“O que justifica afirmar a existência do Inconsciente”. (Primeiro Capítulo de O Inconsciente, 1915)

O primeiro texto que escolhi para a coluna Deslocamentos é um clássico muito importante de Freud denominado O Inconsciente, do ano de 1915, mais exatamente seu primeiro capítulo, “O que justifica afirmar a existência do Inconsciente”.

Em 1915, estamos no meio da Primeira Guerra Mundial. Freud tem poucos pacientes devido ao conflito que toma a Europa. A situação era tão difícil que recebia comida enviada por Ferenczi e alguns colegas holandeses. Não havia nem aquecimento em casa, sendo que as temperaturas na Áustria no inverno ficam na média de 1 grau negativo, podendo chegar até a 18 graus negativos. Freud chega até a pedir batatas como pagamento por um artigo escrito em jornal.

Os filhos de Freud foram para a guerra. Também nesta época o psicanalista perde um meio-irmão. Coincidentemente (ou não… provavelmente não) é uma época em que Freud escreve muito: os artigos sobre a Metapsicologia, O Inconsciente, Pulsões e seus Destinos, Repressão, entre outros, datam deste período.

Citado o momento histórico, vamos ao capítulo:

“O que justifica afirmar a existência do Inconsciente”.

Freud já inicia o texto (antes mesmo de iniciar o capítulo) com algo muito importante: mesmo a idéia recalcada — representante de uma pulsão — produz efeitos sobre a psique e pode atingir o topo do aparelho psíquico (consciente) indiretamente. Freud se refere às formações do Inconsciente, chistes, atos falhos, sonhos, esquecimento de nomes e sintomas.

Além de afirmar outra coisa bastante importante: o Inconsciente é maior que o recalcado, o recalcado é apenas uma parte do Inconsciente, não todo ele. Não é uma informação nada despretensiosa, é bastante importante: Winnicott, por exemplo tem toda uma clínica que não é a dos conteúdos recalcados, mas de coisas que não puderem ser nem ao menos integradas ao self, quando mais recalcadas.

Depois de argumentar que as formações do Inconsciente só podem na realidade ser explicadas partindo-se da premissa de que existe realmente o Inconsciente, Freud vai sustentando esta ideia fazendo algumas observações:

1- Na época, argumentava-se que lembranças latentes não poderiam ser qualificadas como psíquicas e que corresponderiam a resquícios somáticos sem sentido.

A lembrança latente é justamente o resquício de um processo psíquico. Este julgamento errôneo, de que as lembranças latentes seriam resquícios somáticos, deve-se à tentativa de equivalência entre psíquico e consciente, o que para Freud não tem sentido.

Os processos psíquicos latentes poder ser tornados em processos psíquicos conscientes ou serem substituídos pro processos psíquicos conscientes. A sugestão hipnótica nas histéricas mostra exatamente isto: em estado de hipnose as pacientes conseguiam lembrar como e quando seus sintomas apareciam.

2- Conseguimos por observação de nossa própria consciência supor que as outras pessoas também têm uma consciência.

Porém, quando se tratam dos atos latentes, o ser humano consegue inferir mais facilmente que eles existam nos outros do que em si. Freud propõe que se possa fazer o mesmo consigo, embora saiba que não é uma tarefa simples.

“…quando se trata se si mesmo, o indivíduo resiste e nem sequer admite a existência psíquica destes atos.”

“…a pesquisa, quando dirigida para o próprio funcionamento íntimo da pessoa, é desviada de seu rumo por um viés específico situado no próprio sujeito que o impede, assim, de vir a se conhecer.”

Interessante que Freud use a palavra resistência!

3- Em virtude da dificuldade de admitir o Inconsciente em si próprio, devido à oposição interna, a pessoa pode vir a supor que o que há é na verdade uma segunda consciência, argumento que no fundo não se sustenta. Um dos motivos é que uma segunda consciência de que não se saberia nada é de outra natureza do que a de uma consciência.

A Psicanálise mostra que os processos psíquicos latentes funcionam com alto grau de independência, como se não estivessem inter-relacionados e não soubessem um dos outros. Portanto, se admitirmos uma segunda consciência, logo poderíamos supor uma terceira, uma quarta, uma quinta, o que não faz sentido algum.

E mais importante, o exame psicanalítico mostra que esses processos latentes possuem características bastante estranhas e diversas do que ocorre com os processos conscientes. Freud fala do processo primário.

4- O que existem são atos psíquicos desprovidos de consciência.

Freud diz que não se aplica o termo subconsciente, pois estaria incorreto. O termo que a Psicanálise usa é Inconsciente.

5- Por fim, do ponto de vista da Psicanálise todos os processos psíquicos são inconscientes. A Consciência percebe esses processos da mesma forma que os órgãos dos sentidos percebem o mundo exterior.

A genialidade da descoberta Freudiana é nos mostrar a força que o Inconsciente tem, processos totalmente desconhecidos para o sujeito podem fazê-lo adoecer ou podem ser a mola propulsora para uma vida mais feliz e prazerosa. De uma forma ou de outra, “ O Ego não é mais senhor em sua própria casa”.