Barcamps: metas para 2018 e muito além

Sheila Gomes
Feb 2, 2018 · 5 min read

Aqui em Curitiba os barcamps de tradutores e intérpretes acontecem desde 2014. Tempo suficiente para evoluir de uma ideia inspirada no global e trazida ao local, a um corpo feito por muitas outras ideias que foram se juntando à primeira, mas não só: também são as ações das pessoas, daqui e de fora, que participaram dos encontros desde então.

, mas foi transformada pela nossa necessidade de encontro e de busca de autonomia. E não só aqui, foi levada a outros lugares, por outras pessoas, inspiradas pela energia da comunidade e por . Mas também pelos princípios de colaboração, igualdade e autonomia.


Quando os barcamps começaram, eu não conhecia nenhum encontro do gênero por aqui, em que as pessoas se reunissem para discutir ideias e ações profissionais num ambiente em que todos tivessem voz e vez como o fio condutor. Um fio que também costurasse o grupo e unisse seus membros num entusiasmo comum.

No início a organização era assim: quem quisesse falar aos outros teria sua chance de apresentar ideias em forma de palestras, oficinas, mesas de discussão. Com o tempo, o grupo formou laços de amizade, e a cada encontro todos se sentiam mais à vontade naquela quase família, pegando junto, ajudando a organizar espontaneamente, divulgando, criando iniciativas próprias que surgiram a partir de ideias despertadas pelas conversas.

Quem tinha insegurança de se manifestar começou a se sentir mais segura. Quem achava que não tinha nada a dizer que os outros já não soubessem, descobriu que a sua experiência única podia iluminar o caminho de outros, mostrando coisas que seu ponto de vista esclarecia. Quem se sentia sozinho, sentiu-se apoiado. Quem não via espaço para crescer, de repente via tantos caminhos quanto as pessoas expressavam em suas experiências ou ideias.

Então, inspirados na experiência curitibana, surgiram outros grupos em , cada um com sua própria dinâmica e desenvolvendo experiências similares, mas com características locais. Com o mesmo entusiasmo, a mesma explosão de ideias e criação de comunidades fortes. Porque assim é o contato humano: quando há espaço para que ele aconteça e ambiente para que o potencial vire ação, tudo pode acontecer.

Tenho pra mim que essas cidades todas criaram comunidades que espelham os desejos dos primeiros organizadores, de espalhar a força, a autonomia, a autodescoberta profissional (e pessoal) despertada pelos barcamps. Mas foram além, porque muita gente junta dá energia e espaço para muitas outras ideias.

Às vezes a ideia da organização inicial não refletia o desejo maior do grupo e isso aconteceu aqui em Curitiba também. Já aconteceu de eu ver uma ideia minha não ser recebida com entusiasmo pelos outros. Na hora é frustrante, mas depois acabei vendo que isso mostra a evolução a que o grupo chegou: as pessoas sentiram e incorporaram a noção de autonomia que eu acho fundamental para o bom desenrolar das nossas ações e a própria sobrevivência do grupo.

Isso já era algo estendido aos outros grupos: eu sempre tentei ajudar na medida do possível, mas sem interferir nas ideias dos organizadores de outras cidades. Tentei (não sei se consegui) deixar cada um ver a construção dos seus próprios barcamps locais da forma que mais se adequasse às necessidades locais. É assim que sempre vi a coisa, barcamps têm que ser orgânicos, ter vida própria.

Quando eu vi divisões aqui no nosso grupo, confesso que não reagi bem e cheguei a discutir, me afastar, achando que o desvio provocado ia rachar o grupo. Não foi o que aconteceu. , fomos a direções diferentes, mas continuamos, na medida do possível, seguindo os princípios que nos trouxeram até aqui:

  • todos têm voz e vez e podem manifestar livremente suas ideias e opiniões sem censura, desde que respeitem a comunidade;
  • ninguém é obrigado a fazer nada que não se sinta pronto(a) a fazer, seja colaborar, falar ou mesmo comparecer às reuniões;
  • não há diferenças nem prioridade na fala de ninguém. Eu sempre começo as reuniões, mas mesmo isso não é “regra”, apenas costume. Tenho certeza de que, se eu não puder estar presente, não será isso que impedirá a reunião de acontecer (embora já tenham dito o contrário, mas realmente sinto assim);
  • quem “sabe mais” pode até ter mais a dizer que outro que “sabe menos”, mas assim como as aspas implicam, isso é tudo questão de percepção, muitas vezes da que já me assombrou também, e às vezes ainda assombra;
  • o barcamp não é de ninguém, não é meu, nem dos organizadores dos outros locais, mas sim, de todos. De quem está nas reuniões, de quem cria ações a partir dele, como o , de quem sente falta quando não consegue ir em um dos encontros.

O barcamp é, antes de tudo, uma ideia. Que contagiou várias pessoas, mas que não impõe regras, nem obrigações sociais, nem ônus de qualquer tipo. As contribuições são espontâneas, a própria existência é espontânea. Acho que é por isso que se espalhou com relativa facilidade, embora a organização não seja sempre simples, por mais que haja pessoas querendo colaborar.

O que temos em comum é maior que nossas diferenças.

O fato é que: quando estamos frente a frente nos barcamps não há como ignorar o fato de que o que temos em comum é maior que nossas diferenças. E é mais fácil tocar as coisas, seja na vida profissional ou nos próprios barcamps, quando a gente lembra disso. Eu vejo assim: é bom lembrar do que já fizemos, isso é um impulso para tocar adiante. Mas é preciso pensar também no tanto mais que podemos fazer ao deixar para trás noções individualistas do que cada um(a) acha melhor. É esse o impulso que fará a ideia perdurar.

Então abraço os barcamps e cada pessoa que ajuda e já ajudou essa ideia a se espalhar, mas quero deixar claro que ele não é meu filho. É nosso. Mesmo quando a gente discute o melhor jeito para que ele continue crescendo saudável, precisamos lembrar que somos corresponsáveis, mas é preciso deixá-lo “respirar”, para não abafar as ideias de todos os outros que formam esse corpo. Enquanto for assim, ele crescerá. Senão, corremos o risco de tapar o sol que ajuda ele a crescer e a planta vai minguar.

Dedico esse texto a todos os participantes incríveis dos nossos barcamps , e também aos organizadores que deram o pontapé inicial, sem os quais talvez não houvesse tantos barcamps, mas que sem o desapego que mostraram em não tornar os barcamps “seus”… talvez não tivéssemos tantos barcamps. :) Obrigada, pessoal!

Comunicaminhos

Relatos sobre como as comunidades de que participo, de forma presencial e virtual, abrem caminhos de crescimento profissional e pessoal

Sheila Gomes

Written by

Tradutora que constrói as pontes possíveis entre comunidades. Também localiza sites, software e jogos.

Comunicaminhos

Relatos sobre como as comunidades de que participo, de forma presencial e virtual, abrem caminhos de crescimento profissional e pessoal