Entre tabelas e querelas

O que sabemos sobre o Sindicato Nacional de Tradutores e Intérpretes?

Site do Sintra

Semana passada li uma notícia que usou o Sintra como fonte de informações sobre o número de tradutores no país. Confesso que estranhei muito, já que a parcela de tradutores que são parte da entidade é bem menor que o número de tradutores em exercício, se tomarmos como base a presença e declaração deste fato nos grupos, nos encontros, nas lista de TPICS registrados nas juntas comerciais (vá lá, estas não costumam ser muito atualizadas, mas mesmo assim). Para mim, o artigo é mais um ponto que escancara a necessidade de termos mais visibilidade e representatividade. É por essas e outras que estou montando uma chapa para concorrer à diretoria do Sintra: esse ano haverá eleições e a partir deste mês de outubro os membros poderão inscrever novas chapas, segundo a secretaria.

Quem já participou da organização de chapas para entidades assim sabe como é difícil reunir as pessoas. Não sei se vamos conseguir, pois ainda não temos o número necessário, entre diretoria e conselho fiscal (14 pessoas). Além de que, para poder participar é preciso ser membro pagante, o que representa hoje o desembolso de pelo menos 280 reais (segundo informações da secretaria). Tenho uma relação longa com associações, organizações e grupos de representação de classe, então entendo bem o receio de investir tempo e dinheiro entrando no sindicato, o que dirá na diretoria.

Um dos problemas que percebo como causa desse receio é a falta de esclarecimento sobre a vocação destas organizações, o que acaba ajudando a criar uma relação clientelista dos (possíveis) membros, o que é comprovado pelo número de pessoas que pergunta nos grupos de tradutores e intérpretes “vale a pena me filiar? o que eu ganho com isso?”. No caso do sindicato ainda há a questão adicional de essas organizações coletivas de trabalhadores serem combatidas a torto e à direita (pun intended*), com gente que inclusive torce pela extinção total delas. Então, ainda por cima, há resistência em entendê-las e apoiá-las.

Tudo isso leva à conclusão de que precisamos falar mais sobre sindicatos. Então vamos lá: o que é e para que servem? Legalmente falando, sindicatos são regidos pelo Decreto-lei nº 1.402, onde podemos ver, entre outras informações, suas prerrogativas e deveres. Já o Sintra, é descrito em seu site da seguinte forma:

O SINTRA é, desde sua inscrição no Ministério do Trabalho e Previdência Social, o órgão que representa os tradutores e intérpretes em todo o território nacional.

E continuando a leitura desse texto introdutório, a gente acaba descobrindo coisas que acredito que muitos não saibam. Por exemplo, que a ABRATES foi fundada a partir do SINTRA:

Em 3 de dezembro de 1999 fundou-se, a partir do SINTRA e tendo como membros natos os membros do SINTRA de então, a ABRATES- Associação Brasileira de Tradutores, hoje totalmente independente do sindicato e responsável pelos exames de credenciamento de tradutores em todo o Brasil, além de outras iniciativas de grande interesse para tradutores e intérpretes.

Por que então há mais campanhas favoráveis à adesão e visibilidade da associação que do sindicato que lhe deu origem? Houve campanhas de estímulo à adesão ao Sintra, é verdade, talvez para cumprir o papel descrito acima. Mas sou capaz de apostar que, de cada 10 tradutores e/ou intérpretes, 11 conhecem ou lembram do Sintra por causa da “lista de valores de referência” (a polêmica “tabela”). Entretanto, a tabela não é realmente referência, pois lhe falta transparência, especificidade e aplicabilidade ampla nas condições atuais do mercado brasileiro (lembrando que o sindicato é nacional). Uma tabela assim serve justamente para aqueles que (ainda) não conhecem preços de tradução, como tradutores e intérpretes iniciantes ou os próprios clientes, pois para quem já é experiente em calcular seu preço, acaba sendo até um limitador. E para os outros é um valor aleatório, sem nada claro que o justifique.

E o código de ética, que um dia fez parte do estatuto, por que não está mais presente no site (ou pelo menos não está claramente acessível)? Qual é a importância de um código assim? Pode ser que ele apresente questões óbvias a alguns, e por isso, consideradas desnecessárias no estatuto. Mas é exatamente o “óbvio” (e eu nem acredito que exista algo universalmente óbvio) que mais precisa estar exposto, para que:

  • todos saibam exatamente os valores que a instituição defende;
  • os associados tenham uma referência clara do que estão abraçando e ajudando a defender;
  • para ajudar o público leigo a entender a importância do nosso trabalho e o quanto o levamos a sério.

Foi isso que motivou a criação do código de ética do Coletivo Identidade, por exemplo. Quando criamos este código aqui em Curitiba, a motivação era criar as bases da formação de uma associação regional, mas acabamos chegando à conclusão de que não era viável na época. E que mais importante do que criar uma organização formal, era (e continua sendo) reforçar o grupo que a baseia, executar ações e discutir produtivamente questões fundadas na realidade do nosso mercado e da nossa prática. E a própria construção do código de ética reforçou os laços da comunidade, pois tudo foi colocado à mesa: como trabalhamos, nos relacionamos e queremos que o mercado seja e nos trate.

Outra motivação de criar um código de ética é ter princípios claros de onde partir ao discutir o hoje e o amanhã. Isso passa também por levar nossos pares a sério, pois quando temos valores comuns claros, é mais fácil desenvolver e respeitar uma consciência de grupo, de participação, de integração e “vestir a camisa”. E é a participação que dará corpo ao grupo, que vai inspirar vida ao conteúdo dos documentos, dos valores e missões estabelecidos em estatutos e códigos. E mesmo que a participação seja importante, pois estamos defendendo nossa classe e dando visibilidade ao ofício que amamos e queremos ver respeitado por todos, é preciso haver meios para que ela aconteça. Não é possível impor que as pessoas participem, se a importância do trabalho não é visível. E manter uma organização dá trabalho, mas esse trabalho pode e deve ser compartilhado entre todos os seus integrantes.

No caso do Sintra, participar pode significar várias coisas:

  • entender o que é um sindicato (tanto para si, como para divulgar ao público geral);
  • conhecer o que o site oferece, criticando-o produtivamente e colaborando para mantê-lo, seja produzindo, sugerindo ou revisando o conteúdo;
  • ler o estatuto, pois ele rege o funcionamento do grupo;
  • acompanhar as notícias e as informações apresentadas no site e pelos membros nas mídias sociais;
  • conversar com os colegas sobre a atuação da organização;
  • ser membro do sindicato;
  • por último, mas não menos importante: integrar a diretoria. Que não é poder máximo, mas mente organizadora e braço executor, sempre, e reforço, sempre, a serviço dos membros.

Dizem que sindicatos foram criados para representar os interesses de uma classe profissional. Assim como as comunidades, uma classe é um grupo que compartilha problemas e (teoricamente) motivações comuns. Mas hoje, essa é uma realidade distante do Sintra, e o que mais ouço sobre o sindicato é gente dizendo que faria isso, mudaria aquilo. E sobre a natureza duvidosa da utilidade da “tabela”.

Eu não falo de fora, mas como filiada que já fui, e não só do Sintra, mas de todas as organizações que pude. E por conta dessas experiências cheguei à conclusão de que o mais importante, além de saber para que serve e como organizações do gênero contribuem para as profissões de tradutor e intérprete, é discutir tanto quanto possível. Mas discussão dirigida e adulta, que respeite as opiniões uns dos outros sem ataques ao caráter de cada um, uma discussão de ideias e que leve à ação, motivada pela participação do maior número possível de pessoas, informações e canais de comunicação acessíveis. Conversando com outras pessoas cheguei às seguintes conclusões sobre o que vemos hoje e o que gostaríamos de mudar e fazer:

  • A tabela não atende às particularidades dos vários tipos de trabalho e regiões. Seria melhor desenvolver em conjunto outra forma de educar os iniciantes sobre como formar seu preço;
  • Falta comunicação e ações em favor da visibilidade dos profissionais, veteranos e iniciantes;
  • O site do Sintra é muito pobre de informações, além de estar desatualizado;
  • Deveria haver mais canais de comunicação em duas vias, para as pessoas participarem e contribuírem;
  • O Sintra poderia ser uma referência no mercado de trabalho da tradução, ou seja, a fonte para verificar dúvidas sobre problemas fiscais, cursos e certificações, questões legais (modelos de contrato e de faturas, por exemplo), entre outras;
  • Deveria fazer um levantamento de profissionais que auxiliem tradutores e intérpretes nas várias fases da carreira, como contadores, advogados, webdesigners, profissionais de marketing e outros, e disponibilizar esses contatos, de preferência recomendados por quem já usou seus serviços;
  • Poderia criar um espaço para publicações que serviria tanto de fonte de informações como de vitrine para os profissionais;
  • Os sócios contribuintes poderiam ser membros que pagassem a anuidade com trabalho, o que estimularia e facilitaria a adesão. Estes membros poderiam ajudar a manter o site, escrever artigos, organizar encontros e outros eventos, fazer contatos para termos publicidade da instituição e da categoria, entre outras coisas que poderiam ser discutidas;
  • Estar presente nas mídias sociais para divulgar eventos, falar das atividades/atribuições do Sintra, destacar artigos relevantes sobre o mercado que saíram na mídia e ajudar a conquistar mais associados;
  • Fazer contato e firmar convênios com universidades e cursos livres para ter programas ativos de formação e estabelecer sua presença em atividades acadêmicas.

Com a internet já se consegue fazer muita coisa mesmo com pouca gente, mas se houver mais participação de membros (e mesmo não membros) que possam colaborar em pequenas tarefas, será possível atingir alguns, senão todos, estes grandes objetivos.

Por ter sido membro, além de pesquisar por conta própria, dividi aqui o tanto que sei sobre o Sintra, mas estou sempre buscando informações e experiências de outras pessoas, principalmente sobre o papel e a atuação do nosso e de sindicatos de forma geral (e sim, isso é um convite a quem quiser relatar sua experiência com sindicatos ali embaixo nos comentários). Tenho a impressão de que muita gente, como eu, também sabe pouco (mesmo quem já integra ou integrou alguma dessas organizações), pelos comentários nos grupos das mídias sociais.

E finalmente, não estou chamando apenas meus amigos para formar a chapa, e na verdade gostaria muito de ter pessoas representando áreas variadas das nossas profissões. Pessoas com vontade de dialogar e dispostas a discutir planos conjuntos. Quanto ao tempo para realizá-los, distribuiremos as ações não só entre membros da diretoria, mas qualquer pessoa disposta a ajudar, assim como fazemos nos barcamps. Estou à disposição para conversar e tirar as dúvidas de quem tiver interesse. E seguimos conversando!

*Trocadilho infame, mas real.