É saudável ter medo… do sucesso?

Crescer demais pode ser um redemoinho que nos engula.

Fato: vivemos (não por acaso) numa era de medo. Tememos pelo futuro, pelo presente e até pelo passado: que os respingos do que já fizemos nos atinja sem aviso. Cada um responde a esses medos de uma forma diferente: alguns, talvez por perfeccionismo, se preparam muito (às vezes sem conseguir passar da fase de preparação), outros se jogam para ver no que dá, há quem construa uma rede de proteção baseada na comunidade.

E um dos medos sobre o qual se comenta com frequência é o do fracasso. Na minha experiência, o que mais causa problemas aos principiantes e mesmo a veteranos na tradução e na interpretação é o nosso conhecimento incompleto, porque contido, do mercado. Creio que isso se deve principalmente aos seguintes fatos de nossas profissões:

  • são pouco conhecidas, até mesmo por quem as estuda ou pratica;
  • têm caráter acessório, nosso trabalho acontece “depois” do principal, e raramente está incluído como parte do processo de criação desde o início;
  • não têm parâmetros universalmente adotados na sua prática, a não ser em algumas poucas áreas;
  • os profissionais têm acesso (e uso) ainda parcial das tecnologias que poderiam ajudar a complementar esse conhecimento.

Esse conhecimento incompleto do mercado e das práticas leva a maioria a se concentrar no estudo teórico, mais que no prático, como uma forma de estabelecer autoridade no conhecimento detido. Só que isso pode afastar o tradutor ou intérprete da arena profissional. E ainda que existam iniciativas para tentar diminuir essa distância, o (ainda) pouco contato entre a academia e o mercado é insuficiente até para ajudar novos profissionais a escolher os caminhos mais seguros para atingir os seus objetivos. Além disso, segurança no mercado de trabalho é algo cada vez mais volátil, o que estimula mais gente a buscar alternativas. Por exemplo, ter mais de um emprego (para quem consegue), ou quem sabe virar autônomo, fazendo uma coisa só, ou mesmo várias. Muitos caminhos… ou mais oportunidades de se perder, quando não se sabe bem para onde ou como ir.

Estou onde quero estar? Para onde ir? É lá mesmo que quero chegar? (e onde é “lá”?)

Para tradutores e intérpretes, pensar em viver exclusivamente do seu ofício é quase sinônimo de ser profissional autônomo, seja por falta de empregos de carteira assinada ou de condições de exercer nosso trabalho da melhor forma possível e com a compensação devida como empregados. E na verdade isso pode ser algo muito positivo, do ponto de vista de se buscar autonomia no trabalho. Mas a falta de conhecimento de mercado leva muita gente a aceitar trabalhos em condições insustentáveis, ou mesmo a não planejar para uma situação muito boa, que deveria trazer alegria, mas que pode ameaçar a carreira a curto prazo: o sucesso inesperado. Como se preparar para situações em que você pode crescer, mas só se der conta do recado?

Imagine receber uma ótima oferta para a qual há exigências que você não tem como cumprir no momento, seja de volume de produção, uso de uma ferramenta que não tem ou algum tipo de registro, como empresa ou certificação. Pode ser bem frustrante ter que dizer não, mas pode ser o caso de se preparar para uma próxima oportunidade. Saber das exigências de alguns tipos de trabalho, especialmente se são aqueles que você almeja, é um dos exemplos de conhecimento de mercado que é preciso estar sempre buscando (e ter a consciência de que o trabalho será pautado por essas exigências e outras maiores dali em diante).

Apesar de, no nosso caso, o problema não ser uma questão de escala, como seria o caso de quem trabalha com produtos, podemos ter estratégias de escalabilidade nos negócios. Isso passa principalmente pela formação de alianças, parcerias, sociedades, montando ou participando de equipes que possam vir a ser o apoio no futuro.

Outra questão é atentar para o tipo de expectativa que se produz, para controlar que tipos de clientes podem ser atraídos pela sua oferta e quais a gente prefere não atender. Pode ser que você tenha clientes que mandam trabalho, mas também exigem mais do que você se dispõe a oferecer. Mas talvez você tenha um colega que seria uma opção perfeita para o caso. “Dar clientes de graça” pode parecer um passo temerário, mas se você tiver colegas confiáveis com quem possa contar, é um processo de mão dupla. Já enviei muito trabalho a colegas, e eles mandaram pra mim também. Claro que são relações que a gente forja com o tempo, de várias formas: participando de masterminds, barcamps, congressos, enfim, conhecendo as pessoas e suas habilidades, mas também a confiabilidade profissional de cada um.

E finalmente, eu sei que hoje em dia está difícil fazer isso (eu mesma estou com dificuldade), mas conseguir manter uma reserva é uma daquelas situações ideais na hora que o sucesso “atacar”: se você analisar a situação e perceber que um determinado investimento terá retorno, poderá tomar a melhor decisão. Claro que isso exige uma observação constante do negócio, pois decisões intempestivas que podem trazer impacto imediato também podem ter efeitos posteriores indesejáveis, como um aumento de impostos por mudança de categoria tributária ou necessidade de investimento em manutenção posterior de alguma ferramenta, por exemplo.

Já houve situações em que eu decidi dar um passo para trás porque sabia que que não daria conta se desse certo. Isso é algo bem pessoal e determinado também pelo nosso estilo de vida: uma questão de saber os próprios limites e de analisar a situação para escolher o que realmente nos sirva, levando em conta que mai$ nem sempre é sinônimo de vida melhor.

Quando subir pode levar a lugares diferentes do que a gente imagina (não subir também pode ser uma opção).
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