Ponto de partida

Quem trabalha com localização de jogos ouve essa pergunta com frequência, afinal, é uma área que chama a atenção de quem gosta de jogos, e quem não quer trabalhar com o que gosta? No entanto, informações sobre como trabalhar com localização de jogos no Brasil são raras. O Thiago Araujo fez uma boa introdução sobre o lado do localizador e há alguns artigos em jornais com descrições sobre o processo, falando das agências, estúdios e de todo o pessoal envolvido. Também há boas discussões e referências no grupo Tradução Profissional: Games, no Facebook. Fora isso, a gente encontra ofertas de cursos e palestras nos congressos, mas toda hora há gente nova querendo saber essas mesmas informações: como entrar na localização de jogos?

Para não chover no molhado, coloco a minha experiência, que tem alguns pontos em comum com os artigos que mencionei acima, mas também particularidades que podem esclarecer as dúvidas específicas dos interessados na área.

Para começar: eu localizo sites, software e games (ou sítios, programas e jogos!). Só nessa introdução de dizer o que faço já aparecem duas particularidades da área: o que é localização e o que se traduz afinal. Localização é a tradução que vai um pouco além e adapta culturalmente o texto, a ponto de parecer ter sido criado no local onde será usado, incluindo características próprias do locale (ou região), como moeda, medidas e expressões. E como muitas vezes a gente lida com textos entremeados de código de programação, há coisas que precisamos “traduzir ao redor” e fazer alguns malabarismos para atingir esse objetivo.

Entrei na localização de jogos por duas razões principais: afinidade e aptidão. Sempre joguei, e numa época até trabalhei com venda e locação de jogos, o que me ajudou a conhecer a maioria dos consoles e plataformas. Comecei a traduzir profissionalmente quando ainda era professora e, por muito tempo, fui tradutora generalista, aceitando todos os tipos de trabalho que apareciam.

Aí, quando resolvi me especializar, a localização foi a escolha que parecia mais natural, pelo envolvimento que já tinha com a área. O que ajudou também foi começar a trabalhar como tradutora em uma empresa de informática, uma experiência que enriqueceu muito o meu currículo. Lá nessa empresa mesmo, aproveitava os horários de folga para pesquisar e ler tudo o que encontrava sobre tradução, e acabei descobrindo o ProZ. Isso foi lá nos idos de 2011, e foi no ProZ que consegui meu primeiro trabalho de localização de jogos, editando e testando um MMO de estratégia de guerra (normalmente a gente não pode revelar os nomes dos jogos em que trabalha porque assinamos acordos de confidencialidade).

Daí em diante, fui fazendo contatos, conhecendo gente e recebendo indicações, mas os próximos trabalhos que fechei também foram pelo ProZ, inclusive foi lá que conheci a agência com que mais trabalho até hoje. Com um pouco de cuidado, dá para achar bons clientes por lá, verificando o perfil e site da agência, além das notas no BlueBoard (os comentários no site Payment Practices podem ser úteis, embora eu não tenha usado ultimamente).

Aí comecei a participar de eventos específicos da área de desenvolvimento de jogos, como a Global Game Jam, Campus Party e outros. O contato com quem cria o material que a gente traduz ensina muito, assim como o diálogo com o pessoal da área. O que também estimula a não apenas localizar, mas a “educar” as partes envolvidas, um trabalho que faço no grupo de localização da IGDA, ajudando em iniciativas como a Locjam, o concurso mundial de localização de jogos. Um pouco antes de eu entrar no grupo, eles criaram o ótimo documento de referência Best Practices for Game Localization, que depois ajudei a localizar para o português junto com uma equipe. E esse documento foi a base do infográfico Is your game ready for localization?, que criei e localizei, também com a ajuda da comunidade.

Ainda que o Brasil esteja entre os países cujo mercado de jogos mais cresce, há um bom caminho a trilhar para profissionalizar a localização. Por isso também que há mais referências de fora do que locais. Por exemplo, sobre formas de se apresentar profissionalmente, como os sites da Sandrine Guyennet e do Loek van Kooten. Ou sobre o trabalho em si, como o blog da GLoc e a bibliografia sobre localização de jogos reunida pelo site Localiza como Puedas.

E nessa semana que passou, assisti a um bom webinar em inglês sobre localização de jogos (que está gravado aqui), apresentado por Anthony Teixeira, Igor Kozlov e Vova Zakharov. Recomendo bastante a quem procura dicas para entrar na área e para ter uma boa visão geral de como as coisas funcionam no setor. Além disso, há também o curso já famoso do Pablo Muñoz Sanchéz no Udemy, que até estava em oferta há poucos dias. O Pablo também tem o Traduversia e um ótimo blog sobre localização e outros temas.

E o que vocês acham de tentarmos equilibrar um pouco a balança e publicarmos mais informações sobre localização de jogos? Essa é a intenção por trás dessa publicação exclusiva aqui no Medium: Como entrei na localização de jogos. Vamos publicar relatos originais em português (ou traduções ao português) de vários localizadores, sobre suas experiências na área. Quer contar sua história? Fale comigo e vamos publicá-la para os leitores do Medium conhecerem melhor o que a gente faz. E até a próxima!