O mundo é grande e cabe nessa janela sobre o MEI

Nessa semana que passou aconteceu tanta coisa a ver com tradução, que eu até fiquei na dúvida sobre o que escrever. A primeira foi o fuzuê em cima da oferta de trabalho da Netflix, que há algumas semanas vem inundando as mídias sociais. Mas o que mais gerou polêmica e discussão foram os equívocos e/ou exageros da mídia grande (ou nem tanto) ao divulgar a oferta, promovendo-a como se fosse o Santo Graal do trabalho fácil e rentável (e por falar em isca de cliques). Eu estava pronta para escrever a respeito, quando descobri que a Gisele do Nascimento já tinha publicado um texto excelente, cuja leitura recomendo a todos, tradutores ou não. Leia aqui no Medium mesmo ou no blog do Coletivo Identidade (onde o artigo foi republicado com autorização da autora, que também é membro do coletivo).

São casos como esse da Netflix que mostram ainda mais a necessidade de profissionalizar o nosso mercado, uma das intenções do abaixo-assinado aberto no AVAAZ (encabeçado por Eliana Weiss, do grupo MEI Enquadramento para tradutores), outro tema importante da semana. A petição é endereçada a Henrique Meirelles, Ministro da Fazenda, para que nossas profissões sejam incluídas na lista de ocupações contempladas pelo MEI. E por mais que pareça uma boa ideia ajudar profissionais a entrar no mercado pela porta da frente, o tema é polêmico e nem todos concordam com a pertinência ou mesmo a necessidade dessa inclusão. Mas abrir uma empresa hoje ainda não é acessível à grande maioria, e todos precisamos de algum tipo de renda para viver. Só que não há espaço suficiente no mercado para que todos os que se formam em tradução, o que dirá de outras áreas, conseguirem um emprego CLT de tradutor profissional. Assim, ser um profissional independente é o caminho que a maior parte de nós segue.

Vaga pouca, meu filão primeiro

Mesmo que eu nem venha a usar o MEI, sei que essa via merece apoio porque nos grupos de que faço parte, virtual e presencialmente, já tivemos essa discussão de várias formas e em vários matizes. Alguns argumentam que não vão apoiar a iniciativa porque ela não beneficia a todos, diferente de uma proposta anterior para baixar a alíquota dos impostos das MEs que já existem. Outros consideram o teto do MEI muito baixo e acham que precisamos (aprender a) cobrar o que realmente merecemos: para esses o MEI servirá como estímulo à sonegação.

Afinal, o que impede que se una as opiniões, vontades e ideias para se lutar tanto pela alíquota menor para as MEs, como para criar meios de facilitar a fiscalização que coibirá a sonegação? E para educar o mercado, profissionais e clientes, e uns saibam cobrar o que seu trabalho vale, enquanto outros compreendam o valor que esse trabalho agrega às suas marcas, produtos, ideias e carreiras? Talvez informações e comunicação por parte das entidades de representação e entre os atores do mercado?

Como obter informações para entender e acompanhar nossa realidade?

E é aí que entra o tema da semana sobre o qual decidi escrever: como obter informações para que possamos elaborar ações, definir metas, trabalhar em conjunto, sabendo de onde partimos e aonde queremos chegar? Bom, não há muitas iniciativas nessa direção, pois não é pequeno o esforço e o tempo necessários para coletar, organizar e apresentar dados para basear esses e outros planos. Mas, no meio do ano passado, logo depois da abertura do grupo do MEI para tradutores no Facebook, algumas pessoas se organizaram e criaram uma pesquisa abrangente, que foi respondida por nós, tradutores, intérpretes, revisores e outros profissionais e estudantes de áreas correlatas. O resultado, ainda que atrasado em relação ao prazo prometido, está aqui, agora público e acessível a todos: um Perfil de Tradutores, lntérpretes, Revisores e outros profissionais da área de Tradução.

São dados importantes que demonstram vários aspectos da nossa profissão e podem basear não só a argumentação favorável ao MEI, mas também ajudar a entender e discutir as diversas situações dos profissionais de hoje, iniciantes ou já estabelecidos. Só uma passada de olho já revela ou reforça coisas importantes, como:

  • Nosso universo ainda é majoritariamente feminino, como demonstra quase 80% das respostas;
  • Mais de 50% declara viver exclusivamente de tradução;
  • Trabalhamos muito: dois terços de nós, de 31 a 60 horas por semana, e 7%, mais de 60 horas;
  • Mais de 70% trabalha no final de semana e 17% nunca tira férias;
  • Metade das pessoas ganha menos de 3.700 reais por mês, sendo que 43% têm mais de 8 anos de experiência;
  • Nosso trabalho ajuda a movimentar o mercado geral, pois quase todos contratam outros profissionais da mesma área ou de outras para viabilizar seus serviços;
  • Diferente do que muitos acreditam, várias pessoas estão enquadradas corretamente e de acordo com suas profissões, e grande parte dos professores de comunicação podem ser MEI e traduzir, assim como os professores de línguas;
  • Mais da metade respondeu que seus clientes são brasileiros.

E muito mais. Espero que essa pesquisa ajude a iluminar um pouco a noção que todos temos sobre a forma atual e o futuro possível do nosso trabalho, e a tomar decisões que apontem não apenas para um mercado com mais qualidade, mas também em que os interesses coletivos sejam levados em conta.

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