Josué

Ao redor, tudo desmoronava. E o barquinho de Josué ainda navegava na banheira. Dobradura de papel que insistiu a semana inteira pra mãe fazer. Dona Lúcia, uma hora fez. Ela era mãe de Josué e mais três. Acordava antes das seis pra fazer faxina na casa de Dona Silvina. Deixava Camila, a mais velha das filhas cuidando dos menores.

Camila era boa de fazer feijão e sempre tinha ajuda de João, irmão de Josué. João queria um X-Box, mas a grana só dava pra um caminhãozinho de feira. Era quarta-feira e a polícia fazia operação anti-droga na quebrada. A mãe, preocupada, ligou pra Camila e gastou todo crédito pra convencer a filha a não ir pra escola aquele dia. ‘Hoje tá perigoso demais.’ Ela implorava, pedia.

Mas Camila foi teimosa, colocou a calça jeans rosa e foi pra aula. Ela queria mudar de vida. Queria ser a primeira da família a ter ensino superior; assim teria cacife pra ajudar Josué a ser doutor. Repara no que ele dizia: ‘Meu sonho é curar minha mãe um dia.’ Dona Lúcia tinha câncer nos seios e o SUS não tava mais dando conta.

Eram 8 da noite. Camila na escola. Jéssica, João e Josué, agora, estavam por conta própria. A mãe só chegava depois de começada a novela das 9. Camila, antes de sair, deixou claro que ir pra rua não podia, mas João era criança e — como toda criança — por vezes, desobedecia. Foi pro portão brincar com seu caminhão de feira. Enquanto isso, Josué navegava o barquinho na banheira.

Até que ouviu o irmão gritar:

‘Josué, Josué, quem chegar por último no Bar do Neto é mulher’. Assim o menino deixou o barco de papel e correu sem desconfiar da distância entre a terra e o céu.

João viu o irmão chegar, deixou o caminhãozinho no mesmo lugar e saiu correndo. Josué logo também disparou rumo o Bar do Neto. Apostar corrida com o irmão mais velho é rumo certo: perder sem chorar. Mas não é bem essa história que eu tô pra contar.

(…)

Três policiais viravam a esquina no mesmo momento em que João e Josué corriam descalços, sem nada no pé.

(…)

Quatro disparos.

Um deles virou bala perdida.

Outro, atravessou a perna de João, que caiu gritando no chão.

Os dois outros disparos acertaram Josué. Um no estômago e outro direto na fé. Tiro fatal no coração.

No chão, duas crianças sangrando, uma delas, morta. Ao redor, vizinhos se desesperando em escândalo. Um dos policiais começou a chorar. Os dois outros se viram acuados e rapidamente foram cercados e ameaçados.

Ao redor, tudo desmoronava. E o barquinho de Josué ainda navegava na banheira. Essa família ainda não sabe, mas vai levar uma vida inteira pra desistir de imaginar o menino falando no microfone; se formando doutor.

Quantos Josué teria curado se não tivesse sido assassinado com tiro de fuzil?

A essa pergunta, o Brasil ainda não sabe responder.

O que o Brasil sabe — e muito bem fazer — é rapidamente encontrar culpados pra um problema que só parece crescer.

Guerra às drogas: essa, ninguém vai vencer. Nela somos todos derrotados. João, Josué, eu e você.