CAT tools são os MECHAs* da tradução!

As CATs multiplicam nosso poder tradutório!

Dia sim, dia não, aparece alguém perguntando nos grupos de tradutores do Facebook: “Qual é a melhor ferramenta de auxílio à tradução?” E a minha resposta é: OmegaT, é claro! Brincadeiras à parte, a resposta não deixa de ser verdadeira, por uma razão simples: não existe ferramenta melhor ou pior, existe mais ou menos domínio de uso. O OmegaT é a minha CAT tool preferida por várias razões, e a que mais uso, então sei de cor os atalhos, os macetes, as possibilidades. Ou seja, para mim, ela é a melhor.

O que não quer dizer que eu não use outras ferramentas, inclusive tenho uma licença paga do MemoQ. Mas mesmo para quem está começando e quer investir em uma ferramenta paga, eu aconselho a começar com uma gratuita, seja o OmegaT ou outra. Isso porque todas as CAT tools funcionam a partir dos mesmos conceitos e princípios, e aprendendo a usar uma, usar as outras é só questão de descobrir como executar as (mesmas) funções com outros botões.

O ideal mesmo é testar várias ferramentas até encontrar a que oferecer o melhor ambiente de tradução para suas necessidades. Desde que se tenha claro que essas ferramentas não traduzem sozinhas, mas oferecem inúmeros recursos para, entre outras coisas, facilitar o controle de qualidade e consistência na tradução, qualquer uma delas será um grande apoio no trabalho do dia a dia, cuidando da parte mecânica do processo de tradução, para fazermos o intelectual cada vez melhor.

Facilitar a pesquisa, organizar terminologia, manter a consistência, tudo isso é trabalho das CATs

E há ferramentas de todos os tipos: pagas, gratuitas, com muitos ou poucos recursos extras, on-line ou como um programa independente para instalar no computador (e estas podem trabalhar em conexão com um servidor remoto e receber dados on-line). O ideal é baixar várias e testá-las no maior número de condições que for possível, fazendo traduções de documentos nos formatos que mais se recebe, seja documentos do Word, planilhas do Excel, apresentações ou documentos PDF, arquivos de código de programação, etc. E como a curva de aprendizado pode variar do suave ao íngreme, nunca é uma boa ideia testá-las com um trabalho que tenha prazo curto. Ir aprendendo com o uso é a melhor coisa, mas com tempo.

Por exemplo, arquivos em formato PDF costumam ser uma dor de cabeça extra, mesmo para quem usa CATs: eles são criados para ocupar menos espaço e por isso não contêm as informações de formatação do documento original. No caso de PDFs editáveis (quando você consegue selecionar as palavras com o cursor), é possível extrair o texto com facilidade, mas não reproduzir a formatação. E se for um PDF de imagem (não é possível selecionar o texto com o cursor), é preciso usar um programa de reconhecimento óptico de caracteres (OCR) para extrair o texto e daí talvez aproveitar a formatação (com algumas limitações). A maior parte das CAT tools que têm programas de OCR são pagas, mas também há uma CAT on-line gratuita que o oferece, o Wordfast Anywhere.

Uma ferramenta, vários usos

De modo geral, as CAT tools são muito versáteis e, além de aceitar um grande número de tipos de arquivos, também são úteis para todo tipo de tradução, e não só para as técnicas, como alguns acham. Apesar de um dos trunfos das CAT tools ser lidar bem com as repetições de palavras costumeiras de textos técnicos, quem faz tradução editorial (ou literária) também pode sair ganhando com os vários recursos oferecidos, como: gerenciamento de terminologia de uso constante (nomes de personagens, lugares, etc.), verificação ortográfica e gramatical, pesquisa sem sair da ferramenta, digitação preditiva, busca de referências otimizada, conferência de frases não traduzidas. Mesmo que na tradução editorial a ferramenta não gere uma memória de tradução muito útil para trabalhos futuros, ela pode ajudar bastante.

Numa semana comum de trabalho, atualmente eu uso 4 ferramentas diferentes (OmegaT, MemoQ, Smartling, MemSource), além de outros programas para o controle de qualidade e gerenciamento extra de terminologia (XBench, GoldenDict, ProMT e os recursos internos do OmegaT, como o de alinhamento de memórias). Sem contar as outras ferramentas de formatação, diagramação e de métodos para facilitar a organização e o transporte de dados entre essas ferramentas todas (Autohotkey e Text Mechanic, principalmente). Não são imprescindíveis, mas ajudam bastante, conforme a gente vai conhecendo.

Um dos maiores desafios hoje é encarar o avanço da tecnologia sem vê-lo como uma ameaça ao trabalho dos tradutores. Eu vejo esse avanço com bons olhos, na medida em que mais pessoas sejam beneficiadas com essas facilidades que aprimoram nosso trabalho. Acompanho com atenção aquilo que pode afetar (a percepção d)o meu trabalho diretamente, como a versão neural do Google Translate, as empresas que vendem serviços de tradução automática particular, sem acesso público, ou as que vendem acesso à motores de tradução automática para tradutores, alimentados com as próprias memórias de tradução destes, em acesso pago por uso ou por assinatura. Infelizmente as ofertas de tradução automática ainda beneficiam primariamente as agências, tanto pelo custo quanto pelo escopo dos serviços.

O que nos resta? Aprender sobre elas, usá-las a nosso favor, na medida do possível e tentar disseminar o uso entre aqueles que querem usá-las, mas ainda não têm acesso ou conhecimento suficiente. Esse também é um caminho para profissionalizar nosso meio, na medida em que a comunidade tem oportunidade de se inserir nas práticas atuais de mercado.

*Mechas na Wikipedia