Ponto(s) de experiência

Fake it ‘til you make it. Aprendi isso assistindo RuPaul’s Drag Race (garanto que a Bianca Saburi leu isso e pensou “lá vem o Thiago Hilger citar RuPaul de novo, pqp”). É a versão curta de uma célebre frase que RuPaul disse: I treated myself as a star and eventually the world would catch up. Essa pequena autoajuda foi um dos meus pontos de partida na localização. Mas não teve nada de fake na minha história, só para constar.

Quando mudei de carreira e larguei a área de informática, em que trabalhei durante quase oito anos, me joguei na tradução. Foi uma das decisões mais conscientes e acertadas que já tomei. Eu já tinha traduzido alguma coisa alguns anos antes, e apesar de ter recebido uma merreca por isso, consegui ter uma ideia do que se tratava. Eu tinha gostado. Do trabalho, não da merreca. A mudança de carreira aconteceu oficialmente em 2014 (essa história eu contei aqui. Não ia fazer merchan, mas, ops, já fiz), e eu comecei a localizar jogos não muito depois disso. Era algo que eu sempre quis muito fazer, porque jogos e idiomas são parte da minha vida meio que desde sempre.

E as duas coisas sempre andaram juntas. Comecei a aprender inglês jogando The Legend of Zelda: A Link to the Past no meu Super Nintendo. E enquanto o inglês ia evoluindo na infância e adolescência, os jogos também, e eu fui me aventurando em novos textos dentro dos jogos: Super Mario RPG, Age of Empires 2 (que tinha uma seção enorme de história), etc. É muito raro eu passar um dia sem jogar. E é muito raro eu passar um dia sem ler/escrever/falar/ouvir algo em inglês.

E assim como os jogos e o inglês, desde sempre eu me vi na área de desenvolvimento de jogos. Era o que eu queria ser quando crescesse. A vida me levou por outros caminhos, mas eu finalmente fiz uma pós-graduação em Desenvolvimento de Jogos Digitais. Desenvolvi alguns jogos por conta própria, tudo gratuito, tudo sem fins lucrativos. Até localizei grande parte deles. E estudando e assimilando o mercado de desenvolvimento de jogos, vi que ele talvez nunca passasse de um hobby para mim, pois é um mercado em que é incrivelmente difícil de se manter. Muito mais do que a tradução (e olhe que tradução já é bem difícil).

Mas o amor por jogos e pela criação deles nunca morreu. E o jeito mais próximo de me envolver com a área de desenvolvimento e realizar ao menos essa parte do sonho veio com a localização de jogos. E, como eu disse, nada de fake. A tradução foi quem veio por último. O inglês e os jogos já estavam ali. O desenvolvimento e a experiência do outro lado também. Era só juntar tudo.

Para não dizer que eu não tinha experiência absolutamente nenhuma, digo que tinha localizado alguns dos meus próprios jogos. A localização não ficou uma maravilha, é claro, foram só alguns jogos pequenos num início de carreira. Melhor do que nada, mas meio insuficiente para sair por aí bradando para clientes potenciais que se é um localizador de mão cheia.

Um pouco de fake entra aí, no marketing. Eu comecei a oferecer o serviço de localização para agências de tradução. Não precisava dizer que era o melhor de todos, apenas oferecer. Afinal, eu já era tradutor, seria um trabalho relativamente parecido. Era só não ter medo de dizer “sim, se aparecer, eu faço”. A ideia do fake it ‘til you make it não é fingir que faz algo para ver se alguém compra. É vencer o medo de que ninguém compre algo que você quer muito fazer. O mesmo vale para eventually the world would catch up. Foi o que aconteceu comigo. Um belo dia uma agência me mandou um teste para a área de localização. Eu fiz e passei. E nem fui eu que corri atrás deles, foram eles que me encontraram no Proz.com, porque queriam alguém que não apenas localizasse, mas que entendesse de desenvolvimento também. Bendita pós-graduação!

E depois dessa agência surgiu outra, depois outra, depois mais outra… E agora a localização é basicamente o maior volume de trabalho que eu tenho. Então, RuPaul, obrigado pelo exemplo. The Legend of Zelda, obrigado pelo conteúdo. E Sheila Gomes, obrigado pelo incentivo na tradução e pelo espaço aqui.

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