Desconstruindo narrativas

Narrativas podem ser um espaço de proteção, mas também podem paralisar nossas decisões (foto de Sean Parker, do site Unsplash).

Como tradutora, eu costumava passar por uma situação profissional que talvez você também conheça: quando estava para tomar uma decisão, começar um projeto novo ou fazer algo diferente na minha carreira, várias dúvidas pulavam na minha cabeça. “Será que esse é o jeito certo?”, “O que será que vão pensar de mim?”, “Será que sou capaz?”. Com o tempo eu percebi que elas eram o resultado de narrativas internas que eu tinha criado, por causa de coisas que tinha ouvido e adotado como parâmetro. Ou seja, era como se fossem as “leis” que regulavam o mercado profissional, quando na verdade era apenas um jeito, dentre vários possíveis, que as pessoas usavam para lidar com as questões profissionais.

Como nessa altura me faltavam parâmetros de comparação com outras formas de pensar e ver a tradução, aceitava essas narrativas como certas. E muitas vezes as usei para justificar coisas que fiz ou deixei de fazer. Demorei para perceber isso, mas a experiência ajudou a criar parâmetros e agora tento derrubar todas as narrativas que não trazem benefício para mim, para os grupos de que faço parte ou que não respeitam os valores profissionais que defendo.

Talvez essa reflexão sirva para alguns de vocês também. Nem sempre é o caso, cada pessoa pode ter outras narrativas que não aparecem aqui e provavelmente as que aparecem não se aplicam a todos. Mas a ideia é levantar este assunto importante, que afeta diretamente as decisões de carreira e de vida que tomamos, os investimentos de tempo e dinheiro que fazemos e os caminhos que decidimos seguir:

Tomar a palavra de gente experiente como lei

Professores, gente com muito tempo de carreira, ou qualquer figura a que se atribua autoridade em uma área sempre têm a vantagem de serem ouvidos acima dos outros. Às vezes essas pessoas têm noção de que mesmo que saibam mais que outros em certas áreas (e nem sempre é o caso, o conhecimento raramente é tão universal assim), é bom também lembrar da responsabilidade sobre o que e como se fala, porque a sua voz tem um peso diferente. Quando observei que nem todas as pessoas experientes que eu ouvia atentavam para o peso do que diziam e às vezes suas ações não refletiam suas falas, parei de considerar a opinião de gente mais experiente que eu como parâmetro “líquido e certo”. Lia e aproveitava o que se aplicava a mim, dispensava o resto. E comecei a levar em conta também a experiência diversa de outras pessoas em etapas diferentes da carreira ou mesmo em outras profissões. Com isso, cresci profissionalmente, pois desenvolvi segurança e mais clareza sobre quais são os caminhos certos pra mim e o que pode se aplicar a jornada de outros, mas não à minha. E sim, me coloco na berlinda também, pois a essa altura da vida já tenho lá meu tanto de experiência para compartilhar, mas o que digo pode ser uma tremenda besteira se aplicado à vida de quem não compartilha meus valores, por exemplo. E estimulo o enfrentamento e desconstrução dessas “verdades universais” no dia a dia.

Entidades: pague para entrar, reze para sair algo que valha a pena

Essa é uma ideia que parece cristalizada na mente de muita gente, pois sempre aparece alguém perguntando: “mas o que eu ganho entrando na associação/sindicato?”. O problema é a relação clientelista que se estabeleceu pela própria atitude das respectivas dire(i)torias: em vez de haver diálogo, há só a cobrança eterna de “querem ver resultados, paguem e entrem, aí podemos fazer as coisas”. Eu acredito no trabalho comunitário e associativo e sei quanta coisa é possível fazer mesmo fora de entidades e com pouco ou sem dinheiro. E as entidades existem por uma razão: juntar forças para conseguir benefícios coletivos e quem entra deve ter isso em mente. O problema é que nem sempre essa é uma atitude demonstrada por quem já está lá. Hoje nossas entidades querem atender apenas às pessoas “prontas” para ouvi-las e pouco ou não se aproximam de quem não está ou não aceita o discurso único que propõem. Então as narrativas ligadas à representatividade de entidades precisam ser desafiadas, para não perpetuar uma linha de pensamento que contemple só um certo tipo de profissional.

O bom trabalho se vende sozinho

Eu já acreditei nisso piamente. Isso porque li em vários grupos e blogs, e ouvi muita gente afirmar, que a melhor coisa que você pode fazer pela sua carreira é aprimorar seu conhecimento e seu trabalho cada vez mais, para vender-se como especialista. Até eu já escrevi isso, nessas ou em outras palavras. Essa foi mais uma narrativa que desconstruí: conheço gente que faz trabalho meia boca e vive bem e também gente super competente que não passou em teste de agência de tradução. Então tento melhorar, porque acredito que esse é um caminho válido de evolução profissional para mim, mas já não acredito que é o maior mote de venda dos meus serviços. Ter critérios claros e segui-los, não vendendo o que não posso entregar, pode ser bem mais importante para conquistar a confiança dos clientes e do público geral.

Poucos falam, muitos escutam

É preciso haver o contraponto e mais diálogo horizontal. Já errei muito nisso, e é mesmo uma questão de tentativa e erro, já que tradicionalmente igualdade de oportunidades para todas as vozes não é algo visto com frequência no nosso meio profissional, na verdade é algo que precisamos conquistar e defender constantemente. E tenho a impressão, pelo que vejo e e ouço por aí, de que não é só no nosso. Há muito pouco diálogo, e muito mais defesa de interesses individuais até mesmo nos espaços e entidades que deveriam representar os interesses coletivos: é o que mais se vê nas interações, nos eventos, nos grupos e sites. O fato é que a gente se acostumou e se dessensibilizou em relação à seriedade do problema e é essa a narrativa dominante de hoje (mas não devia, já diria Marina).

Sucesso é ganhar cada vez mais

Quando a gente está entrando na carreira e ainda não conhece muito bem tudo o que implica ser tradutor ou intérprete autônomo, o dinheiro costuma ser a primeira referência para decidir entrar, talvez porque é algo fácil de entender e relacionar às nossas necessidades. As condições do trabalho, vantagens e desvantagens, também são fatores importantes. Mas (quase) todos precisamos sobreviver e o dinheiro acaba sendo o referencial mais comum para decidir seguir na carreira. Mas será mesmo que essa decisão deve ser tomada em cima de um valor monetário aleatório? O que para um pode parecer um rendimento ótimo, para outro pode ser insuficiente. Passei por essa fase também e sempre tive insegurança por não saber se estava cobrando o suficiente para não “atrapalhar o mercado”, algo que os discursos de “peanuts” (de que discordo veementemente) não ajudavam em nada, porque falavam para não cobrar amendoins, mas não diziam o que era ideal cobrar. Foi aí que eu comecei a pensar nas outras questões envolvidas e que eram importantes para mim: o tempo para viver melhor do que vivia quando trabalhava em escritório, a chance de aprendizado, poder fazer pontes e criar coisas que fazem diferença na vida das pessoas. E o dinheiro passou a ser um fator menor do que era então, ainda que parte da equação, afinal sustento a minha casa. Mas não escolheria outra profissão que dizem que ganha mais porque todas elas vêm com desvantagens que não estou disposta a encarar, e são em áreas que acho até interessantes, mas não me vejo atuando. Porque isso é importante também: para poder acordar todo dia com ânimo para trabalhar sozinha é preciso fazer algo que a gente goste de verdade. E outra coisa que descobri é que é possível escolher uma etapa intermediária da carreira, em que as exigências dos clientes cabem na minha disposição e no meu tempo, sem ter o objetivo de cobrar cada vez mais. Assim posso crescer me sustentando financeiramente e ter espaço na vida para outras coisas importantes.

Eu não sou suficiente

Essa é uma narrativa e que enfrentei dois desdobramentos: a crença de que eu nunca estaria preparada o suficiente para enfrentar certas situações (síndrome do impostor) e a noção de achar que um indivíduo faz pouca diferença no cenário maior da tradução e interpretação. Mas depois vi que algumas pessoas fazem muito, informando, compartilhando, ajudando os outros e acabei derrubando essa noção dentro de mim. E uma consequência disso foi derrubar a síndrome do impostor também, pois quando conhecemos as pessoas ao tentar ajudá-las, e principalmente, conversando ao vivo, a gente acaba descobrindo quanta gente fabulosa há entre os colegas próximos, com quem aprendi e aprendo muitíssimo. E descobri também muita gente brilhante e quietinha no seu canto, enquanto vi outros falando muito, mas dizendo pouco. A experiência de cada um é diversa e sempre será complementar a de alguém: mesmo quem vive as mesmas coisas pode chegar a conclusões bem diferentes. O que acabou me fazendo chegar a outra conclusão interessante: eu não sou suficiente para mudar o meio sozinha, e para fazer isso preciso me conectar com as outras pessoas. Este texto aqui é uma tentativa, e outras são os grupos de que participo, os eventos que ajudo a organizar e de que participo, as iniciativas que apóio.

E você, qual narrativa desconstruiu na sua carreira?