O lockdown e o puzzle

O que aprendi com um quebra-cabeça na pandemia?

Camila Trindade
Feb 24 · 7 min read
A ação do tempo em uma parede | Photo by Марьян Блан | @marjanblan on Unsplash

Dispensável falar sobre o momento que estamos passando e toda a transformação que foi provocada ao longo destes mais de um ano. Mudamos muito nossas rotinas e aprendemos formas de ser e estar fora dos padrões a que nos adaptamos ao longo da vida.

Após poucos meses fechada em casa, comecei a introduzir novidades na rotina: pintei algumas paredes, criei um cantinho para me exercitar, comecei a me alimentar melhor, a gerenciar o tempo de outra forma, a organizar o local de trabalho e, também, resolvi estudar um assunto fora da minha atividade profissional (papo para outro post). Entre tantas novas influências, alguns padrões mudaram. Percebi o momento de introspecção, e o quanto este é rico para aprender, adaptar e expandir o olhar sobre nós mesmos e o mundo.

Entre todas as mudanças, uma em especial me mostrou a perspectiva de ver a vida por meio de um pequeno fazer, e isso acumulou aprendizados. E é sobre isso que quero contar.

Para criar um momento diferente na rotina em casa, sair do lugar comum (internet, tv, filmes, jogos, lavar louça, fazer comida, trabalhar, estudar), resolvi montar um quebra-cabeça: o pequeno fazer.

Antes de começar existia apenas o desconhecido e o incerto, uma caixa fechada que ao abrir se tornou ainda mais intimidante. Uma massa amorfa de pequenos pedaços que, caso você não soubesse do que se trata, seria apenas um monte de cores sem sentido.

A massa amorfa que te desafia. Dia 01

Seguindo em frente, posso dizer agora que o que vêm depois são
dias de presença e paciência que me ensinaram seis lições.

1. A percepção da impermanência

Corriqueiramente construímos coisas para que fiquem, para que durem bastante ou uma eternidade. Em contrapartida, a própria vida não é eterna e mesmo o maior dos feitos ou obras um dia será modificado ou levado pelo tempo. Até mesmo uma grande descoberta científica que nos levou longe em determinado momento será questionada, transformada, evoluída. Um obra de arquitetura terá seu desgaste natural, os códigos e ferramentas que utilizamos diariamente mudam, se renovam. Tudo está em constante movimento, até nossos corpos em seus ciclos de manutenção e envelhecimento. E por aí vai…Tanto no universo físico concreto quanto na sutileza das nanopartículas e da mente, a mudança é a constante.

O seu corpo não será mais o mesmo, sua forma de pensar também vai se transformar, aquela casa na esquina terá paredes descascadas, um portão diferente ou toda uma rua poderá ser derrubada para se erguer uma nova construção.

Em 150 anos nenhum ser humano hoje que habita a terra estará aqui vivo, e teremos uma nova sociedade, uma nova cultura e outros humanos com outras perspectivas e formas de pensar.

No budismo, este conceito de impermanência é um dos mais valiosos porque traz à consciência o fato de que tudo está se reconstruindo o tempo todo. Existe o início, o tempo e a transformação. Nada é fixo. O momento deve ser apreciado.

Então, voltamos ao quebra-cabeça.
O que isso tem a ver com aquela tarefa de montar um puzzle?
Tem a ver com o fato de construir algo que será destruído ao final, ou será transformado em um quadro, ou será doado para algúem.
E onde está o valor disso?
Na metáfora que ele apresenta.

O processo acontece e se desfaz repetidamente. Enquanto você vive aquele momento de construção, não importa o que veio antes ou depois.

A potência está no fazer, no construir, no aprender. Porque tudo se desfaz 🧊

Monges budistas construindo uma mandala de areia I Aqui o processo está quase no fim.

2. Começar (ponha-se em movimento)

Alguns falam em sentar e fazer, mas há também quem diga “ponha-se em movimento”.

Parar e Sentar, Pensar e Realizar. Muitas vezes ficamos paralisados, com medo de iniciar um novo processo ou jornada porque olhamos para algo imenso e para o fim, e é muito difícil só ver o fim. Quando tudo já deveria estar resolvido, parece sobre-humano quando você não vê cada passo e decisão, os erros e acertos para chegar no fim. Imagina olhar mil e quinhentas peças de um puzzle e pensar: “nossa, isso aqui é quase impossível! Nem sei como começar”.

Aí é onde reside a mágica: não se faz tudo de uma vez e não se sabe “como” fazer apenas olhando pro mar de peças. O primeiro passo é acreditar e começar. Avançar com pequenos pedaços (dividindo) e agindo, você vai descobrir inúmeras maneiras criativas de lidar com aquela imensidão. Ponha-se em movimento e as ideias começarão a surgir. Quando olhamos para os nossos processos ágeis, estamos fazendo exatamente isso: realizando, observando, aprendendo e melhorando

Coloque-se em movimento e tudo o mais vem junto. Vai! 🏃‍♀️

3. Foco, organização e técnica

Quando você iniciou e colocou a mão e o cérebro naquela massa indefinida de peças, imediatamente você começa a enxergar melhor como vai ser sua abordagem, vai separando as peças retas para a moldura, definindo por onde atacar primeiro, olhando para o cenário que parece ter os melhores contrastes para começar a erguer seu empreendimento. Aí você gasta uma hora separando algumas cores e o espaço parece pequeno para seu olhar dar conta de tudo. E a mesa também parece pequena pra tanta peça :) Então você decide que tá na hora de parar e continuar no próximo dia. Assim seu método começa a ganhar forma e você se torna mais íntimo do seu monstro amorfo inicial.

A cada dia um passo para alcançar o seu objetivo 🌳

4. Aguçar o olhar (cores, formas, detalhes)

A percepção de formas e cores é diferente pra muitas pessoas. Tem gente que vê detalhes e nuances e outras nem tanto. Mas quando você está diante deste desafio, não tem como não ver. Você precisa treinar seu olhar, sua atenção, seus mecanismos internos de percepção material. São muitas similaridades e cada detalhe faz a diferença. Imediatamente, você começa a trabalhar as cores, tons e nuances para posicionar os grupos mais ou menos desta ou daquela forma. É é claro que não tem espaço pra tudo, mas vai-se conquistando um a um, cada pedacinho.

Com isso você aprende sobre as formas, as pontas côncavas e convexas, as retas. Quantas formas possíveis tem naquele emaranhado, e então começa a diferenciar os destaques, cores, nuances e formas (nunca subestime um céu azul!). Da mesma forma que um daltônico tem dificuldades em distinguir algumas cores, um céu azul parecerá igual para todos.

O diabo mora nos detalhes 😈 e os deuses também

5. O momento presente

O quebra-cabeça é um destes veículos que nos coloca no momento presente (como aqueles recursos de terapia ocupacional), toda a nossa atenção para conquistar aquela pequena tarefa, com imersão total naquele foco. Esta é uma metáfora que nos mostra a importância de se dedicar com intensão e amor a um objetivo e, com isso, estar na plenitude do momento com todos os seus sentidos e intelecto aguçados. A ideia de espaço e tempo são diluídas na presença, você não sente as horas e nem pensa onde está.

Estar presente com todo o seu ser e atenção é uma potência, é uma grande energia direcionada pra um único lugar 🚀

Este conceito nos mostra o quão importante é estar no agora com todo seu potencial e presença, não importa a nostalgia do passado que já se consumiu nem a ansiedade do futuro, porque já logo ele se desfaz diante de nossos olhos.

Apreciar o “agora” até que ele se refaça em novas oportunidades, espaços, ideias 🍩

6. Tudo se desfaz

No outro extremo deste pensamento está o fim da tarefa e o objetivo se completa, não há mais o desafio. E agora?

Tudo se desfaz sim.
E podemos desmanchar a construção e partir para a próxima, sem esquecer o que foi aprendido. O legado material e intelectual seguem com você.

Como na vida, nos ciclos… Nós começamos a jornada, nos dedicamos, aprendemos e depois partimos para o próximo desafio. O sentido não está no fim, mas sim no processo

Aprecie a jornada.
Seu fim é apenas uma consequência dos frutos e aprendizados colhidos no caminho
🏃🏽‍♀️

A jornada

No budismo a mandala é construída por dias e dias, um desenho imenso e detalhado com areias coloridas até formar uma linda imagem. No final do processo ritualístico, simplesmente ela é soprada, desmanchada e levada pelo vento 🙌🏼

Resumindo os aprendizados

| Impermanência | Ponha-se em movimento| Organização e técnica | Olhar aos detalhes | Momento presente | Tudo se desfaz |

E você, o que aprendeu de interessante nesta quarentena? Se identificou com algum ponto do texto? Deixe seu comentário! E se você quiser fazer parte de um time super criativo que está descobrindo aprendizados todos os dias, é só dar uma olhada aqui e vamos aprender juntos. Até a próxima!

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