Precisamos falar mais sobre preços

Como a pesquisa de valores cobrados por tradutores e profissionais de áreas correlatas pode ajudar você?

Foto de rawpixel no Unsplash

Há algum tempo traduzi um artigo sobre a transparência de pagamentos e como ela pode transformar o trabalho independente, publicado originalmente no blog do Freelancers Union, o sindicato americano de profissionais independentes. E não foi a primeira vez que esse tema apareceu aqui neste blog.

Continuo achando a questão tão pertinente quanto urgente, o que foi confirmado pelas discussões geradas nos espaços em que divulguei o texto. Discutir valores sempre gera polêmica, sem dúvida. Isso porque tem gente que considera isso uma questão particular, não pública. Já eu acredito que essa atitude nos prejudica profissionalmente, e não sou a única.

Hoje só conheço duas fontes públicas institucionais de preços de tradução e áreas correlatas no Brasil, as listas do SINTRA e das Juntas Comerciais (e há também uma fonte externa que cita tradução por outros profissionais, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo). Todas têm um problema em comum: a falta de clareza a respeito da aplicabilidade das tarifas sugeridas. Muitos relatos de profissionais atuantes revelam que é difícil seguir ou mesmo entender os valores sugeridos e, por isso, muita gente cobra normalmente (bem) menos, pois os valores por si só, sem explicação, são considerados altos. Esta e outras questões sobre a lista do SINTRA foram levantadas por Danilo Nogueira neste artigo recente. E em relação às listas das Juntas, segundo José Lamensdorf, mesmo entre TPICs (Tradutores Públicos e Intérpretes Comerciais, concursados e registrados nas Juntas Comerciais), a aplicabilidade dos valores oficiais não é universal. Além disso:

Os valores cobrados por serviços especializados como os nossos não podem ser padronizados, pois sofrem influência de fatores únicos, como especialização, tempo de experiência, idiomas de trabalho, capacidade de negociação, estilo de vida, entre outros.

Entender esses aspectos do nosso trabalho e falar a verdade aos clientes, mesmo sem abrir todos os detalhes, é uma forma de conquistar a confiança deles. As pessoas sabem o que tem valor para elas, e podem não aceitar pagar mais do que podem ou querem, se não estiver claro o que esse valor representa. Ele será apenas um valor monetário aleatório. Se conhecermos e soubermos explicar o que agregamos com os nossos serviços, será mais fácil justificar os valores cobrados.

Essa é justamente outra coisa que não está clara em relação às listas: a quem elas são dirigidas, clientes ou profissionais da área? No caso da lista do SINTRA, vários tradutores alegam usá-la para mostrar aos clientes que cobram o sugerido (“e até menos”) pelo sindicato da classe. Por isso defendem que os valores devem ser sempre “nivelados por cima”. E já teve até gente dizendo que os valores são baixos e atrapalham quem cobra mais. Então, o que é mais importante: seguir uma lista definida por outrem, com valores formados por um grupo reduzido, à revelia da maioria dos profissionais, ou saber formar o próprio preço e saber o que ele inclui, para saber explicar ao cliente o porquê de cobrar esse valor?

Um dos papéis importantes do sindicato é justamente educar e orientar a classe em relação a práticas recomendadas (e preços), já que a organização tem acesso privilegiado aos profissionais e poderia coletar dados reais. A tarefa de coletar e analisar dados dos preços praticados de fato pelos profissionais não é uma tarefa fácil de elaborar ou executar, mas pode ser simplificada e dividida, para viabilizar o processo.

Resolvi fazer uma experiência e criei uma nova pesquisa de valores. Uma pesquisa simples, de acesso público, com entrada de dados anônima, para os colegas que quiserem divulgar os valores cobrados nos trabalhos mais recentes, sem revelar nomes de clientes, apenas algumas das condições do trabalho. Assim, todos podemos ter uma lista de referência baseada em condições reais do mercado de trabalho. Não tenho aqui a pretensão de substituir outras listas ou prescrever outras formas de cobrança, apenas de oferecer informações para termos uma compreensão mais completa do nosso mercado.

E adianta fazer mais uma lista de valores que só mostre, mas não explique? Acho que não. É por isso que vou escrever e recomendar uma série de artigos como este aqui, destrinchando as condições de trabalho e a aplicabilidade das tarifas que forem publicadas na pesquisa de valores. Embora seja útil saber o quanto os colegas estão cobrando de verdade, não basta apontar valores, mas sim abrir a caixa-preta da formação de preços.

Como os valores são definidos? Por exemplo, um profissional na área da saúde cobrará o mesmo que alguém que faça localização na área de TI? O que o valor inclui? Como os profissionais que são tradutores, revisores, intérpretes, legendadores, audiodescritores, localizadores, entre outros, definem seus preços? Todos cobram a mesma coisa, ao menos dentro de sua área de especialização e idiomas? Esta e outras perguntas serão parcialmente respondidas aqui, e você pode colaborar nos comentários, tanto respondendo, como fazendo outras perguntas.

E digo que as respostas serão dadas parcialmente porque a experiência de formar preços é única de cada profissional. Posso falar tudo o que aprendi na vida sobre formação de preços e outro profissional ter uma experiência e prática totalmente diferentes, que funcione para ele, mas não para mim. Até saber disso pode ser útil para quem está começando na profissão: não é preciso testar tudo do zero ou cair nas mesmas armadilhas que outros já testaram. Então, vamos falar sobre preços?