Mais diversidade no WordPress

O grupo internacional de diversidade da comunidade WordPress está organizando oficinas para participantes dos eventos

Rosie the Wapuu, a mascote do grupo Women Who WP

Já participei de vários Meetups e dois WordCamps e uma coisa que sempre me chama a atenção é o número baixo de mulheres (e outras pessoas de minorias pouco representadas) entre palestrantes, oficineiros ou organizadores de mesa redonda, uma situação que se repete no mundo todo em eventos de tecnologia. Foi por isso que, quando descobri que a comunidade internacional estava formando um grupo e oficinas para promover a diversidade nesses eventos, quis participar. O objetivo destas oficinas é ajudar as pessoas que querem integrar a comunidade e apresentar temas em eventos, mas acham que falta alguma coisa para chegar lá. Já havia atividades de integração na comunidade do WordPress, mas os números de participantes de grupos minoritários ainda são baixos, então as oficinas foram criadas para lidar com o outro lado da questão: ajudar futuros apresentadores a se prepararem. E como vou apresentar essa oficina no próximo WordCamp São Paulo, criei este artigo para divulgar a proposta e ajudar quem vai participar a entendê-la ou mesmo fazer suas próprias oficinas futuramente.

Então este texto serve para explicar como a oficina vai funcionar. A proposta é dar ferramentas e oferecer um espaço seguro para que as pessoas discutam como e o que apresentar em Meetups, WordCamps ou outros eventos. Às vezes falta só um pouco de coragem para falar em público e as informações oferecidas podem ajudar a dar mais segurança e a desmistificar o papel de palestrante. A intenção é que todos saiam empolgados pra apresentar algo ou, no mínimo, investiguem o que as faz temer essa possibilidade. Ninguém precisa fazer nada que não se sinta preparada para fazer e ninguém é excluído, inclusive recomendamos a todos que participem para conhecer e divulgar a proposta. Pessoas que integram minorias e se sentem pouco ou não representadas nos eventos são especialmente convidadas a entrar na discussão para quem sabe futuramente soltar a voz em algum evento, além de relatar como se sentem na comunidade WordPress, o que pode até ajudar a criar novas atividades.

Por que a oficina é necessária

Hoje, há um número desproporcional de apresentadores em eventos do WordPress que são homens brancos, e provavelmente héteros e cis.

E por que isso é um problema?

  • porque esse quadro não representa a sociedade e, muitas vezes, sequer representa bem o público dos próprios eventos;
  • como os apresentadores são muito similares entre si na aparência, na forma de se expressar e de se portar, parecem determinar um certo padrão de quem pode ser palestrante;
  • parte do público pode não se identificar com os palestrantes, o que pode levar à conclusão de que esta é uma esfera que não está aberta a este público;
  • as percepções a respeito de temas, a forma de lidar e falar sobre eles pode ser muito diferente entre os diversos grupos da sociedade, e a situação de hoje acaba promovendo uma visão única, já que é sempre o mesmo tipo de pessoa que fala.

Ou seja, quem vê e ouve apenas pessoas diferentes de si pode não sentir que suas próprias situações e condições são representadas, nem se enxerga como possível palestrante, já que sua presença não é validada pela presença de outras pessoas similares. Mas estas pessoas que não se sentem incluídas também podem ter um amplo conhecimento ou experiências válidas para compartilhar. É só lembrarmos como o universo de usuários e desenvolvedores do WordPress é variado.

A oficina trabalha a partir desta realidade, primeiro estabelecendo pontos comuns entre os participantes, sua experiência com WordPress, se já falaram em público, o que esperam, mas não deixando de discutir o que as diferencia e as torna únicas, incluindo questões de gênero.

Aprender uns com os outros e promover a integração da comunidade são os principais valores dos nossos encontros. Assim, estar aberto ao diferente, ao aprendizado e a entender questões importantes na vida das pessoas, como a própria identidade, é necessário para que todAs e todOs se sintam respeitados, ouvidos e representados. E queiram voltar, ou mesmo se arriscar a subir no palco.

E como podemos ajudar a desmistificar o papel do palestrante? Derrubando noções como estas:

Não sou especialista então não posso ser palestrante.

E tudo bem, não precisa ser. Uma questão importante aqui é que as pessoas têm noções diferentes do que é ser “especialista”. Considerando o universo do WordPress e os vários níveis de conhecimento dos usuários, é fácil chegar à conclusão de que ninguém sabe tudo, e todos podemos aprender com outras pessoas. Na verdade, para falar aos colegas, basta saber o suficiente sobre um tópico. Por exemplo, você pode falar sobre o jeito em que usa o WordPress, que pode ser inédito a outras pessoas. Provavelmente você sabe mais do que imagina, mas como muitos de nós, sofre com a síndrome do impostor (um fenômeno psicológico em que você sente uma “farsa”, achando que não tem o conhecimento suficiente para fazer algo, então não se sente capaz de fazer aquilo). Esse é um sentimento muito comum que eu mesma passei e ainda passo às vezes. Uma das razões para isso é o desequilíbrio de tratamento às pessoas de minorias na sociedade, que acaba se refletindo na forma como nos vemos e agimos.

Saiba que muitas comunidades pesquisaram quais são os tópicos de interesse em Meetups e WordCamps, e muitas pessoas querem aprender coisas para iniciantes. Uma área em que você sempre será especialista é sua própria experiência, que é única, mas pode fornecer bons exemplos de uso, especialmente na questão muito humana em que acertamos talvez depois de muita tentativas e erros. Você pode falar sobre como fez algo, como aprendeu, como ultrapassou um obstáculo, o processo para chegar lá, como resolver um problema. Esse tipo de apresentação é sempre boa porque é exclusiva, ninguém poderá falar a mesma coisa, não é como ler um tutorial online. Quando me mostro humana, e, como tal, sujeita a erros, ajudo outras pessoas a se enxergarem como protagonistas também, não como coadjuvantes e estimulo que se encorajem a tentar fazer o mesmo. Se você escolher um tópico que é importante para você, isso vai aparecer na sua fala e é isso que conta.

As pessoas vão fazer perguntas que eu não sei responder e vou parecer uma besta.

As pessoas podem, sim, fazer perguntas que você não poderá responder ali na hora. Mas isso não é um problema, o público entende que você não é a internet sobre duas pernas e que ninguém sabe tudo. Você pode inclusive já começar a apresentação dizendo que estar ali é assustador e pedir compreensão caso cometa um erro, isso ajuda muito e desperta a simpatia do público. E se acontecer de fazerem uma pergunta que você não saiba responder, há várias saídas para a situação:

  • perguntar se alguém na audiência sabe a resposta;
  • dizer que vai procurar e responder depois;
  • dizer que vai publicar a resposta no seu blog, matando dois coelhos: mais visitas ao seu site!
  • se o escopo da pergunta estiver fora do tópico da apresentação, você pode dizer que vai conversar mais tarde com a pessoa;
  • e dizer “eu não sei” é sempre uma possibilidade: as pessoas respeitam mais quem admite que não sabe do que quem tenta enrolar e “inventar” uma resposta.

Tenho medo de falar, passo nervoso!

Talvez você já tenha ouvido falar de uma pesquisa em que perguntaram o que gerava mais medo nas pessoas, em que teve gente dizendo que tinha menos medo da morte do falar em público. Então saiba que as pessoas entendem esse medo, tanto que a maioria das pessoas está no público, e não no palco. Se isso não for o suficiente para ajudar a perder o medo, tente praticar: fale na frente do espelho, do seu gato, da família, treine com públicos menores como o dos Meetups. E não deixe de mencionar isso quando estiver no palco: o público será mais empático se você admitir que falar em público deixa você nervosa.

Se nem todos na plateia estiverem prestando atenção, a minha apresentação é ruim.

Faça esse exercício quando estiver assistindo a outras palestras: olhe para plateia e quase sempre você verá algumas pessoas que podem parecer entediadas. Mas lembre que isso pode ser só uma impressão, há muita coisa que pode estar passando pela cabeça das pessoas nesse momento, como fome, sono, outros problemas da vida. E se elas estiverem usando o celular, por exemplo, isso não quer dizer que estão ignorando a apresentação. Como você vai saber se elas não estão fazendo anotações ou até estar tuitando sobre você? Então não se esqueça: nenhum apresentador se conecta com todo mundo. Tente não levar para o lado pessoal.

Uma palestra seguida de perguntas é o único formato em que posso apresentar meu conhecimento.

Na verdade há várias opções. Você pode liderar uma discussão em grupo, uma oficina, um painel de discussão em que fará perguntas a outros especialistas. Uma apresentação relâmpago pode ser uma boa opção também, pois é rápida e acaba logo, mas exige mais preparação.

Mais importante que o formato são as motivações e o conteúdo: o que preocupa ou interessa você? Por que ainda não falou em um Meetup ou WordCamp? Por que você quer ser apresentador(a) em um evento?
Alguns exemplos de motivos para falar em eventos, mas pode até haver outros

Ter essas razões claras ajuda a chegar na melhor forma de apresentar o conteúdo. E daí você pode definir o formato que prefere:

“Como fazer um plugin”, por exemplo, pode ser um passo a passo de uma palestra do tipo “como fazer”, que pode incluir programação ao vivo em conjunto e perguntas no final. Mas nem sempre essa é a melhor forma de compartilhar informações, pois as pessoas saem com a sensação de sobrecarga e nem sempre relembram o que viram.

Há outras formas de apresentar temas que promovem um aprendizado, por exemplo, contar histórias. Falar sobre como você aprendeu algo pode ajudar outras pessoas a aprender… a aprender. Cada tipo de formato pode estimular níveis de envolvimento diferentes:

  • Como fazer: o formato comum em eventos de tecnologia;
  • Discussão: você é facilitador(a) em um tópico e o público discute em conjunto (meu tipo predileto);
  • Painel: várias pessoas respondem perguntas sobre o mesmo tópico, onde você é mediador(a);
  • Histórias: sobre como se aprendeu algo, erros que viraram aprendizado ou outro formato de narrativa;
  • Estudo de caso: a história de como você criou algo em particular;
  • Oficina: uma experiência prática de aprendizado na qual as pessoas trazem seus computadores e aprendem fazendo.

E todas essas atividades podem ser feitas por um(a) apresentador(a) ou em mais pessoas, se isso lhe der mais segurança.

E sobre o que você vai falar?

Depois de pensar nisso tudo, só falta… o tema! Então agora vamos à parte prática e ajudar você a responder às perguntas: “Mas sobre o que eu vou falar?” ou “Até tenho um tema, mas será que eu sei o suficiente para falar a respeito?”

Esta é a parte da oficina em fazemos o “toró de ideias” (vulgo brainstorming). Todo mundo então pensa em ideias de tópicos para atividades, e vai anotando tudo o que aparecer na cabeça, em 5 minutos. Agora não é a hora de ter tópicos perfeitos e redondinhos, mas de anotar coisas que chamam a sua atenção e sobre as quais você gostaria de falar, mesmo que ainda seja uma ideia mal cozida. Veja a si mesmo(a) no futuro, na situação ideal de que você sabe o suficiente sobre o tema e poderia apresentar hoje, se quisesse. E anote tudo, as boas ideias, as marromeno, as ruins mesmo, sem se preocupar, porque isso é só pra você, não é para mostrar a ninguém. O objetivo é que você tenha umas 30 ideias no papel, sem brincadeira. Mas se tiver menos ou mais, tudo bem também, desde que não deixe de anotar nada. Lembre-se que você não vai ter que mostrar isso pra ninguém, então fique à vontade. Se preferir, rabisque, desenhe, faça um mapa mental, lista, do jeito que quiser. Na oficina também damos a liberdade para cada um de levantar, se quiser, sentar em outro lugar, dar uma caminhada pra refrescar as ideias, o que for preciso. Só há uma regra: escreva coisas que empolgam você, não coisas que você acha que os outros gostariam de ouvir.

E, para estimular suas ideias, eu deixo algumas perguntas (que na oficina eu leria, com uns 20 segundos de intervalo entre cada uma, para dar tempo do pessoal escrever):

  • Como você começou a usar o WordPress?
  • Por que continua usando?
  • O que você mais gosta nele?
  • Qual é a próxima coisa que quer aprender sobre ele?
  • A primeira vez que você: fez um tema descendente (tema filho), criou um plugin, etc.
  • O maior desafio no WordPress no ano passado ou anterior
  • A última coisa que você aprendeu? Como você aprendeu isso?
  • O maior bloqueio que você já teve com o WordPress? Como venceu esse bloqueio?
  • O que mais atrai você no WordPress? O que mais empolga você?
  • Que tipo de coisa você gosta de compartilhar com os outros relacionado ao WordPress?
  • Que perguntas sobre o WordPress seus clientes, amigos e família mais fazem?
  • Uma lista do que você quer aprender
  • Plugin favorito?
  • Uma coisa legal que você criou?
  • Recursos favoritos?
  • Truques legais que você costuma usar?
  • Sobre o que você falaria sem slides?
  • Que pergunta eu não fiz e você gostaria que eu tivesse feito?

E aí, com todas essas ideias escritas, vamos à seleção de tópico. Para isso, dividimos o pessoal em grupos de 4 ou 5 pessoas. Nos grupos, cada um escolhe, da sua lista de ideias boas, marromeno e ruins:

  • 2 tópicos que não saiba muito a respeito, mas que já fez algo (por exemplo, você não é fera em fazer plugins, mas fez um). Uma sugestão é apresentar estes tópicos em forma de história (“Meu primeiro plugin…”).
  • 2 tópicos que não conheça bem, mas sobre os quais teria boas perguntas a fazer. Estas ideias funcionariam bem na moderação de um painel.
  • 2 tópicos sobre os quais tenha confiança e que funcionariam em forma de uma apresentação do tipo “Como fazer”.
  • 2 tópicos relacionados a coisas com as quais tenha trabalhado e que poderiam virar estudos de caso.
  • 2 assuntos na lista de tópicos que são os favoritos.
  • 2 tópicos que poderiam virar um bom passo a passo, ou seja, oficinas.

Dentro de cada grupo, o pessoal vai trocar ideias uns com os outros e escolher qual dos tópicos mais os empolga e gostariam de desenvolver. Se alguém ficar na dúvida entre mais de um tópico, não há problema. Basta escolher um para dividir com o grupo, e depois pode pensar melhor. O que importa é conversar e compartilhar sua dúvidas e inseguranças com os outros, pois é aí que vemos como temos questões comuns.

E finalmente vamos refinar o tópico escolhido, aplicando as questões abaixo:

  • Quem
  • O quê
  • Por quê
  • Como
  • Quando
  • Onde

Por exemplo, se o tópico é “meu plugin favorito”, as perguntas poderiam ser: para quem esse plugin serve? o que o plugin faz? por que esse plugin foi criado? como ele funciona? quando você o usaria? onde você o usaria?
E assim você acabaria já com um pequeno resumo de uma possível proposta de apresentação.

Então, gostou da atividade? Nos locais em que ela foi feita, o pessoal saiu muito empolgado e cheio de ideias. Se você quiser replicar essa oficina em sua cidade, num Meetup ou outro tipo de evento, fique à vontade para entrar em contato e pedir ajuda, se precisar. Nosso objetivo é justamente criar multiplicadores e ajudar ainda mais pessoas.

E até um próximo evento!