Tradução é um ato de empatia

A empatia na tradução: ser capaz de calçar os sapatos alheios e enxergar o mundo por outros olhos

Essa semana que passou encontrei um artigo muito bom da Caterina Saccani, How to find YOUR niche market as a translator… (Como encontrar SEU nicho de mercado na tradução), que me fez pensar em como cheguei à localização, e mais ainda, à própria tradução como carreira. Assim como a Caterina, eu defendo que é preciso haver um esforço consciente de buscar o autoconhecimento para (man)ter uma carreira sustentável como tradutor(a) independente. Além disso, claro, amealhar tanto conhecimento quanto possível, também pode ajudar a fazer um(a) bom(boa) tradutor(a). E há também outras habilidades importantes, como a administração do tempo, a comunicação, a organização, a negociação. Mas, e a empatia? Na minha experiência, este é um “recurso” menos valorizado do que deveria ser.

Pensando nas razões que me trouxeram até aqui, poder exercer a empatia está, com certeza, entre as primeiras. Tanto em relação aos envolvidos diretamente, leitor e autor, quanto aos pares, clientes e ao público leigo. Das atividades que já exerci, nenhuma abriu tantas oportunidades para isso como a tradução (exceto pelo ensino, e mesmo assim, com limitações). Ao traduzir a escrita (e interpretar a fala) nos aproximamos das pessoas, ajudando-as a compreender noções alheias à sua cultura ou visão de mundo. Como dizia Mandela:

Falar com uma pessoa num idioma que ela conheça leva a mensagem à mente, mas falar no idioma nativo dela, leva a mensagem ao coração

Assim, estar aberto ao mundo e praticar a empatia contribui para a profissão e para o nosso trabalho individual. Afinal, até que ponto é possível entender a cabeça e a cultura de outrem sem se dispor a se colocar em seu lugar? Com o tempo a gente percebe que, apesar de não ser um pré-requisito, a empatia acrescenta uma camada a mais de percepção e “afina” nossa capacidade de compreensão, dando mais meios para fazermos um trabalho melhor.

Uma das razões de frequentarmos grupos de tradutores (ou de outros profissionais), por exemplo, é aprender e tirar dúvidas com colegas de experiências diferentes. Mesmo com as dúvidas repetidas de iniciantes, mesmo com a escrita nem sempre correta de alguns (seja pela pressa, teclado pequeno, ou a informalidade comum das mídias sociais), praticar a empatia pode fazer a dúvida virar uma oportunidade de aprendizado para todos: quem pergunta, quem responde e quem lê depois. E isso sempre pode ser feito de forma a respeitar e estimular a publicação de outras dúvidas.

Fazendo um paralelo com a nossa prática: ao pesquisar materiais relacionados ao tema de uma tradução, eu não posso selecionar só aqueles com os quais me identifico, desprezando informações contrárias ao que acredito, mas que contribuiriam para um resultado melhor do meu trabalho. Desde aquela palavra obscura, um título exclusivo de um determinado país ou cultura, o melhor jeito de explicar um conceito que não existe na língua de chegada, a transcriação de uma piada ou slogan, tudo isso envolve um bom tanto de pesquisa, para atingir o resultado esperado. Não escrevemos apenas o equivalente dicionarizado, mas tentamos nos aproximar o máximo possível do que o autor diria se a sua língua nativa fosse a mesma para a qual traduzimos. Fazemos de tudo para estabelecer pontes ao entendimento, traduzindo o conteúdo (e não só a forma) dos textos.

E como a noção de fazer pontes também é a de receber o outro lado sem julgamento ou recriminação, não acho que seja possível compartimentalizar a empatia apenas ao trabalho. Da mesma forma, não tenho como não levar em conta que o nosso mercado é formado pelos tipos de pessoas mais variados, em todas as situações imagináveis (ou não).

Às vezes a gente passa muito tempo procurando o melhor termo, para chegar à melhor forma de descrever, reproduzir o diálogo ou estabelecer a comunicação, por exemplo. E para ampliar as possibilidades de busca, mesmo nas especialidades que abraçamos, o ideal é também manter a mente aberta e alimentada por áreas diferentes. Assim, estar em contato com pessoas de meios e visões diferentes ajuda a abrir canais de compreensão que não partam unicamente da nossa experiência tradutória, e sim da experiência humana mais ampla. E fazer disso uma oportunidade de entender melhor o mundo e as pessoas nele é um ganho que vai muito além do trabalho: todos ganhamos, porque todos crescemos.