Em conflito com a família, muitos dependentes químicos saem de casa e passam a morar nas ruas. Área em frente ao terminal central reúne moradores de rua — Foto — Leandro Ferreira

Joinville oferece tratamento para dependentes químicos

Comunidade &Artes
Jul 10, 2017 · 5 min read

Além do atendimento especializado disponível no SUS e em Centros Terapêuticos, apoio da família é fundamental

O usuário de drogas de Joinville tem entre 18 e 30 anos, é viciado em crack e mora na rua. Esse perfil foi identificado pelo tecnólogo em Gestão Hospitalar do IFSC, Álvaro Moreira, em pesquisa de conclusão do curso realizada há cinco anos. Além do impacto sobre a violência, a dependência química é um problema de saúde pública que afeta 29 milhões de pessoas em todo o mundo e mata 207 mil pessoas por ano, conforme relatório da Organização das Nações Unidas — (ONU), — publicado em 2016. Em Joinville, há diversas instituições públicas e privadas que oferecem tratamento para as pessoas que sofrem com dependência química.

João da Slva*, 36, conviveu com uso de drogas durante toda sua juventude e hoje está se tratando na Comunidade Terapêutica Essência de Vida, que tem sede em Joinville, e espaço terapêutico em Araquari-SC. Ele conta que seu primeiro contato com as drogas aconteceu por oferta da própria família. “Tomei um porre de vinho aos 12 anos, depois comecei a tomar cerveja e fumar cigarro. A partir disso vieram as rodas de amigos e a maconha”, relembra. Quando chegou em Joinville, aos 16 anos, o problema se agravou com a cocaína e o crack, até a situação se tornar insustentável. “Perdi tudo, família, contato com o filho, emprego e cheguei no fundo do poço. Hoje estou aqui para buscar uma saída”, explica.

“Nossa proposta, a partir do método de comunidade terapêutica, é acompanhar o paciente por 12 meses. Nos primeiros seis meses o dependente fica internado e passa pelas etapas de desintoxicação e conscientização. Depois, preparamos as pessoas para reinserção na sociedade”, explica a coordenadora Roseli Nabozny.

A Essência é uma instituição privada, mas que atende 25% dos pacientes de forma gratuita. Conforme informações da entidade, que hoje atende 22 pacientes, 40% dos dependentes conseguem chegar ao final do tratamento. Desses, metade seguem o tratamento e recuperam com a vida normal, enquanto que os demais acabam retornando ao vício.

A principal recomendação dos especialistas para combater a dependência química é atuar na prevenção, como alerta a página especial da Prefeitura de Joinville. O website recomenda as seguintes práticas como forma de combater os riscos do contato com as drogas: diálogo familiar, monitoramento de hábitos e amizades, incentivo ao engajamento comunitário, social, e desportivo, além do incentivo à educação que valorize o respeito, e a responsabilidade pelos próprios atos.

“Perdi tudo, família, contato com o filho, emprego e cheguei no fundo do poço. Hoje estou aqui para buscar uma saída”. João da Silva*, acolhido da Essência de Vida.

Essência de Vida. Acolhidos realizam tarefas diárias e atividades que ajudam na recuperação — Foto Rosalina Neckel

Sinais podem indicar que a pessoa precisa de ajuda

A Prefeitura alerta para a manifestação de alguns sinais que podem indicar que a pessoa pode estar enfrentando problema com as drogas, como alterações frequentes e bruscas de humor, agressividade, queda de rendimento escolar ou no trabalho, isolamento e saídas frequentes sem aviso.

Na incidência desses sinais, a recomendação é procurar uma Unidade Básica de Saúde. No entanto, é preciso que a pessoa se encaminhe voluntariamente até o posto. Em Joinville, não é possível realizar a internação forçada, a não ser que um médico emita um parecer com essa necessidade. Além das Unidades Básicas, a cidade conta com uma unidade do Centro de Atenção Psicossocial em Álcool e outras Drogas, no bairro Anita Garibaldi.

E foi a partir de entrevistas aplicadas com 295 pacientes desse Centro de Apoio, que o tecnólogo Ávaro Moreira desenvolveu a pesquisa mais recente sobre o perfil do usuário de drogas em Joinville, realizada entre janeiro e abril de 2012. Naquela época, cerca de 250 pessoas eram atendidas por mês na unidade. Na pesquisa, Álvaro revelou que 84% dos pacientes são homens, a maioria (43%) possui faixa etária entre 18 e 30 anos, o crack é a droga mais utilizada na cidade com 44% da preferencia, 56% dos usuários são solteiros, e que 57% abandonaram os estudos antes de ensino médio. Em relação ao local de moradia, a maioria, 41 pessoas, respondeu que mora na rua.

207 mil. Relatório da ONU indica que 207 mil pessoas morrem por ano no mundo, por conta da dependência química.

Evandro Raymundo, 45, já foi um usuário de droga. Mas além de superar a dependência, hoje está à frente do Lar da Galiléia, instituição ligada a Igreja Católica que atende 15 dependentes químicos. “Na época procurei ajuda na comunidade para enfrentar o problema e consegui superar. Então surgiu um convite de fundar o Lar da Galiléia e iniciei o trabalho com o objetivo de ficar 15 dias, mas estou aqui até hoje”, comenta.

Para ele, a atuação da família é fundamental para ajuda no tratamento. “Infelizmente muitas vezes a família releva o problema e faz de conta que ‘foi só uma cervejinha’. Dessa forma, a situação só piora. No entanto, se a família se coloca numa posição firme, de discordar daquela situação e oferecer apoio com amor na busca por ajuda, o dependente desperta para a possibilidade de tratamento”, comenta.

O Lar da Galiléia conta com o apoio dos familiares dos dependentes e de auxílio da Igreja para manter a instituição. O lar utiliza a oração e o trabalho — laborterapia — como pilares para o tratamento.

* O nome João da Silva é fictício e foi utilizado para preservar a identidade do acolhido.

29 milhões. ONU indica que 29 milhões de pessoas sofrem com a dependência química no mundo.

por Comunidade & Artes.

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