A transparência de pagamentos pode transformar o trabalho independente?

A publicação das tarifas de freelancers é um passo primordial para combater a desigualdade.

Texto de Sarah McKarry, publicado originalmente no site Freelancers Union, traduzido com a autorização da autora

Saber onde pisamos poderá repercutir em melhores práticas na nossa área (Foto de Nirzar Pangarkar do site Unsplash)

Todo mundo sabe que as tarifas cobradas por profissionais independentes (freelancers) pelos serviços que prestam são incrivelmente díspares.

Embora a diversidade de níveis de experiência em um certo campo possa justificar algumas destas disparidades, muitos profissionais independentes com rendimentos precários têm medo ou não se sentem capazes de negociar com possíveis clientes. Outros podem não ter ideia de quanto dinheiro a mais deveriam estar cobrando de acordo com as tarifas geralmente aceitas no seu setor. E esta desigualdade afeta de forma ainda mais crítica os profissionais independentes que são vulneráveis a outras formas de discriminação, como gênero, raça, orientação sexual, idade ou religião.

Muitos profissionais independentes sugerem que a transparência de ganhos é essencial para combater a discriminação de pagamentos e que isso terá um impacto significativo na capacidade dos profissionais mais marginalizados de exigir tratamento igualitário.

Os locais de trabalho tradicionais têm, no mínimo, proteções nominais contra a discriminação de salários, embora a desigualdade de salário continue muito disseminada, especialmente para mulheres negras. É verdade que profissionais independentes raramente são cobertos por estas leis, mas a luta pelo reconhecimento legal das questões que afetam estes profissionais está avançando.

Em Nova Iorque, os membros e apoiadores do Freelancers Union (o sindicato de profissionais independentes dos EUA) se organizaram e conseguiram fazer com que a lei de 2017 #FreelanceIsntFree (“trabalho independente não é gratuito”, em tradução livre) fosse aprovada, legalizando a proteção contra falta de pagamento e outros benefícios a profissionais independentes. No dia primeiro de janeiro de 2018, a Islândia tornou-se o primeiro país no mundo a ter em vigor uma legislação exigindo que as empresas demonstrem que pagam trabalhadores e trabalhadoras de forma justa; o novo padrão legal também proibirá a discriminação baseada em idade, raça, religião, orientação sexual e outros fatores.

Os defensores da transparência de pagamentos desenvolveram uma série de ferramentas inovadoras para apoiar profissionais independentes na negociação de melhores pagamentos. Em 2012, a escritora Manjula Martin criou uma conta do Twitter e um site, chamado Who Pays Writers (“Quem paga escritores”, em tradução livre), uma lista livre, anônima e alimentada pelos usuários, com informações sobre o quanto é pago aos escritores independentes por cada história publicada em várias meios (o site agora é mantido por um coletivo anônimo e financiado principalmente por doações anônimas).

O site Contently atualmente oferece um serviço gratuito semelhante. Alguns escritores, como a jornalista canadense e profissional independente Katie Jensen, compartilharam publicamente o seu rendimento anual como freelancers; Susie Cagle, que também publicou seu rendimento, conduziu uma pesquisa de rendimento de forma independente e anônima em 2016.

Segundo os apoiadores da causa, saber quanto os outros profissionais independentes estão ganhando em seus setores pode fortalecer a autonomia dos trabalhadores, que se sentirão mais seguros para exigir pagamentos melhores pelos seus serviços.

E isso é bom para todos nós.

* Um agradecimento especial às colegas Aline Ferreira, Ana Clara Ometto, Priscilla Oliveira e Tânia Leite pela ajuda na revisão!