Foto: Evilazio Bezerra

Em caminhada no Centro, trabalhadores dizem não ao golpe

Por Déborah Lima, especial para os Comunicadores pela Democracia

Médicos, advogados, jornalistas, professores, servidores públicos, trabalhadores rurais, universitários e integrantes dos movimentos sociais ocuparam as ruas do Centro de Fortaleza, nesta sexta-feira (15). Com faixas e bandeiras, eles protestaram contra a tentativa do presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB), de destituir a presidente da República, Dilma Roussef, com o apoio do Congresso Nacional.

Foto: Evilazio Bezerra

Gritando palavras de ordem como “Não vai ter golpe” e “A verdade é dura, a Rede Globo Apoiou a Ditadura”, os manifestantes se concentraram na Praça José de Alencar, de onde seguiram, no final da tarde, em cortejo até a Praça Murilo Borges, passando pela Praça do Ferreira.

Durante o percurso, o Movimento Ceará contra o Golpe, formado por organizações como a CUT, CTB, PT, PCdoB, entre outras, distribuiu panfletos para transeuntes e empregados do comércio, que retribuíram com receptividade e apoio.

Foto: Evilazio Bezerra

Guerra civil

Carregando uma bandeira branca pintada com o nome da presidente Dilma em lilás, a médica, jornalista e professora Erotilde Honório fez questão de participar. Preocupada com o destino do país, ela tem participado da maioria dos atos de rua contra o impeachment e também militado intensamente nas redes sociais. Para ela, o pedido de abertura de impeachment, que será votado pela Câmara dos Deputados no próximo domingo (17), nada mais é que uma tentativa de golpe parlamentar contra a democracia e o povo brasileiro.

“Quero alertar aos trabalhadores: é contra você que este golpe está sendo dado! É contra você que a FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) põe na rua, com dinheiro internacional, pessoas inocentes, iludidas pela grande mídia, para dar um tiro no pé. Mas ainda dá tempo. Você pode vir à rua e barrar esse golpe. Sem democracia, esse país será emborcado na mais negra das guerras civis”, alerta Erotilde.

Massa de manobra

O jornalista Dawlton Moura também veio às ruas para alertar sobre as consequências de um eventual impeachment para a História do Brasil e de cada um dos brasileiros em particular. “Se esse golpe se consumar, daqui a pouco tempo será a História a nos julgar. O que fizemos, o que defendemos? Serão nossos filhos e netos a nos cobrar onde nós estávamos, de que lado estávamos? Então não deixemos isso acontecer. Vamos à luta, vamos às ruas, vamos à mobilização”, convoca Dawlton.

Foto: Evilazio Bezerra

Neste momento de grave ameaça à democracia, ele destaca o papel dos jornalistas e a responsabilidade social da profissão. “Nós temos um papel primordial. A nossa profissão nasce desse sacerdócio da informação, do direito à verdadeira comunicação social, do direito da população de ser informada e não a ser confundida, ludibriada, manipulada e utilizada como massa de manobra por setores de direita e pelo grande capital financeiro nacional e internacional, pelos setores que tentam, nesse momento, derrubar uma presidente democraticamente eleita”, afirmou.

Ocupação de terras

Diretora estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Maria de Jesus dos Santos avisa: a resposta do MST à tentativa de golpe será a ocupação dos grandes latifúndios. “A nossa forma de resposta é estar nas ruas, é ocupar terra! Esse é a forma do MST responder”, disse.

Jesus lembra que o dia 17 de abril, data do julgamento do impeachment, é o Dia Internacional da Luta Camponesa e o aniversário do Massacre de Eldorado dos Carajás. “Para nós, é mais um dia de luta contra a impunidade da violência que se dá contra nós trabalhadores no campo e das cidades também. A gente ficou pensando: porque colocaram (a votação do impeachment) no dia no dia 17? Será que não é mais uma jogada da direita, que sempre tratou as lutas sociais buscando estabelecer derrotas exemplares? E nesta ofensiva de dar o golpe, Eduardo Cunha escolheu este dia”.

Combate à corrupção

Para o advogado Marcelo Uchoa, a tentativa da oposição de legitimar o impeachment com um discurso de combate à corrupção não passa de retórica. “Não há preocupação nenhuma com a corrupção, esse é a realidade. Veja bem, a Lava Jato começa com a Petrobrás e termina no barquinho da casa do Lula. O Moro dizendo que em dezembro vai acabar com a operação Lava Jato. E os 200 nomes da lista da Odebrecht, como é que fica? Como é que pode dizer que é contra a corrupção se dos 38 votos pelo impeachment na comissão especial, 35 são de deputados que estão sofrendo indiciamento na Justiça?”, questiona.

Ele defende que se fosse contra a corrupção, o impeachment não se destinaria a depor uma presidente contra qual não pesar denúncia de crime de responsabilidade. “Tirar uma presidente que não está sendo acusada de nada, de cometer nenhum crime, que não está sendo envolvida em nenhum escândalo financeiro, e entregar o governo pro Michel Temer, do partido dos golpistas, e pra um Eduardo Cunha, esse sim, bandido conhecido internacionalmente? A corrupção é apenas o grande mote para que se consiga estabelecer um golpe institucional”, denuncia.

Luta de classes

Por trás do golpe, entende a jovem Sara Ortins, estão os mesmos grupos políticos derrotados nas eleições presidenciais de 2014. Integrante do Movimento Organizado de Trabalhadores Urbanos (MOTU), ela aponta ilegalidade no impeachment e a inocência de Dilma. “Não existe crime nenhum. Pedalada fiscal não é crime, elas aconteceram desde o governo FHC. A gente tem que desmascarar o que eles estão fazendo”.

Foto: Evilazio Bezerra

Também presente no cortejo do Movimento Ceará contra o Golpe, a médica Angela Uchoa acredita que o cenário político revelou explicitamente a luta de classes no Brasil e a resistência em aceitar que pobre tenha direitos assegurados. “É uma luta de classes, de pobre e de rico. O rico não se conforma de ver o estudante pobre na universidade, não quer ver o pobre ao lado dele na cadeira do avião. A dondoca não quer abrir mão das suas ‘escravinhas’. Ela quer tomar champanhe dia de sábado e domingo à noite sendo servida. E como eu moro no local das dondocas eu digo: gente vocês podem, mas têm de pagar! E as dondocas têm muita raiva disso. Então, é preciso que a gente vá para a rua, que a gente fale que não! Não vai ter golpe não!”

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