Foto: O Globo

Após 43 horas, deputados encerram discussão sobre processo de impeachment. Votação começa às 14h

Por Samira de Castro, em especial para os Comunicadores pela Democracia

A sessão plenária mais longa da história da Câmara dos Deputados terminou hoje (17), após quase 43 horas de discursos dos deputados federais — contra e a favor ao impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Encerrada a chamada fase de discussão da matéria, que durou 9 horas e 40 minutos no sábado, a autorização para o prosseguimento do processo de cassação do mandato da primeira mulher eleita para comandar o Brasil será votado ainda neste domingo, a partir das 14 horas.

Todo o processo começou na sexta-feira (15), com as inscrições por partidos. Nessas quase 43 horas, foram proferidos 389 discursos. Na etapa da discussão, iniciada no sábado, falaram 142 deputados — 66 favoráveis e 51 contrários, além de 25 líderes partidários.

Segundo a Agência Câmara, às 2h40 da manhã de hoje, não havia mais inscritos contra o impeachment e vários parlamentares favoráveis se abstiveram de falar para encerrar a sessão antes do previsto.

Maioria dos deputados cearenses diz não ao golpe

Durante a fase de discussão, parlamentares cearenses puderam se manifestar sobre o impedimento de Dilma. A presidenta é acusada de praticar crime de responsabilidade pelas chamadas pedaladas fiscais. A prática ocorre quando o governo atrasa repasses a bancos oficiais, obrigando essas instituições a usarem recursos próprios para pagar benefícios sociais. Pedaladas foram utilizadas por Fernando Henrique Cardoso e ainda são prática recorrente entre governadores e prefeitos.

Dos 22 deputados federais cearenses, 14 são contra o impeachment, por entenderem que não há crime de responsabilidade de Dilma Rousseff, e sim o uso político das pedaladas fiscais por aqueles que não venceram as eleições presidenciais e desejam o poder sem passar pelo voto do povo. Por outro lado, oito parlamentares são a favor do golpe, contrariando os 3.522.225 de eleitores cearenses que deram a vitória à Dilma no segundo turno das eleições de 2014. O Ceará, aliás, foi o segundo Estado com maior saldo de votos a favor de Dilma, perdendo apenas para a Bahia.

Odorico destaca democracia como legado secular

O deputado federal Odorico Monteiro (PROS), que falou por volta de 13 horas de ontem, enfatizou que Dilma é uma presidenta honesta e foi torturada pela ditadura militar (1964–1985). “As minhas primeiras palavras aqui dizem respeito à questão da democracia. Tive minha infância e adolescência vivendo na ditadura militar brasileira. Como estudante, lutei contra a ditadura. Tenho dois filhos que leram sobre a ditadura nos livros, e espero que, nas suas vidas, só conheçam golpe e ditadura pelos livros”, disse.

Para o parlamentar, é preciso ter “clareza que a democracia é um grande legado dos séculos 20 e 21”. “Somos um país jovem, de 516 anos, um país que teve toda sua formação histórica centrada numa colonização escravocrata, uma das mais perversas do Hemisfério Sul do planeta. Um país que se constituiu, na sua moral e na sua formação, dentro dos valores da casa grande e da senzala. É essa colonização escravocrata que produziu valores autoritários em toda a nossa história. Em 516 anos, só temos 30 anos de democracia”, disse Odorico Monteiro.

Luizianne conclama o povo a reagir ao golpe

A deputada Luizianne Lins (PT) afirmou que a oposição, “que nunca aceitou as mudanças sociais que viveu o Brasil, o avanço dos direitos civis e a conquista das liberdades democráticas, agora resolveu também não aceitar o resultado das eleições e busca, no momento de crise internacional, desestabilizar o Brasil”. “Essas forças conservadoras receberam reforço de setores dos meios de comunicação de massa e de uma parcela significativa do judiciário, daqueles que deveriam estar promovendo a justiça no país”, disse.

Para Luizianne Lins, a defesa da democracia está mobilizando milhões de corações e mentes em todo o Brasil, no que chama de trincheira histórica. “Vimos o povo reagindo contra o golpe, vimos diversas forças progressistas, defensores da democracia: artistas, intelectuais, a juventude, movimento sociais e populares, movimentos de trabalhadores urbanos e rurais, centrais sindicais, Trabalhadores Sem Terra e Sem Teto, movimentos de jovens e estudantes, mulheres que lutam pela liberdade, negros e negras que lutam contra o racismo, homossexuais que lutam contra o preconceito, combatentes das liberdades democráticas reagem de ponta a ponta desse país contagiando, de luta e de esperança, ruas, praças e avenidas num emocionante movimento contra essa tentativa de golpear a democracia em nosso país”.

A deputada questiona que Brasil teremos depois da votação do impeachment? “Só nós deputados poderemos responder. Podemos confirmar o golpe e voltar a ser o país da apartação social, da falta de oportunidade e da política econômica excludente, do preconceito, do desemprego, da desregulamentação dos direitos trabalhistas, da inércia no combate à corrupção, da entrega do patrimônio nacional”, pontuou. Felizmente, hoje, milhões de corações e mentes estão se pronunciando em defesa da democracia. A tentativa de impeachment é apenas o princípio de algo muito mais grave. Por isso, convocamos a todo o povo brasileiro a ocupar e resistir ao golpe. O Brasil vai reagir.