Barcamps: metas para 2018 e muito além

Aqui em Curitiba os barcamps de tradutores e intérpretes acontecem desde 2014. Tempo suficiente para evoluir de uma ideia inspirada no global e trazida ao local, a um corpo feito por muitas outras ideias que foram se juntando à primeira, mas não só: também são as ações das pessoas, daqui e de fora, que participaram dos encontros desde então.

A própria ideia não é original, mas foi transformada pela nossa necessidade de encontro e de busca de autonomia. E não só aqui, foi levada a outros lugares, por outras pessoas, inspiradas pela energia da comunidade e por tudo o que conseguimos realizar juntos. Mas também pelos princípios de colaboração, igualdade e autonomia.


Quando os barcamps começaram, eu não conhecia nenhum encontro do gênero por aqui, em que as pessoas se reunissem para discutir ideias e ações profissionais num ambiente em que todos tivessem voz e vez como o fio condutor. Um fio que também costurasse o grupo e unisse seus membros num entusiasmo comum.

No início a organização era assim: quem quisesse falar aos outros teria sua chance de apresentar ideias em forma de palestras, oficinas, mesas de discussão. Com o tempo, o grupo formou laços de amizade, e a cada encontro todos se sentiam mais à vontade naquela quase família, pegando junto, ajudando a organizar espontaneamente, divulgando, criando iniciativas próprias que surgiram a partir de ideias despertadas pelas conversas.

Quem tinha insegurança de se manifestar começou a se sentir mais segura. Quem achava que não tinha nada a dizer que os outros já não soubessem, descobriu que a sua experiência única podia iluminar o caminho de outros, mostrando coisas que seu ponto de vista esclarecia. Quem se sentia sozinho, sentiu-se apoiado. Quem não via espaço para crescer, de repente via tantos caminhos quanto as pessoas expressavam em suas experiências ou ideias.

Então, inspirados na experiência curitibana, surgiram outros grupos em cidades diferentes, cada um com sua própria dinâmica e desenvolvendo experiências similares, mas com características locais. Com o mesmo entusiasmo, a mesma explosão de ideias e criação de comunidades fortes. Porque assim é o contato humano: quando há espaço para que ele aconteça e ambiente para que o potencial vire ação, tudo pode acontecer.

Tenho pra mim que essas cidades todas criaram comunidades que espelham os desejos dos primeiros organizadores, de espalhar a força, a autonomia, a autodescoberta profissional (e pessoal) despertada pelos barcamps. Mas foram além, porque muita gente junta dá energia e espaço para muitas outras ideias.

Às vezes a ideia da organização inicial não refletia o desejo maior do grupo e isso aconteceu aqui em Curitiba também. Já aconteceu de eu ver uma ideia minha não ser recebida com entusiasmo pelos outros. Na hora é frustrante, mas depois acabei vendo que isso mostra a evolução a que o grupo chegou: as pessoas sentiram e incorporaram a noção de autonomia que eu acho fundamental para o bom desenrolar das nossas ações e a própria sobrevivência do grupo.

Isso já era algo estendido aos outros grupos: eu sempre tentei ajudar na medida do possível, mas sem interferir nas ideias dos organizadores de outras cidades. Tentei (não sei se consegui) deixar cada um ver a construção dos seus próprios barcamps locais da forma que mais se adequasse às necessidades locais. É assim que sempre vi a coisa, barcamps têm que ser orgânicos, ter vida própria.

Quando eu vi divisões aqui no nosso grupo, confesso que não reagi bem e cheguei a discutir, me afastar, achando que o desvio provocado ia rachar o grupo. Não foi o que aconteceu. O grupo se transformou de várias maneiras, fomos a direções diferentes, mas continuamos, na medida do possível, seguindo os princípios que nos trouxeram até aqui:

  • todos têm voz e vez e podem manifestar livremente suas ideias e opiniões sem censura, desde que respeitem a comunidade;
  • ninguém é obrigado a fazer nada que não se sinta pronto(a) a fazer, seja colaborar, falar ou mesmo comparecer às reuniões;
  • não há diferenças nem prioridade na fala de ninguém. Eu sempre começo as reuniões, mas mesmo isso não é “regra”, apenas costume. Tenho certeza de que, se eu não puder estar presente, não será isso que impedirá a reunião de acontecer (embora já tenham dito o contrário, mas realmente sinto assim);
  • quem “sabe mais” pode até ter mais a dizer que outro que “sabe menos”, mas assim como as aspas implicam, isso é tudo questão de percepção, muitas vezes da síndrome de impostor que já me assombrou também, e às vezes ainda assombra;
  • o barcamp não é de ninguém, não é meu, nem dos organizadores dos outros locais, mas sim, de todos. De quem está nas reuniões, de quem cria ações a partir dele, como o BRCamp, de quem sente falta quando não consegue ir em um dos encontros.

O barcamp é, antes de tudo, uma ideia. Que contagiou várias pessoas, mas que não impõe regras, nem obrigações sociais, nem ônus de qualquer tipo. As contribuições são espontâneas, a própria existência é espontânea. Acho que é por isso que se espalhou com relativa facilidade, embora a organização não seja sempre simples, por mais que haja pessoas querendo colaborar.

O que temos em comum é maior que nossas diferenças.

O fato é que: quando estamos frente a frente nos barcamps não há como ignorar o fato de que o que temos em comum é maior que nossas diferenças. E é mais fácil tocar as coisas, seja na vida profissional ou nos próprios barcamps, quando a gente lembra disso. Eu vejo assim: é bom lembrar do que já fizemos, isso é um impulso para tocar adiante. Mas é preciso pensar também no tanto mais que podemos fazer ao deixar para trás noções individualistas do que cada um(a) acha melhor. É esse o impulso que fará a ideia perdurar.

Então abraço os barcamps e cada pessoa que ajuda e já ajudou essa ideia a se espalhar, mas quero deixar claro que ele não é meu filho. É nosso. Mesmo quando a gente discute o melhor jeito para que ele continue crescendo saudável, precisamos lembrar que somos corresponsáveis, mas é preciso deixá-lo “respirar”, para não abafar as ideias de todos os outros que formam esse corpo. Enquanto for assim, ele crescerá. Senão, corremos o risco de tapar o sol que ajuda ele a crescer e a planta vai minguar.

Dedico esse texto a todos os participantes incríveis dos nossos barcamps dentro e fora do Brasil, e também aos organizadores que deram o pontapé inicial, sem os quais talvez não houvesse tantos barcamps, mas que sem o desapego que mostraram em não tornar os barcamps “seus”… talvez não tivéssemos tantos barcamps. :) Obrigada, pessoal!