Diálogo

  • Não liga não, é só uma doida dizendo aos outros que eu sou machista e racista.
  • Mas como assim? Por quê doida?
  • Doida, ué. Que fala coisas nadavê.
  • Que tipo de coisas nadavê?
  • Que eu sou machista.
  • Mas todo homem é machista; seja de maneira mais pesada ou com alguns resquícios do pai, do avô.
  • Eu não sou. Eu sou feminista.
  • Nenhum homem deveria se declarar feminista.
  • Ah é, E por quê? Eu sou, sim.
  • Porque vocês já tiveram todos os movimentos e projetos em toda a história da humanidade pra protagonizar. Será que pelo menos um movimento essencialmente sobre mulheres nós podemos liderar e dizer os rumos? Ou até nesse você querem mandar também?
  • Eu não quero mandar, só quero ajudar.
  • Então, se você quer ajudar, não se declare feminista, deixa isso pra gente. Diga que você apoia o feminismo, tente reparar nas suas atitudes machistas — que com certeza tem vez em quando -, chame a atenção dos seus amigos no bar quando eles constrangerem uma mulher e isso já nos basta. O resto deixa com a gente.
  • É, faz certo sentido.
  • Mas racista eu não sou. Eu só disse a ela que um negro pode namorar uma loira, sim. É direito dele.
  • Claro que é direito dele, assim como é direito dela, sendo negra, problematizar isso. Se sentir indignada com isso.
  • Por que ela deveria se indignar de um negro namorar ou casar com uma loira?
  • Olha, vou começar com uma pergunta, então. Você já se sentiu rejeitado pela sua cor?
  • Não
  • Você já sentiu, em algum momento, que a tv, as capas de revista e a sociedade, em geral, te colocam como uma fantasia a ser realizada, um carnaval a ser vivido, mas que poucos, no fim das contas, gostariam de andar de mãos dadas com você no shopping? Ou te apresentar no almoço da família?
  • Não.
  • Então, meu caro, você não entende nada sobre a solidão da mulher negra. Nada. Não percebe que muitos adorariam comer uma ‘mulata’ — como eles nos chamam -, mas que poucos adorariam nos mimar, nos beijar, nos assumir, nos dar uma aliança e querer viver uma vida ao nosso lado? Não percebe que nos tornam a ‘Globeleza’ pra vender turismo no carnaval e depois metem o pau quando queremos ir além de ser uma mulher negra cheia de purpurina servindo de vitrine pra punheta de gringo? Não percebe que nesse país foram sempre os homens brancos que decidiram o rumo dessa porra toda e que ser mulher e negra é, provavelmente, ser a última a ser perguntada se ‘está tudo bem?’ E, sim, meu caro, a mulher negra que se sente sozinha tem todo direito de se indignar quando percebe que nem os homens da própria raça dela querem a companhia dela. Que nem aqueles que deveriam ampará-la estão dando atenção ao sofrimento dela. Que aqueles que ela ama a adoram na cama, mas jamais no lar. Ela não tem nada de doida, mas tudo de sofrida. Põe essa cabeça pra pensar, assiste esse vídeo da Elisa Lucinda — depois a gente volta a se falar: https://www.youtube.com/watch?v=GD4PoGwg5Ew