Anista Internacional e Greenpeace:
Duas hashtags alcançam muita gente. Uma hashtag alcançaria muito mais

Entre as organizações ativistas que abraçaram o conceito de internet como “esfera pública” e que investem fortemente em estratégias visando reforçar o engajamento de cidadãos em causas e aumentar o alcance de suas ações ativistas, estão a Anistia Internacional e o Greenpeace. As duas têm agendas no Brasil, mantêm equipes atuando localmente e não raramente viralizam conteúdos na web, onde somam milhares de fãs e seguidores em suas páginas/perfis de redes sociais. Dificilmente as duas organizações falam sobre um mesmo assunto.

Referência de ativismo ambiental, o Greenpeace pode colocar na rua, no mar ou na internet uma campanha para boicotar marca de chocolate que usa óleo de palma vindo de florestas tropicais devastadas, mas prefere não se meter a falar sobre genocídio de jovens negros. Já a Anistia, com suas pautas de direitos humanos, estampa números desse genocídio em campanhas robustas, mas não gasta energia para mobilizar públicos contra a exploração ilegal de madeira na Amazônia. E assim as duas organizações coabitam o mundo dos engajados, sem dialogar diretamente na dinâmica dos likes do dia a dia, embora tenham o mesmo sonho dourado: a JUSTIÇA SOCIAL.

No fim de fevereiro, porém, uma hashtag quase uniu as organizações na web.

Diante da notícia da aprovação, pela Câmara dos Deputados, do projeto de Lei 2016–15, o mundo do ativismo progressista reagiu. A Anistia Internacional e o Greenpeace não demoraram a entrar no coro dos que pedem para que a presidenta Dilma vete o projeto de lei. Poderiam fazer um grande barulho juntos, mas não. As mensagens das hashtags usadas conflitam. Trazem posicionamentos diferentes para buscar o engajamento do público

Enquanto a Anistia lançou a hashtag “#NaoSouterrorista” numa campanha que convida as pessoas a enviar, via plataforma da organização, um e-mail à presidenta, o Greenpeace preferiu o “#SouTerrorista” para permear as ações que também contam com ferramentas web para participação cidadã. A comunicação das campanhas acontece no facebook, twitter e em outras plataformas.

As campanhas não se anulam, necessariamente.

Quem assina a petição da Anistia não será incoerente se assinar a do Greenpeace. O objetivo pretendido, no fim do dia, é o mesmo. Mas como se trata de comunicação na web, não só o entendimento do objetivo pelo público basta. Já se foi esse tempo. Na web social, a estratégia de comunicação pode e deve visar alcance, relevância e influência. As hashtags são recursos para busca porque elas funcionam como agregadoras de metadados, o que quer dizer que fornecem informação para que os sistemas de busca localizem e organizem informações. As hashtags ajudam a definir, entre outras coisas, o que é “mais relevante” dentro de um sistema. É essa a lógica que define o que é Trending Topics no Twitter. Quanto mais um dado for referenciado no sistema, mais relevância a informação que ele traz terá.
 
Pensar comunicação em rede, na web ou fora dela, não significa necessariamente mudar o tom ou descaracterizar uma estética e um posicionamento já construídos.

O Greenpeace é combativo, é afirmativo e busca provocar reflexões com ações, por vezes, polêmicas. É assim que atua e consegue seus resultados há décadas. Ao fazer as críticas ao projeto de lei que abre brechas para a criminalização de expressões democráticas, usa a expressão “#SouTerrorista”. Não há nada aí que destoa do script Greenpeace.

Mas fazer da hashtag uma marca identitária deve ser a prioridade?

Independentemente da resposta que vc tenha a essa pergunta, buscar as sonoridades possíveis na web deve fazer parte da estratégia de comunicação. Afinal, as causas são sempre maiores que as organizações, e por isso uma mensagem comum na rede - que seja o mais relevante possível para os sistemas informacionais e que não gere dispersão nem ruídos junto aos cidadãos- deveria ser um objetivo pretendido, não?

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