Desconstruindo narrativas

Sheila Gomes
May 21, 2018 · 7 min read
Narrativas podem ser um espaço de proteção, mas também podem paralisar nossas decisões (foto de Sean Parker, do site Unsplash).

Tomar a palavra de gente experiente como lei

Professores, gente com muito tempo de carreira, ou qualquer figura a que se atribua autoridade em uma área sempre têm a vantagem de serem ouvidos acima dos outros. Às vezes essas pessoas têm noção de que mesmo que saibam mais que outros em certas áreas (e nem sempre é o caso, o conhecimento raramente é tão universal assim), é bom também lembrar da responsabilidade sobre o que e como se fala, porque a sua voz tem um peso diferente. Quando observei que nem todas as pessoas experientes que eu ouvia atentavam para o peso do que diziam e às vezes suas ações não refletiam suas falas, parei de considerar a opinião de gente mais experiente que eu como parâmetro “líquido e certo”. Lia e aproveitava o que se aplicava a mim, dispensava o resto. E comecei a levar em conta também a experiência diversa de outras pessoas em etapas diferentes da carreira ou mesmo em outras profissões. Com isso, cresci profissionalmente, pois desenvolvi segurança e mais clareza sobre quais são os caminhos certos pra mim e o que pode se aplicar a jornada de outros, mas não à minha. E sim, me coloco na berlinda também, pois a essa altura da vida já tenho lá meu tanto de experiência para compartilhar, mas o que digo pode ser uma tremenda besteira se aplicado à vida de quem não compartilha meus valores, por exemplo. E estimulo o enfrentamento e desconstrução dessas “verdades universais” no dia a dia.

Entidades: pague para entrar, reze para sair algo que valha a pena

Essa é uma ideia que parece cristalizada na mente de muita gente, pois sempre aparece alguém perguntando: “mas o que eu ganho entrando na associação/sindicato?”. O problema é a relação clientelista que se estabeleceu pela própria atitude das respectivas dire(i)torias: em vez de haver diálogo, há só a cobrança eterna de “querem ver resultados, paguem e entrem, aí podemos fazer as coisas”. Eu acredito no trabalho comunitário e associativo e sei quanta coisa é possível fazer mesmo fora de entidades e com pouco ou sem dinheiro. E as entidades existem por uma razão: juntar forças para conseguir benefícios coletivos e quem entra deve ter isso em mente. O problema é que nem sempre essa é uma atitude demonstrada por quem já está lá. Hoje nossas entidades querem atender apenas às pessoas “prontas” para ouvi-las e pouco ou não se aproximam de quem não está ou não aceita o discurso único que propõem. Então as narrativas ligadas à representatividade de entidades precisam ser desafiadas, para não perpetuar uma linha de pensamento que contemple só um certo tipo de profissional.

O bom trabalho se vende sozinho

Eu já acreditei nisso piamente. Isso porque li em vários grupos e blogs, e ouvi muita gente afirmar, que a melhor coisa que você pode fazer pela sua carreira é aprimorar seu conhecimento e seu trabalho cada vez mais, para vender-se como especialista. Até eu já escrevi isso, nessas ou em outras palavras. Essa foi mais uma narrativa que desconstruí: conheço gente que faz trabalho meia boca e vive bem e também gente super competente que não passou em teste de agência de tradução. Então tento melhorar, porque acredito que esse é um caminho válido de evolução profissional para mim, mas já não acredito que é o maior mote de venda dos meus serviços. Ter critérios claros e segui-los, não vendendo o que não posso entregar, pode ser bem mais importante para conquistar a confiança dos clientes e do público geral.

Poucos falam, muitos escutam

É preciso haver o contraponto e mais diálogo horizontal. Já errei muito nisso, e é mesmo uma questão de tentativa e erro, já que tradicionalmente igualdade de oportunidades para todas as vozes não é algo visto com frequência no nosso meio profissional, na verdade é algo que precisamos conquistar e defender constantemente. E tenho a impressão, pelo que vejo e e ouço por aí, de que não é só no nosso. Há muito pouco diálogo, e muito mais defesa de interesses individuais até mesmo nos espaços e entidades que deveriam representar os interesses coletivos: é o que mais se vê nas interações, nos eventos, nos grupos e sites. O fato é que a gente se acostumou e se dessensibilizou em relação à seriedade do problema e é essa a narrativa dominante de hoje (mas não devia, já diria Marina).

Sucesso é ganhar cada vez mais

Quando a gente está entrando na carreira e ainda não conhece muito bem tudo o que implica ser tradutor ou intérprete autônomo, o dinheiro costuma ser a primeira referência para decidir entrar, talvez porque é algo fácil de entender e relacionar às nossas necessidades. As condições do trabalho, vantagens e desvantagens, também são fatores importantes. Mas (quase) todos precisamos sobreviver e o dinheiro acaba sendo o referencial mais comum para decidir seguir na carreira. Mas será mesmo que essa decisão deve ser tomada em cima de um valor monetário aleatório? O que para um pode parecer um rendimento ótimo, para outro pode ser insuficiente. Passei por essa fase também e sempre tive insegurança por não saber se estava cobrando o suficiente para não “atrapalhar o mercado”, algo que os discursos de “peanuts” (de que discordo veementemente) não ajudavam em nada, porque falavam para não cobrar amendoins, mas não diziam o que era ideal cobrar. Foi aí que eu comecei a pensar nas outras questões envolvidas e que eram importantes para mim: o tempo para viver melhor do que vivia quando trabalhava em escritório, a chance de aprendizado, poder fazer pontes e criar coisas que fazem diferença na vida das pessoas. E o dinheiro passou a ser um fator menor do que era então, ainda que parte da equação, afinal sustento a minha casa. Mas não escolheria outra profissão que dizem que ganha mais porque todas elas vêm com desvantagens que não estou disposta a encarar, e são em áreas que acho até interessantes, mas não me vejo atuando. Porque isso é importante também: para poder acordar todo dia com ânimo para trabalhar sozinha é preciso fazer algo que a gente goste de verdade. E outra coisa que descobri é que é possível escolher uma etapa intermediária da carreira, em que as exigências dos clientes cabem na minha disposição e no meu tempo, sem ter o objetivo de cobrar cada vez mais. Assim posso crescer me sustentando financeiramente e ter espaço na vida para outras coisas importantes.

Eu não sou suficiente

Essa é uma narrativa e que enfrentei dois desdobramentos: a crença de que eu nunca estaria preparada o suficiente para enfrentar certas situações (síndrome do impostor) e a noção de achar que um indivíduo faz pouca diferença no cenário maior da tradução e interpretação. Mas depois vi que algumas pessoas fazem muito, informando, compartilhando, ajudando os outros e acabei derrubando essa noção dentro de mim. E uma consequência disso foi derrubar a síndrome do impostor também, pois quando conhecemos as pessoas ao tentar ajudá-las, e principalmente, conversando ao vivo, a gente acaba descobrindo quanta gente fabulosa há entre os colegas próximos, com quem aprendi e aprendo muitíssimo. E descobri também muita gente brilhante e quietinha no seu canto, enquanto vi outros falando muito, mas dizendo pouco. A experiência de cada um é diversa e sempre será complementar a de alguém: mesmo quem vive as mesmas coisas pode chegar a conclusões bem diferentes. O que acabou me fazendo chegar a outra conclusão interessante: eu não sou suficiente para mudar o meio sozinha, e para fazer isso preciso me conectar com as outras pessoas. Este texto aqui é uma tentativa, e outras são os grupos de que participo, os eventos que ajudo a organizar e de que participo, as iniciativas que apóio.

E você, qual narrativa desconstruiu na sua carreira?

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Relatos sobre como as comunidades de que participo, de forma presencial e virtual, abrem caminhos de crescimento profissional e pessoal

Sheila Gomes

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Tradutora que constrói as pontes possíveis entre comunidades. Também localiza sites, software e jogos.

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