evitamos as duas tragédias que podem destruir a infância:

- Quando acontece o que não devia acontecer;
- Quando não acontece o que devia acontecer.

Não é exatamente sinal de avanço nos tornarmos uma sociedade livre de estupradores, mas loteada por corruptos. Não adianta termos uma sociedade sem assaltos e assaltantes, se ainda tivermos em nossas ruas casos de racismo, de machismo, de homofobia e de transfobia. Precisamos de dignidade de pacote completo.

Se queremos crianças crescendo em equilíbrio físico, mental e espiritual, precisamos ir além de um baita passeio no parque nesse Dia das Crianças. Precisamos de mais do que uma Galinha Pintadinha de 1 metro de altura de presente. Precisamos de mais do que sorvete de limão deixando-os todos melecados em plena segunda-feira.

Se sonhamos ver no futuro uma geração que reverta nosso atraso nas questões do amor, do respeito e da paz, então passemos agora a ajoelhar pra levar uma conversa olho no olhos com nossos filhos. Que comecemos ensiná-los a escolher por conta própria; e colherem as consequências dessas escolhas. Sejamos para os nossos filhos uma rocha coberta de atenção e de respostas sinceras aos porquês.

No dia 13 de Outubro seu filho continuará precisando de um abraço apertado, de uma bronca respeitosa e de um beijo de boa noite.

Façamos da paternidade e da maternidade uma missão de paz de dar inveja à ONU.

Criarmos passarinhos livres de gaiola: que seja esse nosso grande plano.